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Maria Raquel Brito
Publicado em 10 de abril de 2026 às 05:00
A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) é essencial para quem deseja se prevenir do HIV. Não à toa a procura aumentou significativamente entre 2018 e 2025 na Bahia, de acordo com o Painel PrEP, elaborado pelo Ministério da Saúde. Hoje há 5.460 usuários regulares no estado, mas o abandono também é expressivo. De todas as pessoas que começaram a tomar o medicamento desde o início da série histórica, 33% estão descontinuadas. >
A PrEP é um tratamento para qualquer pessoa a partir de 15 anos que não tenha HIV, mas esteja em situação de vulnerabilidade para o vírus, a exemplo daquelas que deixam frequentemente de usar camisinha nas relações sexuais (sejam anais ou vaginais), quem faz uso repetido de PEP (Profilaxia Pós-Exposição ao HIV) e quem apresenta histórico de episódios de infecções sexualmente transmissíveis (IST). Se usada corretamente, reduz o risco de HIV em até 90%.>
PrEP e HIV na Bahia
Entre as faixas etárias, as maiores taxas de descontinuidade foram registradas em pessoas abaixo de 18 anos (57%) e entre 18 e 24 anos (49%). É para desburocratizar a PrEP e incentivar os jovens a aderir e persistir na prevenção que nasce o estudo inédito COMPrEP (PrEP na comunidade), que aposta em levar esse medicamento para além das unidades de saúde e alcançar espaços de sociabilidade juvenil. O lançamento será na tarde desta sexta-feira (10), num evento aberto ao público no Instituto Gonçalo Moniz (IGM), sede da Fiocruz em Salvador. >
No público alvo da pesquisa estão jovens entre 15 e 24 anos, especialmente homens que fazem sexo com homens, travestis e pessoas trans. O estudo será desenvolvido em Salvador e São Paulo, com a participação de cerca de 1,4 mil jovens que serão divididos entre dois modelos de cuidado, para fins de comparação: o tradicional, realizado em unidades de saúde, e o comunitário, com oferta de PrEP mediada por educadores pares e supervisionada por equipe clínica. >
“O grande desafio de criar a oferta de PrEP é chegar até quem mais precisa dela, que são basicamente as populações mais vulneráveis. Os jovens e adolescentes são os que menos acessam a PrEP no Brasil. As pessoas que mais acessam são brancas com pelo menos 12 anos de escolaridade, ou seja, são as que mais têm informação, que conseguem se organizar para ir até um serviço de saúde, enfrentar toda a burocracia do serviço de saúde e ter acesso à PrEP. Será que um modelo mais simplificado, na comunidade, alcança um mínimo equivalente ao serviço de saúde. É isso que queremos responder”, afirma Laio Magno, pesquisador da Fiocruz Bahia e professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).>
Na Bahia, a maioria dos usuários de PrEP são gays e outros homens que se relacionam sexualmente com homens (bissexuais, por exemplo), que representam 83,7%. Em seguida vêm os homens heterossexuais cis, que são 5,5% dessa população. Em relação à faixa etária, o maior percentual de usuários está na faixa dos 30 a 39 anos – 39,3% do total.>
O COMPrEP é desenvolvido por pesquisadores da UFBA, UNEB, Fiocruz Bahia, Universidade de São Paulo (USP) e University of Alabama at Birmingham, em parceria com o Ministério da Saúde, secretarias estaduais e municipais e organizações da sociedade civil.>
Atualmente, existem mais de 40 unidades dispensadoras de PrEP na Bahia, espalhadas por 34 cidades, como Salvador, Feira de Santana e Vitória da Conquista. Confira a lista aqui. >
A meta do estudo é avaliar a efetividade da oferta de PrEP quando é oferecida em contextos comunitários, por pessoas que têm as mesmas vivências e identidades sexuais e de gênero – os chamados educadores pares, jovens das próprias comunidades, capacitados para orientar, acolher e acompanhar outros jovens no uso da estratégia de prevenção –, em comparação ao serviço padrão. >
O acompanhamento deve começar entre setembro e outubro, e terá duração de até 12 meses com avaliação de indicadores como início, adesão e permanência no uso da profilaxia.>
Enquanto elaboravam a intervenção, os pesquisadores tinham como um dos objetivos prévios mapear espaços de sociabilidade do público alvo em Salvador, para, então, verificar os bairros que concentram os espaços mais frequentados por jovens e adolescentes dessas comunidades. Assim foram definidos os pontos que integrariam o modelo comunitário do estudo. >
“Nós encontramos que algumas regiões centrais de Salvador são mais frequentadas por essa população alvo. A região do Rio Vermelho, o Santo Antônio Além do Carmo, o próprio centro da cidade e aquela região do Porto da Barra são muito frequentadas por essas populações alvo do nosso estudo. Então, não necessariamente essas pessoas precisam morar nesses locais, mas frequentam e poderão ter acesso à PrEP por meio dessa intervenção”, explica Laio.>
A programação do lançamento conta com quatro atividades a partir das 14h. A primeira mesa reúne representantes do Instituto de Saúde Coletiva/Universidade Federal da Bahia (UFBA), do Departamento de Ciências da Vida da Uneb e do IGM/Fiocruz.>
Depois, acontece a mesa de apresentação do projeto COMPrEP, com Katia Bruxvoort (University of Alabama at Birmingham) e Inês Dourado (Instituto de Saúde Coletiva /UFBA), moderada pelo pesquisador Alexandre Grangeiro. >
Às 15h20, uma roda de conversa moderada por Laio Magno reúne representantes do Ministério da Saúde, da Secretária da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS) e dos Movimentos Sociais e da Juventude. O evento será encerrado com um coquetel de lançamento e um show da cantora Manu Ella.>