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Maria Raquel Brito
Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 05:30
A violência em Salvador fez com que uma unidade de saúde precisasse suspender as atividades a cada dois dias na capital baiana em 2025. Foram 175 interrupções temporárias ao longo do ano passado, aponta a Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS). >
Segundo a pasta, as suspensões são adotadas de forma preventiva quando são registradas situações de violência nas imediações dos serviços, com o objetivo de priorizar a segurança de pacientes e trabalhadores da saúde.>
Unidades de saúde em Salvador
De acordo com Bruno Carianha, diretor licenciado do Sindicato dos Servidores da Prefeitura do Salvador (Sindseps), as unidades com mais problemas na capital baiana estão em Fazenda Coutos, São Cristóvão, Federação, Arenoso, Águas Claras, Palestina e Valéria, entre Unidades de Saúde da Família (USFs) e Unidades Básica de Saúde (UBSs).>
Enquanto um dos representantes do sindicato, Carianha recebe com frequência relatos de profissionais de saúde que são vítimas de ameaças e temem até tocar no assunto. “Esses confrontos geram no trabalhador uma dificuldade em se proteger dentro da unidade. Eles reclamam muito que dentro da própria unidade não tem como se proteger. Quando tem as trocas de tiros, o pessoal já fica com medo de voltar a trabalhar naquele local no dia seguinte, com medo de perder suas vidas. Trabalhadores já tiveram o carro baleado”, conta.>
Na capital baiana, se repetem episódios como o interrompimento dos serviços da Unidade Básica de Saúde da Família (USF) do KM-17, em Itapuã, após um intenso tiroteio no local na manhã de 24 de setembro de 2024. >
“Quando dá tiro assim, os médicos todos ficam com medo e acabam não vindo. O posto fica bem no fim de linha mesmo, onde essas coisas acontecem. A gente de manhã já imaginava que não ia abrir para atendimento e não deu outra: cadeado trancado”, disse, à época, uma moradora que preferiu não se identificar por medo de represálias.>
Situações como essa também não são raras para Lilia Cordeiro, enfermeira e diretora do Sindseps. “Ouço relatos semanais. Acolhemos os servidores no telefone em pânico, gritando, chorando, desesperados. Imediatamente fazemos o contato com a gestão para intervenções que reduzam os danos”, diz.>
Ela reitera que, quando unidades básicas de saúde fecham as portas devido à insegurança, toda uma comunidade fica sem assistência por um dia ou até por semanas. Ao mesmo tempo, é o modo mais eficaz de garantir a segurança dos profissionais e da população no momento de risco.>
“A interrupção é solicitada pelas entidades que defendem os trabalhadores, para garantir a integridade física e psicológica dos mesmos. (...) Para os profissionais gera insegurança, danos psicológicos e até solicitações de saída da lotação onde ocorreu a violência.”>
É por conta dos efeitos da violência em serviços essenciais como saúde e educação que existe o Acesso Mais Seguro para Serviços Públicos Essenciais (AMS), protocolo do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) adotado por unidades de saúde e escolas de diversas cidades brasileiras. >
O programa tem o objetivo de reduzir as consequências da violência armada para profissionais expostos a contextos de violência armada e para a população atendida, possibilitando que os profissionais avaliem as condições de segurança para que a unidade abra e continue funcionando. >
A escala de risco se divide em quatro cores: verde (risco baixo, funcionamento normal), amarelo (risco moderado, suspensão de atividades externas), laranja (risco em reavaliação após estado grave, fechamento temporário) e vermelho (risco crítico, fechamento da unidade).>
Salvador é a cidade mais recente a implementar o programa, já presente em locais como Porto Alegre, Florianópolis, Vila Velha, São Paulo, Rio de Janeiro, Duque de Caxias e Fortaleza. Até outubro, data com os dados mais recentes disponíveis, a capital baiana tinha 34 unidades públicas (incluindo unidades de saúde, educação e ação social) com Plano de Contingência validado. A plataforma AMS, por sua vez, estava em uso por 21 unidades, o que resultou em 1.468 notificações de baixo risco; 294 de médio risco; 72 de alto risco; e 98 de risco crítico.>
A reportagem pediu à Secretaria Municipal de Gestão (SEMGE) o número atualizado, mas a resposta não chegou até a publicação da matéria. >