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Maria Raquel Brito
Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 05:00
Uma série de falhas impede que crianças e adolescentes vítimas de violência consigam assistência plena na Bahia. É o que aponta um relatório feito pelo Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA), que analisou ações e políticas públicas voltadas para a prevenção e o enfrentamento da violência contra pessoas de até 18 anos. >
O documento é resultado de um levantamento feito pelo TCE entre janeiro de 2023 e junho de 2024. A pesquisa foi realizada através de entrevistas e questionários com os entes que integram o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA), responsável por assegurar e operacionalizar os direitos da infância e juventude. O sistema funciona através da articulação de diversos órgãos, como Conselho Tutelar, Ministério Público, Defensoria Pública do Estado e as polícias Civil e Militar. >
O relatório com os resultados da pesquisa mostra que existem pelo menos 20 problemas que dificultam a atividade plena do SGDCA. Entre as fragilidades, se destacam a desatualização do sistema, que foi estabelecido em 2002 e não tem monitoramento ou avaliações periódicas; a falta de integração e comunicação eficiente entre as instituições, que faz com que as crianças precisem repetir os relatos mais de uma vez para diferentes autoridades e, consequentemente, revivam os traumas; e falhas estruturais e de capacitação nas unidades de acolhimento. A esses problemas, soma-se a inexistência do Comitê Estadual de Gestão Colegiada da Rede de Cuidado e Proteção, previsto em normas nacionais. >
As perguntas feitas aos órgãos foram divididas em cinco eixos: governança multinível, prevenção, enfrentamento e rede de acolhimento, dados e estatísticas, e boas práticas. O relatório foi construído a partir das respostas dos quatro primeiros eixos – isso porque, de acordo com o documento, não foram identificadas boas práticas para fins de registro.>
“Verificou-se que há uma série de obstáculos que ainda devem ser contornados pelo estado da Bahia para que o SGDCA atinja efetivamente as suas funções de repressão e acolhimento, evitando, ainda, os riscos de revitimização e/ou violência institucional. Uma boa parte das fragilidades identificadas foram unânimes entre os órgãos participantes, destacando-se as falhas na comunicação entre os atores do sistema”, diz o relatório.>
Ao final dos procedimentos de fiscalização, o relatório avaliou como alto o risco de as crianças e adolescentes vítimas de violência sofrerem revitimização no Estado da Bahia, e afirmou que “fica demonstrada a existência de fragilidades nas ações e políticas públicas desenvolvidas na Bahia pelos entes do SGDCA na prevenção e enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes”. O TCE concluiu o documento afirmando que o levantamento pode servir como base para o planejamento de futuras auditorias.>
Questionado de quem é a responsabilidade de pôr em prática as correções necessárias para as falhas apontadas no relatório, o TCE afirmou que o levantamento tem natureza exploratória e informativa, e serve para mapear cenários, identificar práticas e levantar dados iniciais sobre a atuação dos entes que integram o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente, sem gerar achados formais ou atribuir responsabilidades, uma vez que não se trata de uma auditoria. >
“Os apontamentos existentes são apenas uma coleta de informações, sem juízo de valor, sem conclusões institucionais e sem validação pelos órgãos envolvidos. Qualquer divulgação interpretativa, personalizando responsabilidades ou conclusões, poderia distorcer o caráter técnico do levantamento e antecipar análises que só poderiam ocorrer em um processo formal de auditoria”, afirma o órgão.>
A reportagem também procurou o Governo do Estado, que administra grande parte dos órgãos do SGDCA, para perguntar como o relatório pode ser usado para aprimorar as políticas públicas de proteção às crianças e adolescentes baianos e se há previsão de estabelecer diretrizes para que os municípios definam o fluxo de atendimento das crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência e instituir o Comitê Estadual de Gestão Colegiada da Rede de Cuidado e Proteção. Em resposta, o governo informou que o SGDCA não é de responsabilidade do estado, mas que a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SJDH) tem ações e projetos que visam garantir essa proteção, e indicou que a pasta fosse contatada. >
A SJDH, por sua vez, disse que executa a Agenda Bahia de Acesso à Justiça e Direitos Humanos, que atua nos eixos de promoção, proteção, defesa e fortalecimento institucional. Para viabilizar essas metas, está previsto um investimento de R$ 169,4 milhões até o ano de 2026. Entre os pilares dessa agenda, estão o Centro Proteja!, com atendimento integrado a crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência, e o Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM). >
A pasta informou ainda que o Comitê Estadual de Gestão Colegiada da Rede de Cuidado e Proteção já foi formalmente instituído, através da Resolução nº 07/2024 do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente (CECA), e que o processo encontra-se agora na fase de convocação de entidades para a indicação de representantes.>