Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Flavia Azevedo
Publicado em 10 de abril de 2026 às 22:17
Nesta sexta-feira (10), a humanidade testemunhou o encerramento de um dos capítulos mais audaciosos da exploração espacial contemporânea. Após dez dias de uma jornada que levou quatro seres humanos a distâncias nunca antes alcançadas, a cápsula Orion, batizada pela tripulação como Integrity, realizou seu aguardado splashdown no Oceano Pacífico, próximo à costa da Califórnia, nos Estados Unidos. >
A chegada ocorreu pontualmente às 21h07, conforme previsto pela NASA, quando a cápsula tocou as águas do Pacífico após uma descida monitorada por milhões de pessoas ao redor do globo. O resgate, coordenado por uma operação conjunta entre a NASA e a Marinha dos Estados Unidos, mobilizou o navio anfíbio USS John P. Murtha, equipado com helicópteros Sea Hawk e equipes médicas especializadas. Logo após o splashdown, o comandante da missão, Reid Wiseman , informou o bom estado de saúde dos quatro astronautas (Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen, além dele) com a frase: “Que jornada! Estamos estáveis. Quatro tripulantes verdes.”. A afirmação de que estariam “verdes” foi interpretada como uma referência a prováveis enjoos causados pelo impacto físico dessa última etapa. >
A gravidade>
O retorno da Artemis II não foi apenas um procedimento técnico, mas uma prova de resistência física e tecnológica. Após 685 mil milhas percorridas (cerca de 1,1 milhão de quilômetros), a transição da microgravidade para a força da gravidade terrestre exigiu protocolos médicos rigorosos. Horas antes do pouso, a tripulação iniciou o processo de “carga de fluidos”, consumindo água e sal para estabilizar o sistema cardiovascular antes de enfrentar o impacto do retorno.>
Assim que a cápsula estabilizou no oceano, utilizando um sistema de cinco airbags para garantir a flutuação correta, mergulhadores da Marinha realizaram a inspeção externa de segurança. Em seguida, um médico avaliou as condições dos astronautas, que foram então retirados da Orion e conduzidos para o navio.>
Dez dias no abismo>
Lançada no último dia 1, do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, a missão Artemis II marcou o primeiro voo tripulado para as vizinhanças da Lua em mais de 50 anos. Embora a Orion não tenha pousado na superfície lunar, ela cumpriu uma trajetória de “livre retorno”, contornando o satélite e utilizando sua gravidade para ser impulsionada de volta à Terra.>
Durante a missão, a equipe atingiu a distância recorde de 252.756 milhas (aproximadamente 406.772 km) da Terra enquanto orbitava o lado oculto da Lua. Esse marco superou a distância alcançada pela lendária missão Apollo 13 em 1970. No auge dessa etapa, a tripulação experimentou 40 minutos de silêncio absoluto, perdendo todo o contato de rádio com o mundo enquanto cruzava a face da Lua que nunca está voltada para nós.>
Além dos recordes de distância, a missão foi um laboratório vivo. Os astronautas testaram sistemas críticos de suporte à vida, comunicações e controles manuais de navegação, essenciais para futuras manobras de acoplagem com o sistema de pouso humano (HLS). Nem tudo foi tecnologia de ponta: a tripulação também enfrentou desafios cotidianos, como problemas no sistema de descarte de resíduos do primeiro banheiro espacial.>
Os perigos da reentrada>
A Orion atingiu a atmosfera terrestre a uma velocidade hipersônica de aproximadamente 40.000 km/h, ou cerca de Mach 32. Nessa velocidade, o atrito com o ar gerou um envelope de plasma superaquecido ao redor da nave, elevando as temperaturas externas a escaldantes 2.700°C.>
Para sobreviver a esse ambiente hostil, a NASA utilizou a técnica de “skip entry” (reentrada com salto). Semelhante a uma pedra saltando sobre a superfície de um lago, a cápsula mergulhou inicialmente na atmosfera para reduzir a velocidade, subiu brevemente para resfriar o escudo térmico e realizou o mergulho final para o oceano. Esse método também ajudou a reduzir as forças G sobre os astronautas, que ainda assim enfrentaram uma pressão equivalente a quase quatro vezes o peso do próprio corpo (3,9G).>
Durante o pico de calor, ocorreu um “blackout” de comunicações de aproximadamente seis minutos, causado pelo plasma que bloqueia as ondas de rádio. Foram minutos de silêncio no Centro de Controle em Houston, até que a voz do comandante Wiseman rompeu o rádio confirmando a integridade da nave. >
O sucesso do escudo térmico era o ponto de maior interrogação da missão. Após danos inesperados observados na missão não tripulada Artemis I, o componente feito de material ablativo Avcoat passou por revisões profundas. >
Um novo capítulo>
O sucesso da Artemis II pavimenta o caminho para a Artemis III e IV, previstas para 2027 e 2028, que planejam finalmente levar humanos de volta ao solo lunar. Mais do que “bandeiras e pegadas”, o objetivo agora é a sustentabilidade. A NASA anunciou recentemente a aceleração de planos para construir uma base lunar permanente, um projeto estimado em 20 bilhões de dólares, abandonando a ideia inicial de uma estação orbital (Gateway) para focar na infraestrutura de superfície.>
A Lua é vista agora como um campo de treinamento crucial para Marte. A exploração do Polo Sul lunar, rico em gelo de água que pode ser convertido em oxigênio e combustível, é a prioridade estratégica para garantir uma presença humana de longo prazo.>
Futuro>
A tripulação da Artemis II também simboliza uma mudança na narrativa da exploração espacial. Victor Glover tornou-se o primeiro homem negro a viajar para o espaço profundo, Christina Koch a primeira mulher e Jeremy Hansen o primeiro astronauta não americano em uma missão lunar. >
A missão termina não apenas com o resgate de quatro heróis modernos, mas com a validação de que os sistemas de suporte à vida e a tecnologia de reentrada são capazes de proteger seres humanos em viagens interplanetárias. A Orion está em casa. A Lua, no entanto, nunca esteve tão perto de nós.>
Por @flaviaazevedoalmeida>