50 policiais participam da reconstituição da morte do miliciano Adriano

minha bahia
12.07.2020, 07:48:00
Atualizado: 12.07.2020, 08:07:39
(Foto: Alberto Maraux/SSP)

50 policiais participam da reconstituição da morte do miliciano Adriano

A reprodução simulada acontece no sítio em que o miliciano carioca foi morto, no município de Esplanada

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Cerca de 50 policiais participam neste domingo (12) da reconstituição da morte do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, 43 anos, que ocorreu no dia 9 de fevereiro deste ano. As equipes envolvidas no confronto que terminou com a morte do acusado vão refazer todo o percurso do dia da morte e reproduzir tudo o que ocorreu no dia em que foi realizada a operação para cumprimento da prisão, que acabou com o miliciano morto, em um sítio, na cidade de Esplanada, no Noroeste baiano. Ex-integrante do Bope do Rio de Janeiro e chefe do Escritório do Crime, Adriano estava dentro de uma casa do sítio quando foi baleado por policiais baianos em fevereiro deste ano. Ele teria reagido a um cerco policial.  

Foto: Reprodução

A reconstituição é realizada pela Secretaria da Segurança Pública da Bahia, através das polícias Civil e Técnica e foi solicitada pelo Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco). A reprodução simulada é coordenada pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT). Os peritos criminais e técnicos analisarão as informações dos depoimentos e repetirão os movimentos, nos locais onde eles ocorreram.

O Ministério Público Estadual da Bahia (MP-BA) encaminhou um rol de requisitos que deve ser respondido por peritos do Departamento de Polícia Técnica (DPT) na reconstituição da morte do miliciano. A reprodução simulada dos fatos acontece em um sítio, pertencente ao vereador da cidade Gilson Lima.

Familiares de Adriano chegaram a trabalhar no gabinete de Flávio Bolsonaro, hoje senador da República, por indicação de Fabrício Queiroz, acusado de chefiar um esquema de rachadinha por lá. O miliciano foi homenageado por Flávio, quando este era deputado federal, em 2003.

Em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o filho do presidente disse ter homenageado Adriano Nóbrega por acreditar que o policial era injustiçado ao ser acusado "de ter matado um trabalhador que, na verdade, era um traficante". "Resolvi abraçar aquela causa. Até homenageei ele depois como forma de mostrar que acreditava na palavra dele. Ele, agora, está sendo acusado de um monte de coisa. Se ele estiver errado, que a lei pese sobre ele. Como exigir de mim saber de algo que 15 anos depois veio à tona?", respondeu.

Foto: Alberto Maraux/SSP

De acordo com o MP-BA, os pontos que deverão ser respondidos pelos peritos foram encaminhados para o Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), responsável pela parte operacional da reconstituição. O MP-BA informou que não solicitou a reprodução dos fatos, mas que foi comunicado e que a acompanha esta fase do processo. Quatro promotores estão no caso, entre eles Dário José Kist, representante do MP-BA em Esplanada.

A reconstituição foi anunciada no início deste mês pelo MP-BA, mas não havia data marcada. O MP-BA informou que a simulação só deveria acontecer depois que a pandemia de covid-19 estivesse sob controle.

Foto: Alberto Maraux/SSP

O laudo do DPT  da polícia baiana apontou que Adriano foi morto com dois tiros, sendo um no tórax e outro que atravessou o corpo e atingiu o pescoço. Uma segunda autópsia realizada no corpo do miliciano pela Polícia Civil do Rio de Janeiro confirmou as informações do primeiro laudo, realizado pela Polícia Civil da Bahia.

Surpresa
Logo após à morte de Adriano, o sítio foi fechado. Dias depois, a casa teve a porta arrombada e a mala do miliciano fora roubada do imóvel de três quartos, com sala, cozinha e banheiro. Procurado pelo CORREIO, o vereador Gilson Lima disse que a propriedade permanecia fechada e que não sabia da reconstituição.

“Pra mim é uma surpresa! Só se meu advogado tenha sido comunicado e ainda não me passou nada. Não estou ciente disso, mas acho válido tudo que puder esclarecer a verdade dos fatos, pois não tenho nenhuma vinculação com o ocorrido, que pra mim foi um grande susto”, declarou Lima, que na ocasião da morte de Adriano disse que não conhecia o miliciano e relatou que ele teria invadido o sítio. 

Gilson disse que não vai acompanhar a reconstituição. “Não estava lá no dia. Quando aconteceu, já estava há oito dias fora da cidade com a minha família e por isso não tenho por que estar no sítio. Mas, com certeza, meu advogado deve ir”, disse. 

Quando Adriano foi morto, o vereador era filado ao Partido Social Liberal (PSL). Atualmente, Gilson é do Partido Trabalhista Nacional (Podemos). De acordo com moradores da cidade ouvidos pelo CORREIO, a mudança aconteceu para desvincular a imagem do político com o episódio ocorrido com o miliciano, que tinha uma boa relação com presidente Jair Bolsonaro e família. 

Gilson disse que a morte do miliciano não foi um fator predominante. “Não foi só por causa desse fato. Já estava para sair.  Mudei de fato pela mudança ideologia do partido à nível nacional. O PSL fazia parte da base de Rui Costa e o partido hoje apoio o presidente”, declarou.

Celulares
Os 13 celulares apreendidos na operação que terminou com a morte de Adriano foram encaminhados do MP-BA ao Ministério Público do Rio de Janeiro para passar por perícia. O Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-RJ, afirmou que os telefones já foram periciados, mas o conteúdo não será divulgado porque o caso segue sob sigilo.

Na época da morte de Adriano, a SSP chegou a informar que ele era suspeito de envolvimento na morte da vereadora do Rio, Marielle Franco, e do motorista Anderson Gomes. O nome dele, contudo, não está no inquérito que investiga a morte de Marielle. Ele estava foragido desde janeiro de 2019, acusado de chefiar uma milícia e era acusado por três homicídios.
 

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