A caminho da morte: dentro de igreja de Salvador, escola ensinava a 'morrer bem'

salvador
02.11.2018, 04:00:00

A caminho da morte: dentro de igreja de Salvador, escola ensinava a 'morrer bem'

Com jesuítas, capital baiana abrigou uma das 21 escolas de Bem Morrer do mundo

Imagem de São Francisco de Borja carrega uma caveira: "Ele desafia a olhar para a morte", explica historiadora
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Todos os domingos, pouco antes das 15h30, o sino da igreja do Colégio dos Jesuítas - hoje Catedral Basílica de Salvador -, no Terreiro de Jesus, soava. Era a convocação para alguns aprendizes que, no interior da igreja, reuniam-se próximo ao altar colateral de Nossa Senhora das Dores. Da sacristia, saíam o padre, um diretor espiritual e outros quatros religiosos. Tudo aquilo era a preparação para uma aula. E a igreja, claro, virava uma escola. Não, não uma qualquer: era a chamada Escola do Bem Morrer.

E não tinha nada de macabro. Naquele tempo, no final do século XVII, os alunos aprendiam a morrer e, portanto, a viver bem para alcançar uma morte digna. E embora esse tipo de aprendizado tenha ficado para trás, a única escola da morte já existente na capital baiana, envolta em mistérios e desconhecimentos, ainda revela seus vestígios nos mínimos detalhes da Catedral. A catedral da finitude da vida.

A Escola do Bem Morrer foi uma confraria pensada pela Companhia de Jesus, o símbolo de uma época e de uma filosofia. Começou a funcionar, ao que tudo indica, no ano de 1682, por obra dos jesuítas. Um espaço, inclusive, aparentemente democrático.

Não havia cobrança ou restrição por classe social e gênero para a seleção dos alunos. O importante era comparecer, religiosamente, aos domingos, sempre no meio da tarde, para os encontros da escola. Durante mais de uma hora, provavelmente em pé, os alunos escutavam os caminhos para a salvação, para uma morte tranquila. Enfim, falavam da passagem da vida, como acreditavam os jesuítas.

A escola da morte baiana teve a história encoberta por um véu de invisibilidade até que a historiadora e pesquisadora Luciana Onety, numa visita à página online da Biblioteca Nacional de Portugal, descobriu a existência de confrarias para a morte. No mundo, foram, pelo menos, 21 escolas do Bem Morrer. Em 2014, ela publicou a dissertação de mestrado: “A presença da pedagogia de Bem Morrer na Cidade da Bahia”, defendida na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Sim, a morte tornou-se uma pedagogia na Bahia.  

São Francisco de Borja segura, em altar colateral da Catedral Basílica, uma caveira sobre um livro
São Francisco de Borja segura, em altar colateral da Catedral Basílica, uma caveira sobre um livro (Foto: Fernanda Lima/CORREIO)
Chão da Catedral Basílica: uma lembrança aos mortos
Chão da Catedral Basílica: uma lembrança aos mortos (Foto: Fernanda Lima/CORREIO)
São Francisco Xavier traz, no peito, uma gota do próprio sangue
São Francisco Xavier traz, no peito, uma gota do próprio sangue (Foto: Fernanda Lima/CORREIO)
Altar colateral de Nossa Senhora das Dores, onde acredita-se que ocorriam as aulas do Bem Morrer
Altar colateral de Nossa Senhora das Dores, onde acredita-se que ocorriam as aulas do Bem Morrer (Foto: Fernanda Lima/CORREIO)

A caminho do purgatório
No maior símbolo de sua locação na Cidade da Bahia, a hoje Catedral Basílica, os jesuítas discutiam a morte numa época sem hospitais ou qualquer medicalização. O fim da vida ocorria em casa - e era preciso estar preparado, espiritualmente, inclusive. Os jesuítas enxergaram a morte numa ponderação entre o medo e a confiança:

“Na mentalidade jesuíta, ir para o purgatório [para onde vão as pessoas, segundo a religião católica, antes de partirem para o céu ou inferno] é desejado. Lá, há necessidade da justiça, é hora de pagar pelo que fez, mas há, também, misericórdia”, ensina a pesquisadora.

A morte era uma passagem temível, mas inevitável. O purgatório, por sua vez, um local de esperança. “Para o céu dificilmente alguém iria, porque ninguém é santo”, brinca a historiadora. A Escola do Bem Morrer era, portanto, um local de remissão dos pecados.

Os matriculados tinham uma lista de deveres. Deles, vinham os benefícios, como lista a historiadora: inscreveu-se na confraria? Perdão dos pecados cometidos até aquele momento. Confessou os pecados? Sete anos e sete quarentenas de perdão. Rezou cinco pais-nossos e ave-marias? Dois meses de pecados perdoados. “Claro que isso também atraiu os fiéis em busca do purgatório, da salvação. Existiam os benefícios”, alerta Onety. 

2 mil alunos
Somados os benefícios, o medo da morte e a busca pela plenitude, a escola começou a atrair cada vez mais aprendizes. Nos cálculos de Luciana Onety, a única a pesquisar a confraria, foram duas mil assinaturas até o fechamento da escola. À época, numa Salvador com não mais de 25 mil habitantes, um número expressivo - cerca de 8% da população.

“Só não foi possível confirmar o perfil desses estudantes ou se, por exemplo, escravos podiam frequentá-la”, explica.

Na escola, faziam, principalmente, orações para a morte e os exercícios espirituais. Quando um ou outro aluno acreditava estar perto da morte, entregava um documento ao padre em busca de novas preces pela alma. 

O aprendizado para bem morrer, no entanto, foi interrompido em 1759. Naquele ano, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas daqui. Não havia mais professores. Eles, que até então eram os guardiões da pedagogia da morte no Brasil, foram considerados rebeldes, traidores, adversários e agressores - depois, forçados a fugir com a bagagem de ensinamentos. Na Cidade da Bahia, já não haveria escola para a morte. Sem os jesuítas, a morte foi colocada novamente no invólucro do mistério absoluto.

Morre a escola, ficam os símbolos
Mas, se a Escola do Bem Morrer desapareceu junto com os jesuítas, os símbolos da morte ficaram espalhados pela Catedral, a igreja mãe de todas as outras de Salvador, inaugurada em 1672. A exaltação à morte surge na fachada da Basílica.

“Olhe para cima”, provoca Luciana Onety. Lá está: São Francisco Borja com uma caveira à mão. “É o primeiro vestígio da morte na igreja? O que significa?”, pergunta a reportagem.

“É um desafio, ele desafia a olhar a morte”, explica Luciana. Os turistas passeiam sem levantar os olhos para os sinais, sem seguir o desafio.

Luciana Onety: à frente de altar colateral de São Francisco de Borja, um dos símbolos da morte na Catedral
(Foto: Fernanda Lima/CORREIO)

É o próprio São Francisco de Borja o grande guardião das palavras sobre a morte. Percebeu, numa experiência catártica, a força da morte diante da arrogância dos vivos. Responsável pelo transporte do cadáver da Rainha Isabel de Portugal desde Toledo, na Espanha, até Granada, percebeu como a morte estava acima de todas as coisas.

Quando viu a rainha, uma das mais belas do reino, completamente deformada, concluiu: “Não servirei ninguém mais senão a Deus. Não servirei ninguém que possa ser levado pela morte”.

Mas, São Francisco Borja está longe de ser o único símbolo da morte por ali. A entrada na Catedral é logo seguida por outras referências à reta final da vida. Dos lados esquerdo e direito, há dois altares colaterais que trazem 30 mártires da Igreja – 15 mulheres de um lado, 15 homens do outro. As relíquias são os pedaços da morte.

Na recém-restaurada Catedral Basílica há imagens de 30 mártires da Igreja
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Pouco mais à frente, o altar colateral de São Borja também relembra a morte. Novamente, ele segura uma caveira. Dessa vez, sobre um livro. "Pode ser tanto um livro de ensinamentos sobre a morte ou a Bíblia”, explica Luciana. Na sacristia, o rosto em madeira e o busto em prata de São Francisco Xavier, o padroeiro de Salvador, traz no peito uma gota de seu próprio sangue.

“Talvez nem esteja mais aí. Mas é outro sinal de como estamos cercados de referências à finitude da vida", afirma.

Os guias convidam os turistas a conhecerem a igreja sem qualquer menção à morte exibida nos corredores, nos altares, nos santos. A Catedral Basílica tem uma parte de sua história ignorada pelo desconhecimento.

Um grupo de três turistas ouve, antes de entrar na igreja, a reportagem falar daquele traço que, uma vez descoberto, é impossível ignorar. “Como assim tem esse tanto de referência à morte? A gente não fazia ideia”, falou a turista de Uberaba, em Minas Gerais, Marta Nascimento. Entraram na Basílica com outra perspectiva do que encontrariam. 

Chão sagrado 
O chão da Catedral Basílica e de outras igrejas de Salvador também guardam lembranças da morte. Sob os pés dos fiéis há corpos enterrados de beneméritos dos respectivos templos. Lê-se, em alguns túmulos: “Uma prece por sua alma”. Naquela frase, um sinal da importância de lembrar no fim dos que já foram.

Até 1836, as igrejas foram superlotadas de corpos – exceto os de escravos, enterrados, pelo que acreditam historiadores, num cemitério mais parecido com um aterro, na região hoje conhecida como Campo da Pólvora. Pouco a pouco, já não aguentavam tantos novos 'moradores'. 

A tradição de ser enterrado nas igrejas surge como herança da tradição romana. Antes enterradas em catacumbas espalhadas pela cidade, uma vez incorporado o cristianismo, os mortos migram para o chamado solo sagrado das igrejas.

Tradição era enterrar os mortos dentro das igrejas: quanto mais perto do altar, maior a chance de salvação da alma
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

“Só assim poderia existir a possibilidade de salvação da alma”, explica o Bacharel em História e membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) Jaime Nascimento. A localização do morto era, também, um símbolo de poder. Quando mais perto do altar, mais poderoso o morto. Na hoje Catedral Basílica, inclusive, estão sepultados alguns ilustres, como Mem de Sá, o terceiro governador do Brasil, o cardeal dom Lucas Moreira Neves, além do cardeal dom Avelar Brandão Vilela.

“Quanto mais perto do altar, mais chance de salvação”, brinca Jaime. 

Modernidade
E, quando proibido o enterro nos ditos solos sagrados, em 1836, ocorre o “extraordinário”, nas palavras de João José Reis, no seu “A morte é uma festa”, livro que conta os episódios da chamada Cemiterada.

O levante começou com uma manifestação de protesto convocada pelas Irmandades e Ordens Terceiras de Salvador, contrários à inauguração do Cemitério Campo Santo, concretizada apenas em 1844. A ordem, na época, era que todos os sepultamentos fossem feitos no novo cemitério e, portanto, longe do solo sagrado das igrejas.

Uma das justificativas era higienista: tantos corpos nas igrejas deixam os templos insalubres, muitas vezes impossíveis de serem frequentados. Além disso, os chamados 'miasmas' exalados pelos corpos, acreditavam os higienistas da época, acabavam adoecendo os vivos que frequentavam as celebrações. Mas a proibição era inconcebível pelos fiéis.

“Extraordinário acontecimento teve lugar na Bahia do século passado: uma revolta contra um cemitério. O episódio, que ficou conhecido como Cemiterada, ocorreu em 25 de outubro de 1836.  [...] O Jornal do Commercio noticiou o movimento da turba: 'Todos se dirigiram com machados, alavancas e outros ferros, e em número de mais de 3 mil pessoas, em menos de uma hora, deram com o Cemitério em baixo'", diz trecho do livro.

Ninguém admitia a distância de Deus na hora derradeira. Só nas igrejas era possível a salvação. “Mas simplesmente não havia como covar todo mundo”, continua Jaime. O jeito foi adotar o cemitério. Nas igrejas, ficaram os restos permanentes no chão e nos gaveteiros. Assim ocorre na Igreja de São Francisco, também no Pelourinho, onde os ossos são guardados por gavetas, não raro decoradas por caveiras. 

No subsolo da Igreja de São Francisco, Luciana Onety brinca: “Essa pesquisa [da morte] é muito solitária. Às vezes, as pessoas acham até estranho pesquisar. Acham que a morte é macabra... Não é”. Os símbolos da morte, ao contrário do que se pensa, não são evitados pela igreja. Assim como a importância do ritual de passagem na tradição católica. Basta querer ver e sentir. 

*Com supervisão das editoras Mariana Rios e Clarissa Pacheco

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