A casa de órfãos que acolhe pianos: Casa Pia tem 10 instrumentos doados nos corredores

salvador
05.06.2021, 06:21:00
Piano alemão Schiedmayer Stuttgart, que pertenceu à UCSal (Paula Fróes/CORREIO)

A casa de órfãos que acolhe pianos: Casa Pia tem 10 instrumentos doados nos corredores

Ao longo das décadas, pianos, harmônios e até um cravo foi deixado lá; entidade quer recuperá-los e voltar a oferecer aulas

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Em 1910, quando o Rio Vermelho era palco de corridas de cavalos no hipódromo onde hoje fica o Parque Cruz Aguiar, os meninos abrigados na Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim tinham uma banda. O grupo, fruto das aulas de música que aconteciam no lugar, na Avenida Jequitaia, pelo menos desde 1830, era um sucesso: se apresentava nas competições no hipódromo e em outras festas por Salvador e no Recôncavo. Na Casa Pia se aprendia a tocar uma série de instrumentos. Mas não se tem notícia de que os órfãos tenham aprendido a tocar piano. Mais de um século depois, curiosamente, os corredores da entidade bicentenária abrigam dez instrumentos musicais deste tipo, doados nas últimas décadas à instituição que, agora, estuda voltar a oferecer aulas de música.

A Casa Pia acabou ‘adotando’ os instrumentos, vindos de doadores diferentes e sem uma formalização. São seis pianos de armário, mais comuns em casas, dois harmônios – mais corriqueiros em igrejas –, o console de um Órgão de Tubos e um cravo, este último bem mais raro, que provavelmente pertenceu ao Instituto de Música da Universidade Católica do Salvador. É difícil saber quais  músicos deslizaram os dedos por aquelas teclas, hoje bastante amareladas e um tanto desafinadas.

Mas o professor José Maurício Brandão, diretor da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (Ufba), doutor em Música e Regência Orquestral e Musicologia, não teve dúvidas. Bastou bater os olhos numa fotografia de um console de um Órgão de Tubos de cabeça para baixo num dos corredores da Casa Pia, para assegurar: “Eu estudei órgão nesse instrumento”, com uma ponta de lamento de vê-lo ali. “Sem estar acoplado à caixa geral do instrumento ou um móvel no qual seja instalado, o console não tem como ‘ficar em pé’”, explica.

Console de um Órgão de Tubos, que pertenceu à UCSal, não fica de pé sem a caixa do insrumento; José Maurício Brandão aprendeu a tocar neste instrumento
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

De pé, é capaz de reproduzir uma sonoridade única – lembra do Fantasma da Ópera? –, geralmente ouvida em igrejas catedrais. Lá, de ponta-cabeça num dos corredores da Casa Pia, o console se junta aos outros instrumentos que, certamente, soaram por muitos anos em casas de famílias soteropolitanas ou no Instituto de Música da UCSal, mas que, de repente, perderam o som e o espaço – literalmente.

“Às vezes era o marido que tocava, mas morreu. Ou um filho, que saiu da casa dos pais. Muitas coisas eram doadas por famílias que não viam mais uma finalidade, então eles traziam para cá e esses pianos ficaram na Casa Pia”, afirma o diretor-geral da instituição, João Gomes.

Raridade 
Entre as doações, uma raridade: um cravo Neupert, que provavelmente chegou a Salvador em 1975 e pertenceu à UCSal. José Maurício Brandão também reconheceu o instrumento e explicou por que ele é considerado raro: não se encontram cravos em quantidade e em qualquer lugar. Em Salvador, há quatro na Escola de Música da Ufba, dois particulares, um na Associação Barroco da Bahia, dois da UCSal e o último que pertence ao próprio José Maurício.

Os cravos chegaram aqui , inclusive, antes dos pianos, com os jesuítas. O maestro e pianista Eduardo Torres, da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), não descartou a possibilidade de que o cravo guardado numa sala cheia de quadros na fila da restauração seja uma réplica moderna, de 30 ou 40 anos atrás. Mas também cogitou a possibilidade de que seja do século XIX. “Os cravos são frágeis e mesmo em centros como o Rio de Janeiro vai haver dificuldade em achar técnicos, são muito poucos os exemplares em qualquer lugar”, disse.

Cravo Neupert, um dos poucos existentes em Salvador, também pode ter pertencido ao Instituto de Música da UCSal
(Foto: Paulo Fróes/CORREIO)

Aliás, encontrar técnicos que trabalham com pianos em Salvador, ultimamente, não é das tarefas mais fáceis. A Ufba tinha um afinador e restaurador residente, Norberto Kruger, que mantinha uma oficina na região dos Dois Leões. Mas, desde que ele voltou para o Rio Grande do Sul, a universidade e a própria Osba se encontram órfãos de técnicos e afinadores com formação na área. Quem costuma salvar os instrumentistas é um afinador muito experiente aqui mesmo, no Garcia, seu José Garcez.

Outros instrumentos raros, mas nem tanto, são os harmônios, usados em igrejas e irmandades. Na Casa Pia existem dois do mesmo fabricante: J. Edmundo Bohn, de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. 

“Deve ser o único fabricante no Brasil. Os que eu conhecia daqui de Salvador eram todos muito antigos”, acrescenta o maestro Eduardo Torres.

A moda do piano
O primeiro piano foi inventado em Florença, na Itália, no século XVIII. Em meados do século XIX, o instrumento entrou na moda no Brasil. “Dom João VI adorava música e ele traz para o Brasil junto com a família real. O piano entra na moda porque é um componente básico para explorar um romantismo que nasceu na Inglaterra e na Alemanha para exaltar a sensibilidade da alma”, explica a historiadora Mary Del Priore (leia mais abaixo).

Rapidamente, o instrumento se espalha pelas casas de famílias da elite soteropolitana. Em junho de 1876, a loja Palais-Royal, na Praça do Commercio, em Salvador, anunciava no jornal O Monitor o interesse em comprar 20 pianos de armário de bons fabricantes e em bom estado para que pudesse alugá-los. A mesma loja publicou um anúncio no jornal em que os clientes elogiavam os pianos americanos D’Steinway, adquiridos na loja.

O capitão Bernardino Chastinet, que morava na Ladeira da Barra, comprou logo dois e mandou dizer que estava satisfeito com a compra. Já Pedro Gomes de Athayde, morador de uma casa no Maciel de Baixo (Pelourinho), se mostrava encantado pelo fato de ainda nem ter precisado afinar o piano, comprado em março daquele ano e trazido direto de Nova York.

Clientes do Palais-Royal analisavam pianos americanos recém-comprados, em 1876
(Foto: Jornal O Monitor, Salvador / Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Não há, entre os pianos doados à Casa Pia, nenhum da marca D’Steinway. Mas o mesmo jornal publicou, alguns dias antes, um anúncio de leilão que chama a atenção: o leiloeiro Luiz Zuany vendia às 11h do dia 15 de junho todos os pertences de um senhor chamado T. T. Gomes. Entre eles, um piano Pleyel n°3 de meia cauda. Num dos corredores do primeiro andar da Casa Pia há um Pleyel, francês, da mesma marca preferida do pianista polonês Frédéric Chopin.

Certa vez, Chopin chegou a dizer que “os pianos Pleyel são a última palavra em matéria de perfeição”. O da casa Pia mantém a imponência e até arranca algumas notas desafinadas. Mas o tempo foi cruel e a madeira próxima dos pedais já se mostra bastante danificada pelos cupins.

Sala do piano
O leilão que tentou vender um Playel n° 3 em 1876, em Salvador, aconteceu no bairro do Campo Grande. Era mesmo nas regiões mais nobres que os pianos ganhavam vida. Os clientes do Palais-Royal, por exemplo, estavam lá, na Graça, na Ladeira da Barra, na Baixa do Bonfim, no antigo Hotel Suisso, na Rua da Mangueira, em Nazaré. Eram locais que abrigaram casas grandes.

“Lembro que meu pai deu aulas em algumas mansões na Vitória. Era comum as casas terem salas de música, a sala do piano, onde se recebia as visitas e se tocava. Tudo quanto era casa de família que tinha dinheiro ou que queria tirar onda tinha um piano”, conta a pianista Teca Gondim, filha do também pianista Paulo Gondim e professora da Escola de Música da Ufba.

“O piano era uma possibilidade de gerar entretenimento e se esperava que algum conhecimento de música as pessoas tivessem, principalmente as mulheres. Para famílias mais abastadas, ter um piano era tão natural quanto ter outro móvel”, reforça José Maurício Brandão.

Piano da marca francesa Pleyel é um os que está nos corredores do primeiro andar da Casa Pia
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Sem espaço
A cultura de manter um piano em casa vai diminuindo nos últimos anos do século XX, e isso tem a ver com uma mudança no olhar sobre as prioridades na educação feminina, mas também com o surgimento de novas formas de entretenimento. A demanda por um piano doméstico diminui, ainda, à medida que as famílias se mudam, saem daquelas casas enormes e vão para apartamentos, o que começa a acontecer a partir dos anos 1960 e 1970.

"Tem uma diminuição da demanda junto com a mudança de endereço. A tendência normal é que o piano fosse virando um estorvo. É um movel grande, pesado, incoveniente, que não cabe em todo lugar, difícil de botar num apartamento. As famílias vão se desfazendo e você tem que ter um destino para esse móvel", afirma José Maurício.

“Quando essas casas começam a ser demolidas, essas famílias, também pelo declínio financeiro, começam a se desfazer de suas mobílias. E começam a ir para outros bairros ou morar em apartamentos e começam a vender ou doar a mobília, incluindo o piano”, explica o historiador Rafael Dantas.

O piano deixa de ser uma prioridade e as famílias, com pudor de simplesmente jogar um instrumento no lixo, doam para instituições. Para José Maurício Brandão, o fato de os instrumentos irem para a Casa Pia tem menos a ver com uma tradição de ensino de música lá e mais com o fato de a instituição ser filantrópica. “Às vezes, as pessoas não entendem que a doação pode ser uma doação de grego”, diz. É que, em alguns casos, o instrumento está tão danificado que não é possível repará-lo.

A Escola de Música da Ufba costuma ser procurada por interessados em doar, mas pouca coisa tem condição de ser aproveitada. Recentemente, segundo a professora Teca Gondim, a escola precisou enviar 11 pianos para o depósito de inservíveis. A Casa Pia, no entanto, tem esperanças de conseguir recuperar os instrumentos. Segundo o diretor-geral, João Gomes, ainda este ano a instituição vai buscar um técnico para analisá-los e, a partir daí, buscar uma parceria para voltar a oferecer aulas de música e até realizar recitais.

A UCSal foi procurada para comentar quando e por que razão doou os instrumentos à Casa Pia, mas a reportagem não obteve retorno até a publicação desta matéria.

Pedais de um piano Meister/Fritz Dobbert, de fabricação nacional
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

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Piano era uma espécie de 'atestado de bons antecedentes', diz historiadora Mary Del Priore

Nas casas de famílias brasileiras, um evento entra na moda na segunda metade do século XIX: o serão. Eles ganham força por volta dos anos 1860 e 1870, 30 anos depois de os pianos começarem a ser vendidos com mais frequência no Brasil. Os da marca Stairway eram anunciados, segundo a historiadora Mary Del Priore, no Jornal do Commercio. Aqui em Salvador, as ofertas eram publicadas no jornal O Monitor.

“O serão era moda entre as mocinhas casadoiras, de família, donas da casa, das solteirinhas em busca de casamento. Os candidatos eram convidados e as moças ou tocavam piano ou cantavam. O serão vai permitir a exibição dos dotes da futura mulher. Era através do piano que a mulher tinha que comunicar sua paixão, seu sonho, uma ideia de sublime, o seu medo. É através do piano que as mulheres vão falar”, explica Mary Del Priore.

Era como se o piano, conta a historiadora, fosse “uma espécie de atestado de bons antecedentes”. Nos séculos XIX, já havia grandes pianistas, como Clara Schumann, alemã que ganhava dinheiro tocando piano, o que era raríssimo para a época. 

No Ceará, já no século XX, uma pianista profissional tocava e encantava em casa e, por pouco, não foi tocar piano em Paris. Maria de Lourdes Gondim tocava no cinema mudo, era pianista profissional, compositora, tinha um programa semanal na rádio entre 1940 e 1950 e chegou a dar aulas no Liceu do Ceará. Foi aluna de Branca Bilhar, importante pianista cearense que estudou na França.

“Minha avó foi professora do meu pai e o meu pai me ensinou”, conta a pianista Teca Gondim, professora da Escola de Música da Ufba. A avó materna, Eulina Nogueira Pita, também tocava piano – e ainda violino, flauta e bandolim. Tocava harmônio na igreja em Amargosa. Na Bahia, nasce em 1930 Celice Silveira, negra, que começou a tocar piano aos 6 anos e a dar aulas aos 20. Sua história virou documentário que traz os desafios e estratégias de uma família negra no pós-abolição na Bahia para educar uma musicista.

“Piano era presente de casamento no início do século. Está presente desde o Império e, naquela época, fazia parte da educação da mulher tocar piano”, diz Teca, neta e filha de pianistas, sobrinha de músicos.

Depois, o instrumento ganha importância até na causa abolicionista. “Associações femininas abolicionistas vão começar a se formar a partir de 1880 e essas mulheres organizam concertos onde as mulheres se exibiam ao piano e cujo dinheiro era transferido para a conta de abolicionistas. Uma figura importante desse período é Chiquinha Gonzaga”, aponta Mary.

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Os pianos nos corredores

Piano Meister/Fritz Dobbert – Fabricação Nacional. A empresa foi fundada em 1950. Há pianos da linha Meister à venda na internet entre R$ 5 mil e R$ 10 mil
Piano Meister/Fritz Dobbert – Fabricação Nacional. A empresa foi fundada em 1950. Há pianos da linha Meister à venda na internet entre R$ 5 mil e R$ 10 mil (Clarissa Pacheco/CORREIO)
Piano alemão M Schwartzmann – É encontrado à venda na internet de R$ 5 mil a R$ 10 mil. Não é considerado um móvel de alta qualidade
Piano alemão M Schwartzmann – É encontrado à venda na internet de R$ 5 mil a R$ 10 mil. Não é considerado um móvel de alta qualidade (Clarissa Pacheco/CORREIO)
Piano alemão Schiedmayer Stuttgart – Na internet, tem modelos parecidos à venda, comprados em 1935, de R$ 10 a R$ 40 mil. Pertenceu à UCSal
Piano alemão Schiedmayer Stuttgart – Na internet, tem modelos parecidos à venda, comprados em 1935, de R$ 10 a R$ 40 mil. Pertenceu à UCSal (Clarissa Pacheco/CORREIO)
A marca foi criada em 1807 pelo francês Inacio Pleyel. Era a preferida de Frédéric Chopin. Modelos parecidos à venda na internet hoje por até R$ 6 mil
A marca foi criada em 1807 pelo francês Inacio Pleyel. Era a preferida de Frédéric Chopin. Modelos parecidos à venda na internet hoje por até R$ 6 mil (Clarissa Pacheco/CORREIO)
Console de Órgão de Tubos J. Edmundo Bohn S/A – Fabricado em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Pertenceu ao Instituto de Música da Ucsal
Console de Órgão de Tubos J. Edmundo Bohn S/A – Fabricado em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Pertenceu ao Instituto de Música da Ucsal (Paula Fróes/CORREIO)
Cravo Neupert de dois manuais e cinco registros – Provavelmente pertenceu ao Instituto de Música da Universidade Católica do Salvador
Cravo Neupert de dois manuais e cinco registros – Provavelmente pertenceu ao Instituto de Música da Universidade Católica do Salvador (Paula Fróes/CORREIO)
Harmônio J. Edmundo Bohn S/A – Fabricado em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Modelos similares à venda na internet por menos de R$ 1 mil. Pertenceu à Ucsal
Harmônio J. Edmundo Bohn S/A – Fabricado em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Modelos similares à venda na internet por menos de R$ 1 mil. Pertenceu à Ucsal (Paula Fróes/CORREIO)
Harmônio J. Edmundo Bohn S/A – Fabricado em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, e usado mais comumente em igrejas - Em torno de R$ 3 mil a R$ 4 mil na internet
Harmônio J. Edmundo Bohn S/A – Fabricado em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, e usado mais comumente em igrejas - Em torno de R$ 3 mil a R$ 4 mil na internet (Clarissa Pacheco/CORREIO)
Piano da Pianofatura Paulista, marca da Fritz Dobbert – Não é possível ver muitos detalhes porque piano está encostado a uma parede, mas há um entalhe com data de outubro de 1967
Piano da Pianofatura Paulista, marca da Fritz Dobbert – Não é possível ver muitos detalhes porque piano está encostado a uma parede, mas há um entalhe com data de outubro de 1967 (Clarissa Pacheco/CORREIO)
Piano alemão M Schwartzmann – É possível encontrar modelos parecidos à venda na internet entre R$ 5 mil a R$ 10 mil. Não é considerado de alta qualidade e este é o mais danificado de todos os que se encontram na Casa Pia
Piano alemão M Schwartzmann – É possível encontrar modelos parecidos à venda na internet entre R$ 5 mil a R$ 10 mil. Não é considerado de alta qualidade e este é o mais danificado de todos os que se encontram na Casa Pia (Clarissa Pacheco/CORREIO)

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