A dor das mortes evitáveis: 200 mil brasileiros morreram após o país já ter vacina

coronavírus
08.05.2021, 06:59:00
Ator Paulo Gustavo faleceu na terça-feira aos 42 anos (Divulgação)

A dor das mortes evitáveis: 200 mil brasileiros morreram após o país já ter vacina

Ritmo lento de vacinação resulta em milhares de mortes que, como a do ator Paulo Gustavo, poderiam ser evitadas, segundo especialistas

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Dez dias antes de ser internado num hospital privado do Rio de Janeiro para tratar a covid-19, o ator Paulo Gustavo fez a pergunta que milhões de brasileiros ainda fazem todos os dias: “Cadê a vacina, meu Deus?”. Era 3 de março de 2021 e a vacina havia chegado ao país há 44 dias. Mas, àquela altura, apenas 246.521 pessoas tinham recebido a primeira dose – em média, 5,6 mil doses aplicadas por dia em todo o Brasil. Aos 42 anos e sem comorbidades (afirmação talvez “polêmica” porque ele teve crise de asma há dez anos), o ator que morreu na última terça-feira (4) não teve a chance de receber nem a primeira dose da vacina, que ainda não começou a ser aplicada num grupo geral de brasileiros na faixa dos 40 anos. Em um ritmo lento de vacinação, o país assiste a milhares de mortes que, assim como a de Paulo Gustavo, poderiam ter sido evitadas.

A partida do artista deixou um sentimento de luto, medo e até de incredulidade nas pessoas. O ator era jovem, pai de dois filhos de um ano de idade, casado com um médico, tinha condições de pagar por um tratamento e recebeu os melhores cuidados durante os cerca de dois meses em que ficou internado.

Mas Paulo Gustavo não foi o único que não resistiu mesmo sob assistência profissional e muita fé. De 17 de janeiro – dia em que a vacinação começou no Brasil – até 7 de maio, 18.234 brasileiros dessa mesma faixa de idade (40 a 49 anos) morreram de covid.

Infografia: Axel Hegouet/CORREIO

Isso representa mais de 58% do total de mortes pela covid nesta faixa etária desde março do ano passado.  De um modo geral, essas vítimas eram pessoas que não poderiam ainda receber uma dose de vacina por causa da idade. 

Na sexta-feira (7), o Brasil chegou à marca de 419.114 mortes pela doença, das quais 413.369 já foram registradas em cartórios do país. Delas, 200.248 aconteceram após 17 de janeiro. Ou seja, quase a metade do total de mortes no país eram evitáveis, já que ocorreram quando já havia vacinas. O problema é que elas não chegaram, e ainda não chegam, para todo mundo. 

“O que a gente viu no Brasil agora em maio e abril foi um rejuvenescimento da pandemia. Diminuíram as mortes de idosos, que estão sendo vacinados, e começaram a morrer mais jovens, até mais jovens do que o Paulo Gustavo. Ele tinha 42 anos, jovem, aparentemente saudável. É uma faixa etária produtiva, no ápice da vida, e a gente está vendo que essas pessoas estão morrendo e isso é completamente evitável”, afirma a médica imunologista Fernanda Grassi, pesquisadora da Fiocruz na Bahia e membro da RedeCovida.

Comparações
Quem começou a vacinar mais cedo – e mais rápido – conseguiu reduzir as mortes, e as curvas de vacinação e de mortalidade em países que aumentaram o ritmo de aplicação das doses mostram isso.

Dados coletados pela plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, apontam uma queda acentuada de óbitos por covid nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, a partir do final de janeiro, quando começou a crescer o percentual de vacinados nestes dois países. Israel, que já vacinou 62,5% da população, quase zerou as mortes nos últimos dias.

Nos EUA, o ritmo de vacinação começou a crescer no final de janeiro: no dia 23 daquele mês, o país alcançou a marca de 1,1 milhão de doses aplicadas em 24 horas – três dias após a posse do presidente Joe Biden –; em 3 de março, chegou a 2 milhões num dia; e em 13 de abril, 3,38 milhões. Saiu de 4.031 mortes por dia em 13 de janeiro para 789 em 6 de maio, um número cinco vezes menor. 

Mesmo que os Estados Unidos ainda tenham o maior número total de mortes por covid-19 no mundo (580.064), o país da América do Norte é seguido de perto pelo Brasil, que aparece em segundo lugar, com 419.114. Mas, por lá, a vacinação em massa tem surtido efeito. Até 6 de maio, 44,7% da população já tinha recebido pelo menos a primeira dose da vacina, enquanto, naquele dia, os americanos aplicaram 2,09 milhões de doses.

Enquanto isso, no Brasil, o ritmo de vacinação continua lento. No dia 2 de março, o país chegou bem próximo do número diário de mortes nos EUA em um único dia: 1.572 aqui e 1.566 lá. Depois disso, os números no Brasil seguiram uma tendência de crescimento, enquanto nos EUA entraram em queda. E, mesmo que o número de óbitos diários por aqui esteja caindo desde a segunda quinzena de abril, o patamar ainda é alto: mais de 2 mil por dia.

Para especialistas, uma curva tão grande de mortes se explica pela lentidão na imunização da população. Em 13 de abril, o Brasil bateu recorde de aplicação diária de doses – 1,14 milhão –, mas os números voltaram a cair e, no último dia 7, foram 689.771 doses aplicadas. Com isso, o país tem apenas 14,8% de sua população que recebeu pelo menos uma dose da vacina.

A enfermeira, PhD em Epidemiologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Ethel Maciel lembra que a situação poderia ser diferente se o governo federal tivesse aceitado as ofertas de vacina feitas ao longo de 2020. Só a farmacêutica Pfizer ofereceu 70 milhões de doses ainda em agosto. Ao todo, o governo de Jair Bolsonaro ignorou 11 propostas.

Nesta quinta-feira (6), durante depoimento na CPI da Covid, o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, admitiu que o Brasil contratou menos da metade do total de vacinas que anunciou ter comprado. E desconversou quando questionado sobre a possibilidade de o país ter começado a vacinação antes de janeiro, se tivesse negociado as vacinas.

“Se tivéssemos em dezembro aquelas 70 milhões de doses que a Pfizer ofereceu seria diferente. Se tivesse fechado com o Butantan em setembro, as vacinas já estariam sendo produzidas com mais antecedência e a gente não ficaria nesse conta-gotas de vacinas que nós estamos. Nós perdemos muito tempo em brigas, guerras ideológicas patrocinadas pelo governo, em tratamento sem eficácia”, ressalta Ethel Maciel.

O que fazer?
Enquanto o Chile, aqui na América Latina, já vacinou 43,4% da população e se prepara para incluir o grupo de 35 anos na campanha, o calendário no Brasil ainda está na faixa dos 50 anos, além das pessoas com comorbidades.

E há outro problema: o governo orientou que os estados usassem as reservas para segunda dose de CoronaVac no restante da população, mas os novos lotes não ficaram prontos a tempo. O resultado é que pessoas que já deveriam ter recebido a segunda dose ainda não foram totalmente imunizadas. É possível esperar, mas não muito mais do que duas semanas, indicam especialistas.

“A grande questão do Brasil agora é que a gente não está num ritmo de vacinação desejável, está bem longe, inclusive com essas interrupções frequentes, com muitas pessoas não podendo completar a dose da CoronaVac”, explica Fernanda Grassi. Para ela, enquanto a vacinação seguir lenta, os óbitos não vão reduzir.

A epidemiologista Ethel Maciel concorda e acrescenta que acha perigoso estender o intervalo entre as doses a um limite maior do que diz a bula, como o governo federal começou a fazer com as recém-chegadas doses da Pfizer – o intervalo recomendado é de 21 dias, mas a segunda aplicação será feita após 12 semanas.

“A gente tem poucas evidências do resultado, principalmente num cenário como o nosso, que nós não estamos tendo lockdown. A gente vai gastar todas as doses sem garantir a segunda dose dessas pessoas. É uma aposta muito alta, que pode custar muito mais vidas”, diz.

O ideal, aponta Fernanda, seria que pelo menos 100 milhões de brasileiros fossem vacinados com a primeira dose num prazo de dois ou três meses. “Com a média de mortes por mês que a gente tem hoje, a cada mês que se retarda essa vacinação são 100 mil pessoas que vão perder a vida”, acrescenta.  

Para Ethel Maciel, o que precisa ser feito agora é garantir o esquema vacinal das pessoas. “A gente deveria estar vacinando pelo menos 2,5 milhões de pessoas por dia, mas estamos num ritmo muito lento”, explica. Até 7 de maio, segundo o Ministério da Saúde, o Brasil havia vacinado 46,8 milhões de pessoas – menos da metade do desejável daqui para a frente e num intervalo de tempo maior, de quase quatro meses.

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Cada morte reativa uma sensação de ameaça, diz psicóloga

A morte do ator Paulo Gustavo, na terça-feira (4), pesou para muita gente. Até quem conhecia pouco o trabalho do artista de Niterói, no Rio de Janeiro, sentiu a partida de um jovem de apenas 42 anos como se fosse alguém da família. No fundo, é como se as pessoas não acreditassem, de fato, que Paulo Gustavo seria mais uma vítima da pandemia.

É como se as pessoas vivessem a angústia de uma morte que poderia ser evitada, se o artista e milhares de outros brasileiros da idade dele já tivessem sido vacinados.

“A gente está vivendo um momento de muitas mortes evitáveis, então é uma sensação de ameaça que é reativada a cada morte dessas. É uma ameaça que vira concreta no caso da morte de uma pessoa pública, como Paulo Gustavo, porque a gente pôde acompanhar”, pontua a psicóloga Júlia Uchôa, especialista em psicologia hospitalar e que estuda luto, perdas e traumas.

Ela explica que a pandemia tem sido uma grande experiência de ameaça constante e que as pessoas vivem, diariamente, um sentimento de luto compartilhado. “A gente está falando de uma sociedade que está toda enlutada. E, agora, com essas experiências de morte que estão sendo tão escancaradas em todas as mídias, isso é um luto coletivo. Através da dor do outro, a gente chora e sofre as nossas dores”, afirma.

O desafio, em momentos assim, é se adaptar, passar a viver essas perdas sem o contato, o cuidado que é tão peculiar entre nós, baianos, nordestinos. É uma adaptação constante, explica Júlia. “Até para sofrer a gente precisa de recurso. Para o baiano, para o nordestino, o contato físico é um recurso muito significativo. ficar sem isso é como se a gente fosse jogado no mar sem uma bóia, sem um apoio num momento de cansaço. Nesse início de ano, eu tenho percebido as pessoas muito frágeis, aparece mais ansiedade, frustração, desânimo”.

A terapeuta acredita ainda que este é um momento em que as pessoas precisam se cuidar - e cuidar das outras:

“Nós precisamos ser rede. Numa sociedade enlutada, todo mundo precisa cuidar um do outro: a gentileza, a empatia, tudo isso é importante. E cuidar do outro, pensar no outro também é pensar na gente”, diz.

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