A família da primeira puérpera morta na Bahia

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20.03.2021, 06:01:00
(Foto representativa/Free Images)

A família da primeira puérpera morta na Bahia

Pai de Alice ficou responsável pela criação da filha, que está perto de completar 1 ano

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A bebezinha chamada Alice repousa a cabeça no peito do pai e começa a falar no idioma próprio dos bebês. Naquele instante, os dois têm apenas um ao outro.  “A primeira palavra dela foi papa”, recorda Erisvaldo Lopes, 47, o pai. Rafaela, 28,  mãe de Alice e esposa de Erisvaldo,  foi a primeira puérpera e mais jovem vítima fatal da covid-19 que se tem registro na Bahia.

Quando Alice tinha seis dias de vida, com  o rostinho inchado e vermelho, aparência  típica dos recém-nascidos, sua mãe morreu. Uma vida pulsava,  a outra deixava o mundo.

Alice está prestes a completar um ano agora. Ela nasceu no dia 27 de março de 2020, em Itapetinga, Sul da Bahia. Rafaela sonhava em ser mãe,  mas viveu apenas cinco dias com o bebê nos braços . Faleceu no dia 1º de abril. Erisvaldo não se contaminou, mas  Alice teve coronavírus. 

“Eu fiquei louco, com a neném recém-nascida e com minha esposa, que eu amava muito, morta”, lembra Erisvaldo. Pai e filha partiram quase imediatamente para Trancoso, onde a família morava. O casal tinha ido a Itapetinga apenas para o parto. 

Até dezembro do ano passado, Erisvaldo viveu integralmente para a filha, uma  “bebê tranquila, que não dá muito trabalho”, nas palavras ele. Às vezes, enquanto a filha brinca, ou dorme, e Erisvaldo olha para ela, “bate a saudade”. “Tínhamos tantos planos juntos, eu e minha esposa", conta.

Uma festinha de aniversário a cada mês era um dos projetos do casal para  Alice. Erisvaldo é dono de uma agência de turismo em Trancoso, e estava parado com a interrupção do turismo no local. No fim de 2020,  voltou a trabalhar e uma babá foi contratada para ficar com a criança.

Alice ainda não sabe, nem é capaz de entender, a história da família. “Mas, eu vou contar tudo para ela. Quero que Alice estude, faça a faculdade que ela quiser. É o nosso sonho”, afirma o pai, que recorre à falecida esposa como se ela estivesse ali com ele, vendo Alice brincar e crescer.

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