Abaixo dos R$ 5: por que a cotação do dólar voltou a cair?

economia
26.06.2021, 16:00:00
Dólar começou a subir em 2019 por conta do corte da Selic (Alexander Mils / Pexels)

Abaixo dos R$ 5: por que a cotação do dólar voltou a cair?

Moeda dos EUA voltou a patamar de um ano atrás; será que vai continuar assim?

Há quase dois anos, desde agosto de 2019, o brasileiro tem se acostumado a ver o dólar sempre acima dos R$ 4. O que já era um problema para a atual geração, que chegou a ver a moeda estadunidense sendo cotada a R$ 1,50 em 2010.

Porém, em março de 2020, quando a pandemia da covid-19 foi decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o dólar tomou proporções inéditas na era do Real. Desde então, a moeda dos Estados Unidos não foi mais cotada abaixo dos R$ 5.

Na realidade, no início de novembro de 2020 e no começo de março deste ano, o dólar quase rompeu outra barreira histórica, a de R$ 6. E esse período, obviamente, repercutiu de maneira profunda na economia brasileira.

Mas quem gosta de acompanhar diariamente as cotações já notou que junho de 2021 é um mês de inflexão: o dólar fechou na última terça-feira (22) em R$ 4,96. É o primeiro registro abaixo dos 5 reais desde o fatídico março de 2020.

A pergunta, portanto, é: por que o dólar tem subido tanto desde 2019? E por que tem caído de forma repentina agora, em 2021? E como isso impacta na sua vida cotidiana?

Esse é o tema de mais um capítulo da série do CORREIO voltada para investidores iniciantes. Vamos tentar entender como a baixa do dólar pode impactar nas suas contas diárias – os seus gastos do dia a dia – e nas suas economias.

Por que subiu tanto?

A resposta é muito simples: resultado dos cortes progressivos da taxa básica de juros do país, a Selic, que você conheceu a fundo nessa matéria publicada no CORREIO.

Os que acompanham a economia há mais tempo vão lembrar. Desde novembro de 2016, pouco após a troca de governo – saída de Dilma Rousseff e chegada de Michel Temer –, o Brasil iniciou um corte contínuo da taxa de juros, que àquela época estava em 14%.

A redução se manteve no governo Jair Bolsonaro, que assumiu com a Selic a 6,5% e chegou a março de 2020 cm 4,25%. Lembrando que essa é uma política do Banco Central, órgão que tem autonomia do Governo Federal.

“Uma estratégia que tem seu lado positivo: baixando os juros você baixa o custo da dívida geral das empresas. Em tese, injeta estímulos monetários e estímulos de investimento na produção. Uma série de sinais para que se reative a economia”, explica o professor de finanças Luis Pardal, gestor de carteiras da Arazul Capital.

Os cortes foram mantidos ao longo de 2020, mesmo em meio à pandemia. O Brasil fechou o ano com a Selic a 2%, a menor taxa da história. A ideia era manter os incentivos para que o dinheiro do brasileiro circulasse na economia – quanto menor for a taxa de juros, menor o peso para obter crédito, por exemplo.

“Mas também há um lado negativo. O Brasil é importador de capital. Não tem poupança, tem que trazer capital de fora para investir. Não tem jeito, é uma questão estrutural. E para atrair capital de fora, você tem que pagar algo”, explica o professor Luis Pardal.

Pra que isso?

O especialista refere-se ao fato de o brasileiro historicamente não poder poupar. A característica social dos cidadãos é ter que alocar quase toda a sua renda em consumo diário – alimentação, aluguel, tarifas, transporte entre outros gastos.

Sem que as famílias façam poupança, o dinheiro disponível nos bancos para oferecerem como financiamentos ou empréstimos é limitado. Sendo assim, o Brasil depende mais de investidores externos, de países com maior taxa de poupança.

“O Brasil tem essa natureza e ele precisa de capital externo para crescer. Precisa trazer esse dinheiro para cá para ajudar a financiar as dívidas. E para atrair esse capital é preciso pagar um prêmio, que é a taxa de juros mais alta”, completa o especialista em finanças.

Ou seja: para atrair capital estrangeiros, o Brasil historicamente pratica taxas de juros mais altas – que são calculadas a partir da Selic – do que países desenvolvidos, a fim de oferecer esse rendimento como prêmio aos investidores.

Além da taxa de juros menor, o capital estrangeiro também se afastou do Brasil por conta do período de instabilidade que o país vive desde 2016. Problema que, aliás, não é exclusivo do nosso país.

“É uma questão continental. Nossa região, a América do Sul, é um conjunto de países que não têm estabilidade econômica, política e social tão confiável como alguns países do hemisfério Norte. Isso gera também uma maior prudência de quem tem capital”, explica o professor.

Essa insegurança institucional é conhecida no mundo dos investimentos como Risco Brasil. Esse risco iminente do nosso país também é compensado pela maior taxa de juros, que funciona como um “prêmio” aos investidores – inclusive, esse é o termo usado no mundo financeiro.

“O Brasil, por ser Brasil, para um prêmio maior do que países do hemisfério Norte como os EUA, Canadá, França, Inglaterra e por aí vai. Argentina e Colômbia também têm seus riscos, e por isso pagam seus prêmios maiores”, pontua o especialista.

Como funciona?

Mas, por que o dólar sobe ou desce? Quando o investidor estrangeiro encontra incentivos para aportar seu capital no Brasil, ele vende dólares ao Banco Central para transformar seu dinheiro em Real. Ou seja, a oferta de dólar cresce, diminuindo seu preço.

Uma vez transformado em moeda nacional, esse capital é aplicado – adquire lojas em shoppings, adquire títulos da dívida pública, investe em alguma empresa e por aí vai.

Se não há incentivos para que o investidor deixe o seu capital no Brasil – seja pela premiação baixa da taxa de juros ou por conta de um momento ruim da economia – ele procura o Banco Central para transformar em dólares o dinheiro que possui em reais. Ou seja, a demanda por dólar aumenta, aumentando seu preço.

Foi o que ocorreu massivamente no Brasil desde 2019: com a taxa de juros caindo e sem que a economia reagisse, os investidores estrangeiros começaram a tirar o capital para realoca-lo em outros países. Dessa forma, a procura por dólar só fez aumentar.

Com a chegada da pandemia em 2020, a economia global sofreu um baque. Porém, países como os da América Latina sofreram ainda mais com a fuga de capitais. Entenda: todas as economias do planeta acumulariam prejuízos, mas em nações pouco desenvolvidas o pessimismo era ainda maior.

Sendo assim, quem tinha dinheiro preferiu realoca-lo rapidamente para países cujas economias sofressem menos com o período de pandemia. Isso fez com que a demanda por dólar disparasse e a moeda estadunidense subisse.

“A covid-19 naturalmente estressou os mercados e o dólar subiu. Houve uma retirada massiva, uma realocação de dinheiro em todos os fundos de investimento. Isso criou um forte fluxo de saída de dólares. E esses dólares, que estavam em reais, tiveram que ser comprados do Banco Central para que o investidor pudesse levar o seu capital para outros países”, explica Pardal.

E por que voltou a cair?

Nessa matéria do CORREIO, explicamos os motivos para que a taxa Selic do Brasil voltasse a subir depois de ter batido 2% no final de 2020. A tentativa de conter a inflação, que começou 2021 em alta considerável, é o principal motivo para a mudança de política do Banco Central.

No último dia 18 de junho, o Banco Central anunciou um novo aumento da taxa Selic, que agora está em 4,25%. E a tendência é que ela continue subindo até o final de 2021 e que permaneça assim ao longo de 2022.

“Se a taxa de juros está subindo de novo, o que acontece com o dólar? O investidor volta a ter um prêmio para aportar o seu capital no Brasil. Apesar do patamar da taxa ainda estar baixa para os parâmetros históricos, e de ainda não estar compatível com o Risco Brasil, já se enxerga um viés de alta. E isso atrai o investidor”, comenta Luis Pardal.

Ou seja, com a Selic prometendo subir ao longo dos próximos anos, alguns investidores estão procurando o Banco Central para transformar o capital, que estava em dólares, em reais. E esse aumento da oferta de dólares faz com que a cotação da moeda estadunidense caia.

Porém, isso significaria um movimento positivo para a economia brasileira? Quer dizer, será que com o retorno do capital estrangeiro, o Brasil receberá um investimento maior, de forma que a atividade econômica cresça? Não necessariamente.

“Esse capital que está voltando ao Brasil não é um investidor ‘gringo’, necessariamente. Ele é dinheiro de brasileiro que estava momentaneamente lá fora. É capital de alguém que conhece mais a política brasileira, sabe o risco que está correndo. Não é confiança na economia do país, é uma coisa chamada taxa de juros subindo, puramente isso”, comenta o professor.

Ou seja: os brasileiros mais ricos, que rapidamente transformaram o seu capital em dólares no começo da pandemia, a fim de protege-lo da crise iminente, estão retornando esse dinheiro para o Real, atraídos pelo viés de alta da taxa de juros.

“Pelo que converso com investidores e operadores do mercado financeiro, esse dinheiro que está entrando no Brasil não é dinheiro do ‘John’. É dinheiro do ‘João’. Algum João, que é rico para caramba, e que levou seu capital para algum fundo estrangeiro para protege-lo. E agora ele enxerga um ‘timing’ certo de voltar a operar no Brasil”, explica o especialista em finanças.

Em suma, é um dólar que está sendo transformado para o Real meramente no ambiente especulativo, da Bolsa de Valores. Não significa que esse dinheiro esteja sendo investido em indústrias, na compra de imóveis ou oferecido às empresas. Ou seja, é capital que não está chegando à chamada economia real, produtiva, do país.

E o que acontece?

No próximo capítulo dessa série do CORREIO, vamos entender como essa redução repentina no preço do dólar, que voltou ao patamar abaixo dos R$ 5, afeta o seu dia a dia.

E, se você for investidor e estiver de olho em algumas ações na Bolsa de Valores, é bom ficar atento: a tendência de queda do dólar e de aumento da taxa de juros Selic é importantíssima na hora de escolher quais títulos adquirir.

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