Alfabetizando em casa: 10 dicas para ajudar os pais na educação remota

educação
13.06.2021, 16:00:00
(Foto: Shutterstock)

Alfabetizando em casa: 10 dicas para ajudar os pais na educação remota

Especialistas em Infância e Educação apontam conselhos para orientar os pais nesse processo de mediação e transformação da casa em ambiente de alfabetização

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Heitor tem 6 anos e está aprendendo a ler e  escrever via ensino remoto. A mãe e administradora, Carla Lima, fica a manhã toda ao lado dele, tentando acompanhá-lo. “Heitor faz reforço escolar três vezes na semana. Busco uns joguinhos e livros de história, porém, sei que ele sente falta do contato com os coleguinhas para que descubra a leitura e a escrita com mais empenho”. Esse é só um dos desafios que os pais de crianças nessa fase estão enfrentando, diante da expectativa de chegar ao final do ano com o ABC na ponta da língua.

A professora de pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Silvia Colello, destaca que sim, a tarefa é difícil e está sendo prejudicada pela pandemia, porém, não é impossível, principalmente, quando os pais abrem espaços para que o aprendizado aconteça em casa.

“Cada um aprende de um jeito e em um ritmo, com aquilo que vive. Os pais podem manter acesa a chama da curiosidade, da vontade de conhecimento e com isso, serem cúmplices da escola”, pontua.

Junto com outras especialistas em Alfabetização e Primeira Infância, Silvia traz 10 orientações que podem ajudar os pais, não só na mediação desse conhecimento, mas na transformação da casa nesse mundo de descobertas que a letra e a escrita guarda para as crianças. Confira o que elas aconselham.

1) Papel de mediação  
A primeira lição é entender qual é a função dos pais no processo de alfabetização e deixar claro  que a família não deve assumir o papel do professor, mas sim, de ponte, como destaca a professora dA pós-graduação da Faculdade de Educação da USP, Silvia Colello. “Ou seja, favorecer o trânsito  da criança com a escola e o conhecimento, viabilizar esse trabalho”.

2) Curiosidade
As crianças têm muitas questões, dúvidas, curiosidades sobre tudo que as cerca, inclusive, as palavras. Por isso, a mestra em Educação pela Faculdade de Educação da UnB e especialista em Primeira Infância, Carol Velho, orienta que não se dê respostas de forma objetiva. “Refaça sempre a pergunta para elas acharem e construírem suas respostas”.

3) Leitura e história 
Leia com frequência para a criança e peça que ela leia também ao modo dela. A professora da Faculdade de Educação da Ufba, Liane Araújo, recomenda livros com alfabeto poético, jogos de palavras e histórias rimadas. “Há sites como A Taba, Bamboleio e produções de literatura digital das editoras Caixote e Storymax. Outra dica é o aplicativo gratuito Crianceiras,  com poemas de Manuel de Barros”.

4) Interações em casa  
Liane Araújo destaca, ainda, a importância de transformar a própria casa em um ambiente de aprendizagem: “Explore letras e palavras com alfabetos móveis em jogos e ímãs de geladeira, por exemplo, cuidando para que as crianças reconheçam os caracteres da escrita e tentem formar palavras dentro de suas possibilidades no momento”, aconselha.

5) Brincadeiras 
Para desenvolver a oralidade é importante brincar de trava-línguas, o que é o que é, palavras que comecem com a letra, que rimam e jogo da memória, como pontua Carol Velho, da UnB. “É jogar junto: achar nas palavras de uma história letras que conhecem, brincar de forca, recortar letras de revistas e montar palavras, usar embalagens para brincar de ir ao supermercado”.

6) Práticas de leitura e escrita 
Outro conselho é usar o nomede pessoas da família e amigos, observando semelhanças e diferenças e mostrar essa referência quando for tentar ler e escrever outras palavras. “Converse sobre as práticas de escrita e leitura, textos, a função de cada um deles, sempre em situações naturais de uso desses gêneros”, complementa Liane Araújo, da Ufba.

7) Gêneros
Silvia Colello, da Usp, acrescenta a necessidade de incluir vários gêneros de texto: “Seja na hora de escrever uma lista de compras, fazer uma receita, ou um bilhete para uma vovó, é preciso diversidade”. Ah, e não basta só ler a história. “É discuti-la. O que você acha que o lobo sentiu naquele momento? Isso amplia a capacidade mental da criança de lidar com o mundo da escrita”, completa.

8) A cartilha tradicional funciona?
A alfabetização vai além de juntar 'letrinhas' e envolve um processo muito mais amplo de compreensão do mundo e das funções da escrita, ao criar em casa um ambiente favorável para isso. “Os pais que concebem o processo com esse olhar conseguem fazer uma intervenção muito mais ampla”, ressalta Silvia Colello,
da USP.

Leia também - Quando a escola não basta: aulas particulares de até R$ 850 por mês têm lista de espera

9) Escrita espontânea
Aqui entra mais um recurso que pode ajudar os pais nessa tarefa: o incentivo ao desenho e a escrita espontânea, como aconselha Carol Velho, da UnB. Vale reforçar, inclusive, que nãotem forma certa ou errada de escrever nesse momento.  “Para a criança ler e escrever, as atividades precisam fazer sentido para ela. Busque coisas do seu interesse e dialogue sobre o mundo que a cerca, seus sonhos e o que mais gosta”.

10) Alfabetização é um processo
A aprendizagem vai se dar em um contexto de limitações, dificuldades e incertezas. Liane Araújo, da Ufba, deixa um recado para os pais: “Não tem como esperar o mesmo desempenho das crianças, nem se responsabilizar por neutralizar as lacunas. Seu filho vai aprender a ler e a escrever. Teremos sim, que enfrentar os prejuízos, porém, as aprendizagens escolares não serão as maiores perdas”. 

E O APLICATIVO DO MEC? 
Lançado na pandemia e com o conceito pedagógico desenvolvido pela Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, o GraphoGame, já acumula 722.790 mil downloads. No entanto, a professora da Ufba, Liane Araújo, alerta os pais: “O game confunde letra e som e termina antecipando dificuldades da ortografia para crianças muito pequenas”, analisa. O MEC não se posicionou sobre as ressalvas ao App.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas