Ameaçado, vendedor de sopa é surpreendido por união de moradores: 'foi emocionante'

salvador
17.06.2021, 23:20:29
Atualizado: 18.06.2021, 00:02:57
(Reprodução)

Ameaçado, vendedor de sopa é surpreendido por união de moradores: 'foi emocionante'

Condômino se incomodou com gritos de Izael, no Acupe de Brotas, e ameaçou o vendedor. Nesta quinta, ele voltou às vendas sob gritos de apoio e aplausos

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Na última quarta-feira (16), o vendedor de sopa Izael Menezes seguia sua rotina de vendas na região do Acupe de Brotas. Carregando sua caixa de isopor com quentinhas de 500 ml de sopa, ele anunciava aos gritos sua presença. 

"Eu estava vendendo minha sopa como de costume. Eu grito para que as pessoas saibam que eu estou ali", contou Izael ao Correio.

No entanto, o aviso de sua presença incomodou um morador. Enquanto aguardava os clientes, Izael ouviu a ameaça para que se calasse e saísse dali.

"Esse morador ficou incomodado. Ele já falava há algum tempo, eu achava que era brincadeira, mas dessa vez, ele gritou que ia descer, que ia fazer e acontecer. Eu tive medo. Nessa quarentena está ficando todo mundo doido, e a gente não tá na cabeça de ninguém, então eu peguei minha caixa e decidi ir pra casa e até parar de vender. Porque se eu não consigo vender, não consigo repor o material", disse o vendedor.

As ameaças foram ouvidas por outros moradores. "Logo que ele chegou no final da tarde, ele sempre dá boa tarde e depois começou a gritar do jeito dele. E pouco depois, ouvimos a voz da pessoa que ameaçou ele. A pessoa gritou de um jeito que não dava para saber de onde vinha, mas a pessoa disse que ele se tocasse, que estava incomodando, e que se ele não parasse de gritar que iria descer e pegar ele e que ele sumisse dali. E aquilo me partiu o coração. Ele pegou a caixinha dele e saiu", contou ao Correio Laís Brito, uma das moradoras do condomínio.

Após ser ameaçado, Izael chegou a ser visto chorando enquanto fazia o caminho de volta para casa. 

Indignada, Laís foi para o grupo de Whatsapp do condomínio e lamentou a ameaça sofrida pelo vendedor. Após receber apoio de diversos moradores, ela decidiu criar um novo grupo e colocar Izael para que as pessoas que quisessem ajudá-lo participassem.

Os moradores pediram o Pix do vendedor e enviaram contribuições. Izael, que passou a vender a sopa depois de ficar desempregado, agradeceu a ajuda em um vídeo com a esposa e as três filhas. Além da ajuda financeira, os moradores incentivaram que ele continuasse a vender a sopa nesta quinta (17).
 
A surpresa


Conforme combinado, Izael voltou ao Acupe de Brotas na noite desta quinta, mas desta vez, ele não precisou gritar  na frente do condomínio para avisar de sua presença. Um grupo de moradores já o esperava em uma fila e com gritos e aplausos contagiaram outros condôminos nas varandas. Foram eles que avisaram da presença de Izael: "Olha a sopa! olha a sopa", gritaram os moradores do local. A história foi divulgada inicialmente pelo jornalista Raphael Carneiro, nas redes sociais.

"Foi emocionante ver o povo gritando 'olha a sopa' e todos lá me esperando. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Foi bonito", contou Izael ao Correio.
Diante de tantos pedidos antecipados, Izael precisou de uma caixa bem maior do que a que trabalha normalmente para levar a sopa. A fila foi grande e em menos de meia hora, ele vendeu todo o estoque que havia preparado junto com Katiza, sua esposa.

"Fiquei extremamente feliz. Ontem eu fui dormir muito triste e hoje eu vou dormir feliz. Eu vi todo mundo se unir em prol de uma família. Foi muito bonito", disse Laís.

"O que ele fez comigo foi uma falta de respeito com o próximo. Eu vejo muitos casos de humilhação na televisão, e até choro, mas nunca achei que poderia acontecer comigo. O cara no apartamento dele, no conforto, eu aqui embaixo, só querendo ganhar meu pão e ele incomodado e falar um negócio desse. Eu fiquei muito chateado porque a coisa já está difícil e ainda querendo tirar a gente do lugar do ganha pão, mas depois de ver o que aconteceu hoje, algo tão emocionante que só mostrou que um ameaçador não representa tantas outras pessoas", contou Izael.

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