Amigas criam coletivo para produzir e doar máscaras em Salvador

coronavírus
20.04.2020, 05:30:00
Em parceria com instituições, projeto entrega máscaras em comunidades carentes (Foto: Divulgação/DelasPara Todxs)

Amigas criam coletivo para produzir e doar máscaras em Salvador

'Delas Para Todxs' distribui a proteção em comunidades carentes de Salvador

Em tempos de pandemia e isolamento social, quatro amigas resolveram se unir para ajudar quem mais precisa. Juntas, elas formam o coletivo ‘Dela Para Todxs’, que produz e distribui máscaras de algodão em comunidades carentes de Salvador. A meta do grupo é distribuir 10 mil acessórios para ajudar a combater a proliferação da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

A ideia partiu da bióloga Luciana Leite, pós-doutoranda na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e trabalhando na Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, ela percebeu a falta de equipamentos de proteção no país norte-americano e decidiu se antecipar no Brasil.

“Como lá é um país que está enfrentando a pandemia há mais tempo, eu vi que já existia um movimento para a produção e doação de máscaras de pano. Diante disso eu pensei, se os Estados Unidos que é um país mais rico do que o nosso já está enfrentando essa falta de EPIs para a sociedade, como o Brasil ainda não está se preparando para isso?”, explica a bióloga, que se divide entre a capital baiana e Foz do Iguaçu, onde vive com a família. 

A partir daí, Luciana se juntou com donas de quatro ateliês de Salvador que entraram com a mão de obra. São elas: Cândida Specht, Carola Hoisel e Jéssica Ribeiro. As três fornecem a logística e produção dos acessórios.

Dona do ateliê que leva o mesmo nome, Cândida explica que, no início, as doações chegavam através de redes de contato próximas das quatro amigas e a meta era produzir 2 mil máscaras, mas o projeto cresceu e elas decidiram criar o coletivo para deixar as informações mais claras.  

“Nossa equipe de costura está com bem menos trabalho do que antes e podemos ser úteis nesse momento com o nosso conhecimento. Assim que a gente conversou, traçamos uma meta bem conservadora. Nós precisamos fazer isso porque estávamos doando o nosso tempo e estrutura, mas precisávamos de dinheiro para produzir”, conta ela.

“Pedimos doações para as nossas redes de pessoas próximas, doações em dinheiro para pagar a mão de obra e ajudar a comprar o material para a produção. A nossa rede de doações conseguiu bater a meta financeira e a gente começou a crescer a meta de produção”, continua.

Empregos mantidos
Todo dinheiro arrecadado é usado na compra dos materiais e pagamento das costureiras, assim, além de ajudar com as doações, elas conseguem manter a remuneração das trabalhadoras durante o período de isolamento social. E foram além. Para dar conta da demanda, a equipe precisou aumentar o quadro de colaboradores. Atualmente, 15 costureiras produzem uma média de 500 máscaras por semana.  

“São pessoas que atendem a nossa marca, prestam serviço para a gente e que nesse momento estavam desamparadas. É uma preocupação nossa também deixá-las amparadas com esse trabalho, gerar renda para quem colabora com as nossas marcas, fazem o nosso trabalho acontecer em tempos normais e agora estão sem renda. Não estamos tendo produção para entregar para elas, mas essa é uma forma para elas terem alguma renda”, continua Cândida.

O grupo recebe doações em dinheiro através de uma vaquinha coletiva (vaka.me/981499). Quem preferir também pode ajudar doando tecido de algodão e elástico. Basta entrar em contato através da página do coletivo no Instagram (@delas_para_todxs) e acertar a entrega.

Com a produção acelerada, elas já conseguiram os primeiros resultados. Em parceria com instituições como o Coletivo de Entidades Negras (CEN), Voz do Povo e o Movimento População de Rua, o material já foi distribuído em bairros como Cosme de Farias e Solar do Unhão. Ontem, foi a vez do Nordeste de Amaralina receber um lote de máscaras.

União de saberes
Para produzir as máscaras, o grupo utilizou um modelo com especificações indicadas pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, já que no Brasil não existia protocolo para os EPI’s, e adotou o algodão por ser mais fácil de esterilizar e reutilizar. Luciana, no entanto, destaca que o mais importante do processo foi a união entre a parte científica e a técnica das costureiras.

“Uma coisa que me tocou muito no projeto é que quando estamos lidando com problemas tão complexos como o que estamos enfrentando no mundo, a gente precisa muito dessa união de saberes. O que mais me toca no projeto é saber que estamos conseguindo reunir desde pesquisadores, que estão estudando a capacidade de infiltrar, as diferentes malhas, aerossóis, até o saber técnico construído das costureiras. Hoje, a gente depende delas”, explica a bióloga.

“Trouxemos modelos de máscaras, mas tivemos que ouvir as costureiras falarem, olha esse elástico não vai funcionar, essa costura não tá boa... pra mim uma das coisas mais emocionantes é essa valorização do saber. Chegamos em um momento que é tão necessário dialogar com a ciência, com o ateliê, com as costureiras. Isso é muito importante”.

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