Após adaptação difícil, trabalhadores dizem que dão mais resultado no home office

agenda bahia
25.10.2021, 06:00:00
A especialista em gestão de pessoas Priscilla Reuter destaca a humanização do trabalho como fundamental para o home office (Paula Fróes / CORREIO)

Após adaptação difícil, trabalhadores dizem que dão mais resultado no home office

O que é produtividade? Confira dicas para tornar sua atuação mais eficaz

Victor Ramos sempre achou que o trabalho não precisaria seguir o formato tradicional do horário comercial. O advogado de 37 anos gosta de acordar cedo e, não raro, era uma das primeiras pessoas a chegar no escritório em Salvador. Gostava de tirar um tempo mais longo para almoçar. Às vezes voltava para casa mais cedo. E surpreendia os sócios com e-mails enviados às 21h.

“Sou uma pessoa matinal, chegava no escritório às 7h, às vezes 6h. Mas trabalho enquanto eu sou produtivo. Se eu acho que não está rendendo, eu paro, faço alguma coisa, depois eu melhoro a cabeça e volto para terminar o que tenho que fazer”, explicou.

Com o isolamento social e a insatisfação com a qualidade de vida no Brasil, Victor decidiu colocar em prática uma vontade antiga: viver fora do país. Organizado, levou o home office e os dois gatos, Ragnar e Cheesecake, junto com ele para Portugal, onde fincou raízes na Costa da Caparica, na área metropolitana de Lisboa. Além de realizar um sonho, Victor teve uma grata surpresa: conseguiu ser ainda mais produtivo para o escritório morando a um oceano de distância.

“Até o fuso horário de três horas a mais, daqui, ajudou. Como eu consigo produzir muito pela manhã, à tarde, que é quando o pessoal no Brasil está começando a produzir, eu estou sempre à disposição. Hoje por exemplo, das 16h às 17h eu fui surfar. Estava completamente dentro de um prazo razoável para responder demandas de clientes. Às 21h termino tudo que eu tenho que fazer. Eu não preciso trabalhar no horário comercial certinho pra saber que eu trabalhei”.

Victor só conseguiu mudar de país e continuar trabalhando para o mesmo escritório porque a pandemia apressou avanços tecnológicos na área dele, tornando possíveis reuniões com clientes, juízes, até mesmo audiências, de forma 100% remota. Mas a concepção de fluxo de trabalho, que ele já tinha, foi a mudança de chave para muitas empresas, funcionários e prestadores de serviço – mesmo no Brasil e na Bahia.

Karine Oliveira, da Wakanda Educação Empreendedora, disse que se surpreendeu com a adaptação da empresa para o home office, ainda mais com a entrega dos funcionários. “Existem pessoas que têm horários produtivos completamente diferentes. E nós, como gestores, precisamos perceber isso. A gente fez um estudo do nosso quadro e os picos de produtividade chamaram atenção, porque tinha gente que trabalhava melhor na madrugada e a gente nem imaginava”, pontuou.

O advogado Victor Ramos mudou-se para a Costa da Caparica, na área metropolitana de Lisboa, em Portugal com os dois gatos (Foto: Acervo Pessoal)

“Passamos a tomar mais cuidado com a demanda do que com o tempo trabalhado. Não enviamos whatsapp para o funcionário a não ser que seja estritamente necessário, criamos canais específicos para conversas da empresa para que dê para todo mundo separar bem o que é trabalho do que não é. Temos que olhar a produtividade pela entrega, não quantidades de horas.”

Essas soluções propostas pela Wakanda foram pensadas para melhorar o rendimento dos funcionários mas, também, contribui para a saúde mental. E isso, para Priscilla Reuter, que é especialista em gestão de pessoas e co-fundadora do Áurea Institute, muitas vezes é deixado de lado pelas empresas traz impactos negativos.

“A produtividade é um sintoma: se você está bem você produz bem. Se não, não tem como produzir. E para você estar bem você não pode ter sentimentos como insegurança ou medo relacionados ao trabalho. O medo é uma emoção primária, mexe com o instinto de sobrevivência e libera gatilhos”.

Sem romantização

Mais de 58% dos brasileiros em home office se sentem mais produtivos trabalhando nesse formato, segundo pesquisa realizada em março deste ano pela Fundação Dom Cabral em parceria com a Grant Thornton e a Emlyon Business School. Em 2020, essa porcentagem era de 44%, o que aponta que empresas e funcionários passaram por um período de ajustes até chegarem ao equilíbrio.

“A transição foi bem sentida, não tem como romantizar esse processo muito por conta da dor causada pela pandemia. Por isso é necessário apoio terapêutico e gestão de emoções. Senão, de nada vai adiantar traçar estratégias, fazer checklist de pequenas tarefas diárias, estabelecer metas de entrega”, acrescentou Priscilla.

Ela própria passou por um período de mudanças: até agosto deste ano Priscilla era analista de RH da Ford, empresa onde passou 14 anos. E viveu a experiência do home office até montar o próprio negócio. “Quando eu comecei a trabalhar em casa eu me sentia estranha, como se eu estivesse fazendo algo errado. E muita gente sentiu medo de não estarem te vendo, medo por acharem que você não está trabalhando, você acaba ficando à disposição o tempo todo, trabalhando até mais tarde. É a produtividade tóxica.”

Esse é um problema que ainda existe para muitos brasileiros que trabalham de casa: 24% responderam que têm volume maior de trabalho nesse modelo e 20,6% têm receio que o home office piore o convívio social a longo prazo. E 78% acreditam que não conseguem equilibrar as tarefas profissionais com as pessoais e domésticas.

Para Priscilla, a humanização no trabalho, seja de casa ou no escritório físico, são a aposta para o equilíbrio entre produção e saúde mental. Ela aponta que a nova geração de profissionais começou a questionar a forma de trabalho até mesmo nas grandes empresas, com estruturas hierárquicas bem definidas e burocracias próprias. A comunicação ganha mais importância.

“Os Millenials começaram a questionar esses sistemas, enquanto a minha geração só fazia seguir o fluxo. Hoje percebo que os gestores estão muito mais abertos a novas formas de se trabalhar, porque eles viveram a experiência do home office e sabem que é possível ser produtivo de casa ou do modelo híbrido. Com o trabalho remoto você pode ter lideranças e colaboradores em todos os lugares do mundo sem fronteiras”.

O modelo híbrido fica um pouco mais complicado para Victor, mas ele garante que, se for necessário, em nove horas ele chega em Salvador. “É a parte boa de morar perto do aeroporto. Pego um voo direto, passo em trânsito o tempo que o pessoal está dormindo e chego quando todo mundo está acordando. É quase como se eu tivesse dormido e acordado em Salvador”, brincou.

O Agenda Bahia 2021 acontece no dia 28 de outubro, às 18h, pelo youtube.com/correio24h e pelo @correio24horas no Instagram. Visite o site bit.ly/agendabahia21 para conferir mais informações sobre o projeto. O Agenda Bahia 2021 é uma realização do CORREIO, com patrocínio da Unipar, parceria da Braskem, apoio da Sotero Ambiental, Tronox, Jotagê Engenharia, CF Refrigeração e AJL Locadora e apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador, Sistema FIEB, Sebrae, Rede Bahia e GFM 90,1.

Dicas para tornar seu trabalho mais produtivo (por Priscilla Reuter)

  • Separe um ambiente em casa onde você tenha menos distrações;
  • Decore esse ambiente: canetas, porta-retratos, vale até pintar a parede para mostrar à família que o lugar é de trabalho;
  • Negocie com a empresa e invista em ergonomia: conforto é importante para a saúde;
  • Estabeleça comunicação transparente com a liderança, para que os resultados sejam claros;
  • Use o tempo que você perdia com deslocamento em horário produtivo, seja com exercício físico ou momentos de qualidade com a família para intercalar com as atividades;
  • Apoio terapêutico é fundamental: se a empresa não fornecer vale investir por conta própria.

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