Arquidiocese abre processo de beatificação de Madre Vitória, religiosa morta há 300 anos 

salvador
15.11.2019, 05:30:00
Atualizado: 18.11.2019, 08:03:52

Arquidiocese abre processo de beatificação de Madre Vitória, religiosa morta há 300 anos 

Vaticano autorizou causa solicitada pelo arcebispo de Salvador, Dom Murilo Krieger, e abertura oficial será nesta terça-feira (19)

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Uma fragrância de rosas se espalhou pelas dependências do Convento de Santa Clara do Desterro, no bairro de Nazaré, em Salvador, na tarde em que morreu Madre Vitória da Encarnação, aos 54 anos, em 19 de julho de 1715. Há 300 anos, quando nascia para os céus, defendem os religiosos, Vitória foi vista voando pelos corredores do mosteiro em forma de passarinho, bem durante o rito das exéquias, o ritual de velório.

Salvo outros mistérios narrados na biografia de autoria do então arcebispo da capital baiana, Dom Sebastião Monteiro da Vide, não há informações concretas, ainda hoje, de como morreu a madre. O detalhe, além de dons sobrenaturais citados na obra, é objeto do estudo que compõe o processo de beatificação da soteropolitana. A causa está autorizada pelo Vaticano e será oficialmente aberta pela Arquidiocese de Salvador nesta terça-feira (19).

Vaticano autoriza processo de beatificação da Madre Vitória da Encarnação (Foto: Mauro Akin Nassor)

CONHEÇA MADRE VITÓRIA, A FUTURA SANTA BAIANA QUE GUARDAVA UM CRÂNIO

O reconhecimento da freira como santa não vai seguir o ritmo da canonização de Dulce dos Pobres, terceira mais rápida da Igreja Católica – atrás apenas de João Paulo II e Madre Tereza de Calcultá.

Primeiro porque há apenas a perspectiva de Dom Sebastião sobre a vida da religiosa. Depois, pela impossibilidade de convocar outros que conviveram com ela no Brasil Colônia, ambientado na segunda metade do século 17, explica o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger.

Pode ser que Vitória nunca alcance a santidade. E pode ser que seja canonizada daqui a mais 300 anos. O obstáculo que perpassa a comprovação do divino, contudo, foi parte do que instigou Krieger a solicitar o pedido de reconhecimento à cúpula do Vaticano, em 2016.

“Talvez ela não seja canonizada. É algo que não é certo acontecer. Mas que seja conhecida. Quem sabe se torne uma venerável”, diz o arcebispo, ao citar outro título canônico.

Houve um tempo em que era possível reconhecer um santo só pela fama de milagroso, ou mesmo por atos heroicos e vida dedicada ao cristianismo. Mártires como São Jorge e Santa Bárbara foram agraciados com o título sem qualquer comprovação de santidade, atesta a história. Mas aí, no final dos anos 900, a Igreja passou a só reconhecer como santos provedores de, no mínimo, dois milagres. O primeiro garante a beatificação. No segundo, a graça da santidade. 

Dom Murilo recebeu biografia restaurada da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (Foto: Tailane Muniz/CORREIO)

Veja quais foram os passos de Irmã Dulce até a santidade

Primeiro passo
É só o início do que pode durar “toda uma vida”, reforça Dom Murilo Krieger. Em outras palavras, revela que o primeiro passo, feito a nível diocesano, ou seja, pela própria comunidade da arquidiocese, busca reunir o máximo de informações sobre a vida e ações da religiosa, que, aos 14 anos, bradava que preferia perder a cabeça a ser enviada para um convento na Ilha de Madeira, em Portugal.

Nascida em berços genuinamente católicos, com pais fervorosamente praticantes, comenta o arcebispo, a madre desafiava até as delimitações da cela em que viveu por 29 anos, no Convento do Desterro – onde estão depositados seus restos mortais. Chegou aos 25, mas não se sabe por qual motivação. De lá, ajudava os pobres, mesmo impedida de sair.

Há sinais bonitos, há sinais fortes de que há algo grandioso, mas são só sinais, e todos sob uma única perspectiva, e a intenção é essa, investigar até que ponto há o concreto”, diz Krieger, ao ressaltar a publicação de Dom Sebastião da Vide, feita cinco anos após a morte de Vitória, aos olhos do padre e irmãs de mosteiro.

“Era um religioso com muita bagagem, não era qualquer um. Me espantou o fato de ter publicado a biografia em Roma tão pouco tempo depois que ela morreu. Isso também me motivou a fazer o pedido”, conta ele, que destaca a raridade da obra. “Havia apenas dois exemplares no Brasil, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Recebi uma cópia restaurada deles”.

Na época, Dom Murilo chegou a acreditar que já havia um pedido de processo de canonização aberto junto à Congregação das Causas dos Santos. Mas não.

“Garantiram que não havia pedidos”, recorda. Dom Murilo recebeu o aval da cúpula da Igreja Católica em três meses. E explica que não havia, contudo, alguém “ideal” a quem pudesse atribuir a causa. “Estávamos em meio ao processo de Dulce, então preferi aguardar um momento mais propício”, justifica o intervalo de três anos.

Ao menos dez pessoas estarão diretamente ligadas a este primeiro momento de investigação de vida e morte da religiosa. Cinco historiadores da Universidade Federal da Bahia (Ufba), além de cinco padres – escolhidos e orientados por Dom Murilo  –, além do postulador da causa, frei capuchinho Jociel Gomes, indicado pelas Irmãs Clarissas do Brasil. 

‘Grande desafio’
À reportagem, o frei pernambucano não nega as adversidades. Mas pontua que a equipe pode, sim, ajudar a tornar santa mais uma baiana. Destaca que, desde o início do século 18, já havia certa santidade atribuída à baiana. “A expectativa é muito grande. Ela é uma mulher que morreu há muito tempo, e até os dias de hoje encontramos admiradores”. 

Quanto às impossibilidades temporais como, por exemplo, ouvir testemunhos de pessoas que conviveram ou viram um feito da religiosa, o postulador considera, no entanto, uma outra modalidade de valor testemunhal.

“Há a testemunha ocular e aquelas pessoas que ouviram falar ou estudaram a história dela, então nós acreditamos, que é algo possível. Tem gente que fez mestrado, doutorado sobre a madre, vamos extrair profundamente”, diz, sobre o Tribunal Eclesiástico.

Também destaca o fato de haver, no mosteiro do Desterro, documentos que podem constar detalhes importantes acerca de como vivia a freira. “Pode ser que haja cartas dela, por exemplo. Nós já sabemos que há um acervo, resta fazer essa checagem”.

As comissões, tanto de história quanto a religiosa, trabalham de forma voluntária. O que é razão de felicidade, comenta o frei, já que todo o custo de um processo de beatificação e canonização são custeados pelas próprias congregações. No caso de Santa Dulce dos Pobres, o valor total investido chegou a 10 mil euros, segundo às Obras Sociais Irmã Dulce (Osid). Outros 20 mil euros foram angariados em doações. A quantia para a causa de Madre Vitória pode ultrapassar o valor.

Sem falar em números, Dom Murilo se limitou a confirmar que o gasto não é dos menores. “São viagens, despesas, documentos, pagamento de alguns profissionais específicos entre outras questões”. Ao CORREIO, disse que uma conta administrada pela Federação das Clarissas – que engloba os 21 conventos existentes no país – fica responsável pela gestão do dinheiro e prestação de contas ao Vaticano.

Milagre e devoção
Assim como Madre Vitória, o fisioterapeuta Paulo Thadeu Souza Santos, 37, é filho de católicos assíduos. Natural de Teixeira de Freitas, no extremo Sul da Bahia, conheceu, em 2007, o convento em que viveu a freira, três anos após vir à capital para estudar. “Um padre falou dela e eu fiquei interessado porque ouvi as histórias dos dons que ela tinha”.

Os devotos Paulo e Thiago divulgam a vida e história da religiosa baiana (Foto: Mauro Akin Nassor)

Ouviu que a religiosa podia se transfigurar, encontrar objetos perdidos e até iluminar ambientes. Também soube que curou o câncer de outra freira, no início do século 18. O tumor se dissolveu depois que a mulher doente tomou um copo com água misturada a um “pouco de terra” do túmulo da madre. O segundo milagre, comenta, se deu na década de 80, quando “fez voltar a viver” uma adolescente que morreu intoxicada no Hospital Roberto Santos, no bairro do Cabula.

Encantado, ele passou a pesquisar cada vez mais sobre tudo o que há publicado acerca da vida de Vitória, tudo com base na biografia tricentenária de Monteiro De Vide. Em 2015, quando já havia criado um grupo para disseminar a vida e morte da mulher, lembra Paulo, teve a ideia de realizar uma missa em homenagem aos 300 anos do falecimento. Ele procurou Dom Gilson, que procurou Dom Murilo, e foi aí que tudo se desenhou.

“Antes não havia uma preocupação com processos de canonização dela, então não houve o recolhimento dessas provas. Mas há famílias que atestam milagres como curas, empregos alcançados, causas judiciais vencidas e até gravidez impossibilitada”. Paulo conta à reportagem que, junto ao arcebispo de Salvador, argumentou pela conservação à devoção em alguém que se foi há tanto tempo.

“Faz tanto tempo que os termos utilizados para falar sobre a morte são incompreensíveis até para mim, que sou da área de saúde. Mesmo assim, nós somos um grupo de 15 pessoas unidas e determinadas a apresentar a madre e fazer com que o processo se encaminhe”, conta Paulo.

‘Grande santa’
Segundo Paulo, a orientação para criar um grupo de devotos veio do frei italiano Paolo Lombardo, que visitava o Brasil. Após convite de Paulo, Paolo conheceu o mosteiro em Nazaré e, recorda, atribuiu à religiosa o “perfil de uma grande santa”. “Disse que não devia nada às santas europeias e sugeriu que formássemos o grupo”.

A força-tarefa que organiza voluntariamente as missas mensais para a candidata a santa, já encara a missão de espalhar o nome da baiana. Fazem isso na internet, nos eventos religiosos do mosteiro ou em qualquer outra oportunidade, afirma o professor de Ensino Religioso, Thiago Felipe Lima da Mata, 33.

Integrante do grupo, ele é certo de que a madre é merecedora do título.

“Eu ficava a me questionar: por que uma mulher com tamanha envergadura não tem ainda sua santidade reconhecida? E é a questão histórica do Brasil. Os santos brasileiros têm em média dez anos de reconhecimento. Alguns, tão antigos quanto ela [a freira]”, avalia.

Thiago, que afirma gosto pela Hagiografia – o estudo da vida dos santos –, se diz encantado pela misticidade atribuída a Vitória. “Sem dúvida, dotada com dons sobrenaturais. Dom de iluminação, transfiguração, tinha visões e realizava profecias, ela podia prever acontecidos”.

A tocha acesa no divino amor, escrita na biografia de Dom Monteiro da Vide, refere-se à Vitória. Porque era como passava as noites em claro a fazer orações, interpreta o arcebispo de Salvador, Dom Murilo. Uma mulher de muita coragem, defendem os devotos Paulo e Thiago, quanto aos relatos de auxílio aos necessitados. 

Pouco conhecida neste século, Madre Vitória da Encarnação é como um membro na família de alguns seguidores. É assim para Paulo. E também para Thiago. Os fiéis escudeiros da madre não podem garantir a ela o título de santa, mas já se articulam para que a fé que os une também possa mover as montanhas que diz o ditado.

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