As redes sociais saíram do ar? Ô glória!

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09.10.2021, 07:00:00
Franciel não tem celular e não se afetou com o "apagão" do WhatsApp (Divulgação)

As redes sociais saíram do ar? Ô glória!

Apagão do WhatsApp, Instagram e Facebook deixou pessoas mais felizes e com fé na humanidade

Se antes alguns acreditavam que o mundo poderia acabar com fogo ou água, um fato atípico na última semana provou que as escrituras sagradas esqueceram de mencionar um futuro apocalíptico sem redes sociais. Para muitas pessoas, o ensaio geral do juízo final aconteceu na última segunda-feira, quando WhatsApp, Instagram e Facebook ficaram horas fora do ar. Contudo, outras criaturas viram que este apocalipse social deixou de ser um medo e passou a ser uma esperança de dias de paz e longe do cotidiano virtual que toma nossas vidas. Acredite. Teve gente que deu graças a Deus pela pane das redes de Mark Zuckerberg.

Enquanto seus cabelos encaracolados (e cheios de Colene) tentavam se mover na brisa da Ilha de Itaparica, o escritor Franciel Cruz apreciava uma rede (não a social, a que se deita), acompanhada de uma cerveja gelada. Ele nem se deu conta que o mundo estava um caos por conta das redes sociais estarem fora do ar. Só depois que ligou o notebook para contar culhudas no Twitter, uma das redes que não saíram do ar, descobriu que o pânico estava formado. “Eu vejo a galera nesta agonia da desgraça porque caiu Uatizap, Instagram e outras mumunhas e só então me lembro que nem celular eu tenho”, escreveu Franciel, no Twitter. De fato, ele é desprovido de celular e, obviamente, nunca teve WhatsApp. Com muita briga, resolveu fazer um Facebook, o que já foi um avanço.

“Nunca quis conta com esta porra. Por incrível que possa parecer, minha decisão de não usar celular foi, como direi, estética. É uma evasão de privacidade, as pessoas falam gritando e andando (com o celular) ao mesmo tempo. Olhei para aquilo e pensei: quem vai usar isso é coelho. E nunca tive”, resumiu Franciel, que ainda utiliza telefone fixo para se comunicar ou o celular da namorada em casos mais urgentes.

Inclusive, certa feita, ele conta que quase se dá mal num assalto em Salvador, pois era o único no ônibus que não tinha um celular. Quase precisa tirar a roupa toda para provar que não estava escondendo o aparelho. “Comecei a tirar a camisa e ele (o ladrão) gritou. ‘Se vista, zorra, não quero ver striptease seu não’”, lembra Franciel. 

Na mesma pegada libertadora, o diretor de teatro e presidente da Fundação Gregório de Mattos, Fernando Guerreiro, canalizou todo seu ódio no WhatsApp, um vilão neste cotidiano virtual e instantâneo das redes, que te obriga a responder tudo na mesma hora. Para ele, seis horas sem o famigerado Zap foi como padecer no paraíso. 

“A ausência do Zap me fez voltar a uma época em que tinha paz na minha mente. É incrível que fiz uma comparação. A pessoa só consegue receber uma ligação telefônica de cada vez, enquanto você pode receber diversos zaps ao mesmo tempo. E todos eles desesperados, exigindo respostas imediatas. Então foi como se eu tivesse recuperado um tempo em que eu tinha possibilidade de escolher se atendia ou não atendia, responder ou não responder, sem contar que tinha uma quantidade muito menor de formação de demandas”, disse Guerreiro, crítico quase empírico dos áudios de WhatsApp. “Eu adoraria a vida sem estes grupos apavorantes que se formam a cada minuto e as pessoas mandando áudios, eu tenho horror a áudios de zap! Depois um monte de interrogação querendo que você responda imediatamente... Foi saudosismo total aquela segunda sem zap!”, completa.

Fernando Guerreiro e sua leveza de saber que o Zap estava fora do ar

Susto e alívio 
A publicitária Maihana Cazuquel não chega a ser avessa às redes sociais. Muito pelo contrário. Utiliza as redes para lazer e trabalho. Seu Instagram, por exemplo, tem mais de 23 mil seguidores. No dia da pane nas três redes de Zuckerberg, demorou um pouco de perceber o problema global, pois teve uma reação alérgica nas primeiras horas da manhã e precisou de nebulização. Em dia raro, só iniciou o trabalho depois das 12h, quando pegou no celular. Teve um primeiro momento de susto e percebeu que a dependência era grande, principalmente do WhatsApp. Mesmo assim, respirou fundo, se reorganizou e viu que tinham outras maneiras de se comunicar. Na verdade, relembrou de algumas, como um simples telefonema, coisa rara nos dias atuais.
 
“Fiz umas ligações que realmente eram importantes, mandei alguns e-mails e me senti aliviada de não ter que ficar parando o tempo todo para responder WhatsApp e ver Instagram. Resolvi tudo que tinha e ainda um pouco mais, já que o tempo estava melhor dividido sem as redes sociais para me distrair”, conta a baiana Cazuquel, que mora em São Paulo e decidiu mudar um pouco sua rotina após seis horas sem redes sociais. “À noite me senti mais aliviada, sem fofocas desnecessárias, notícias fakes e assuntos aleatórios que atrapalham meu foco. Aproveitei melhor meu dia, como era antigamente. Então, me fez bem todo aquele problema nas redes. Decidi me organizar melhor e diminuir o uso desnecessário das redes”.

Para a psicóloga Francileide Pimentel Costa, este alívio pela ausência das redes, mesmo que num curto espaço de tempo, mostra o quanto estamos mergulhados e ansiosos por conta das plataformas digitais.

“Estamos dependentes do mundo virtual. As pessoas perceberam o quanto isto não é benéfico e que podem escapar desta realidade, limitando o tempo de uso. Esta sensação de alívio sem as redes se deve em virtude da sensação de liberdade, de controle da sua própria vida. Hoje tudo é tão instantâneo que as pessoas não conseguem mais dar limites ao seu próprio tempo, para o trabalho, para o lazer...”, explica a coordenadora do curso de Psicologia da UniFTC de Feira de Santana.

Para a dentista Madalena Jequi, a segunda-feira uniu o útil ao agradável. Ela estava de folga do trabalho e aproveitou a pane nas redes para largar o celular na gaveta. “Zero desespero. Foi um dia leve, ainda estava de folga do trabalho. Deixei o celular em casa e fui andar na praia, tomar um solzinho e relaxar. Esquecer os “bips” do WhatsApp, sem qualquer outra rede social tomando meu tempo, foi relaxante. Amei meu dia! Sem angústia! Poderia ser assim todos os dias, mas não dá, né?”. 

Houve também aquelas pessoas que resolveram mudar sua rotina, aproveitando para reformular o tempo na internet, como foi o caso da  fonoaudióloga Fernanda da Rocha. “Fiquei em paz. Me toquei sobre o tempo que perco no WhatsApp. Ganhei mais tempo sem ele. Pior que, quando voltou, não tinha nenhuma novidade acontecendo. Agora uso até um determinado horário e depois não respondo mais. Mesmo que tenham 200 mensagens”. 

No Twitter, teve muita gente desesperada, postando sua indignação pelo Zap e Instagram estarem fora do ar. Contudo, também teve muita gente postando seu alívio e paz sem rede social. Oxe. Dizer que está feliz sem rede social... postando nas redes? “A maioria que vi agradecendo o fato de não precisar usar as redes sociais escreveu isto em outras redes sociais. (risos). Não vejo como ser possível fazer esta desintoxicação. É uma questão de intensidade e tempo. Quanto do seu dia é tomado pelas redes sociais e internet? Eu já tratei uma mulher que passava até 15 horas (por dia) jogando on-line no celular. A internet é um recurso. Ela não é boa, nem má. Não é a internet em si, mas como podemos usar de forma saudável”, contou a doutora em Ciências de Saúde e especialista em psiquiatria, Miriam Gorender. 

Não é fácil se livrar do mundo virtual, mas dá para limitar seu uso. O ideal é utilizar, no máximo, três horas diárias, salvo em casos extremos e profissionais. Quer uma sugestão? Escutem a nova música de Caetano Veloso, Anjos Tronchos. Ele fala sobre este nosso mundo de intensos e densos algoritmos digitais. O problema é que só dá para ouvir nas plataformas digitais, né? Assim fica difícil...

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