Avôs dos food trucks, trailers de lanche foram expulsos da orla em 1980

entre
19.12.2021, 11:01:00
(Foto: Carlos Catela/Arquivo CORREIO)

Avôs dos food trucks, trailers de lanche foram expulsos da orla em 1980

Prefeito da época não renovou licença para veículos e gerou revolta de proprietários

Feios, sujos e malvados. Na verdade, mal lavados. Essa era a visão do então prefeito Mário Kertész, nos idos de 1979, em relação aos antigos trailers que faziam parte da paisagem de Salvador, especialmente na orla. O gestor tinha assumido o cargo em março daquele ano e, já em julho, publicou decreto avisando que as licenças para o tipo de serviço não seriam renovadas no ano seguinte.

O tal decreto, publicado no Diário Oficial de 24 de julho, não poupava críticas ao comércio em trailer – antepassados dos atuais food trucks gastronômicos –, acusando-os de “comprometerem a estética, as condições ambientais e paisagísticas” da cidade e, pior ainda, “praticar atos atentatórios à higiene e asseio dos logradouros públicos”. Ou seja, o alegado “hot-morte com barata palha” estava com os dias contados.

As reclamações dos donos de trailer, claro, se arrastaram nos meses seguintes, e no início de dezembro ainda havia, entre os que insistiam na permanência, a esperança de que o prefeito voltasse atrás da decisão, considerada radical. Além dos trailers de lanche – que vendiam sanduíche, hamburguer, hot e refri –, os quatro artigos do decreto também anunciavam mudanças nas regras em relação a carrinhos menores.

Vá pra Paris!
Na edição de 7 de dezembro, um empresário trailerista argumentou que havia carros iguais aos seus vendendo lanche junto à Torre Eiffel, e no Vale dos Reis, no Egito, e até ao lado do Palácio do Planalto. Essa observação, relatada pela reportagem da época a Kertész, não passou batida pelo prefeito.

“Se ele alega isso, então vá vender suas coisas em Paris, no Egito ou em Brasília. Em Salvador é que não pode mais”, encerrou o papo, dando uma indicação que não cederia às pressões.

Àquela altura, ainda havia 58 carros espalhados pela cidade, alguns nas praias mais movimentadas, como Ondina, Barra e Pituba – sim, até os anos 90 a Pituba era point de banhistas –, e mesmo perto de cemitério, para comercializar flores. 

Reprodução das edições de 7 de dezembro de 1989 e 3 de janeiro de 1980

Com a prefeitura vetando a licença para a exploração de comércio através de trailers ou qualquer equipamento parecido, um empresário dono de oito veículos se injuriou.

“Isso é um verdadeiro absurdo. Olha, eu investi foi 3 milhões (de cruzeiros) nisso tudo, agora vem a prefeitura e quer acabar. Como é que eu vou ficar nisso tudo?”, questionou Antônio Braga, o Tony.

Não encontramos o empresário, mas Kertész lembra bem do episódio. “Ele ficou puto da vida comigo, porque eu dei o prazo para ele e os outros se ajustarem e saberem que iam sair. Eles levaram na esculhambação porque, até então, a prefeitura não fazia zorra nenhuma. A cidade tava esculhambada, e eu tive que atacar em vários pontos: obras a serem acabadas; a limpeza, que tava numa situação difícil”, relembrou o ex-prefeito, essa semana.

No final de 79, MK chegou a comentar que não houve contato dos empresários para resolver o problema nos termos colocados pela prefeitura, mas admitiu na ocasião que a decisão já estava praticamente tomada. “Se eles vierem eu recebo, a gente discute, troca ideias. Agora a decisão já está tomada e não vamos voltar atrás”, dizia, reiterando que os esforços, àquela altura, seriam em vão.

‘De classe’
Então secretário municipal de Serviços Públicos, Vicente Federico é citado numa das reportagens da cobertura como dono da ideia de banir os trailers, mas Mário faz questão de tomar a responsabilidade para si, hoje.

“A ideia foi minha, porque antes de eu assumir a prefeitura, eu tava morando no Rio, e chegando aqui, eu comecei a andar pela cidade, e isso [trailers por todo lado] me incomodou muito. Aí eu chamei Federico para ser o executor da medida”, recorda.

E prossegue: “Esses trailer foram se instalando onde eles queriam. Maior esculhambação, não tinha licença da prefeitura, não tinha higiene nenhuma, rapaz. Eu entrei em vários, era rato, cocô, uma zorra, e não era uma coisa individual só. Tinham dois empresários que estavam explorando isso em vários pontos, e eu dei um prazo para eles ou se adaptarem à legislação sanitária e de localização, ou eu iria tirar”.

Se Kertész – antes e agora – centrou seus ataques à atividade, principalmente, nas questões estética e sanitária, Federico mirou no surgimento natural de estabelecimentos de melhor qualidade ou, nas suas palavras, “de classe”. “Com isso a cidade praticamente não tinha muitas lanchonetes ‘de classe’. Claro, havia a concorrência desleal dos carrinhos que não pagavam imposto e os comerciantes não iam investir em lanchonetes que atendem melhor ao público para depois ter prejuízos”, comentou o ex-secretário, que não chegou a testar a qualidade dos lanches de trailer, mas afirmou que gostava de comer na lanchonete de um hotel em Ondina. Vida loka.

MK provou os ‘comeu morreu’, e avaliou com apenas uma estrela. “Comi e não gostei. Uma porcaria aquilo”, criticou, na época, e ainda deu a entender que colocou a própria vida em risco. “Uma vez eu acompanhei um comando sanitário. Queria fiscalizar a orla e vi coisas horríveis. Teve um que quando a gente chegou saiu mais de 10 ratos de dentro. Um atrás do outro”. 

Saudades?
Os ratatouilles da orla não agradaram a prefeitura (em 2015, Salvador ganhou uma lei que regulamenta a atividade de food truck), e a cidade perdeu alguns espaços gastronômicos que devem ter marcado a vida de muita gente (para o bem ou para o mal), como os trailers O Corujão, Dinossauro, Kachorrão, Bicão, Salsichão, Mulata, Iara, Surt, Capucho, Tony’s e Hot Girl Lanches, para citar alguns dos mais frequentados.

A retirada dos últimos trailers foi noticiada no dia 3 de janeiro de 1980 sob o título “A Orla ficou mais bonita. Os trailers já saíram”. A notícia fazia um balanço sobre a denominada ‘Operação Trailer’, realizada no dia 2 com utilização de guinchos, carretas e rebocadores – Mário conta que participou pessoalmente da retirada de alguns. O primeiro trailer foi apreendido em Ondina, depois mais três foram removidos no Jardim de Alah e sobrou ainda para veículos que estavam na Ribeira. 

A orla, então, ficou mais bonita depois da queima de fogos (há controvérsias, afinal, tinha quem gostasse), e só voltou a ficar menos gatinha quando alguém parou e reparou: “como essas barracas de praia são feias, sujas e malvadas!” Mas isso é assunto para mais de duas décadas mais tarde, que a gente relembra em outra oportunidade.

***

Em tempos de desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informações nas quais você pode confiar. E para isso precisamos de uma equipe de colaboradores e jornalistas apurando os fatos e se dedicando a entregar conteúdo de qualidade e feito na Bahia. Já pensou que você além de se manter informado com conteúdo confiável, ainda pode apoiar o que é produzido pelo jornalismo profissional baiano? E melhor, custa muito pouco. Assine o jornal.


Relacionadas