Bahia é o segundo estado que mais tem mortes por covid-19 em crianças

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13.01.2022, 05:00:00
(Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo)

Bahia é o segundo estado que mais tem mortes por covid-19 em crianças

Enquanto isso, ocupação dos leitos de UTI pediátrica está em 90% na capital

A Bahia é o segundo estado do Brasil com mais mortes de crianças entre 5 e 11 anos por covid-19 desde o início da pandemia, só perdendo para São Paulo, que registrou 22,8% dos 324 óbitos já ocorridos no país nessa faixa etária por conta do coronavírus. Aqui, foram 30 mortes registradas (9,8%), segundo dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen). As pessoas dessa faixa etária, que até então estão sem a proteção da vacina, devem começar a receber o imunizante nos próximos dias. 

A vacina da Pfizer para crianças está prevista para chegar a partir de hoje ao país. Segundo o Ministério da Saúde (MS), o Brasil deve receber 3,74 milhões de doses neste mês. O número é pequeno, uma vez que a população brasileira de 5 a 11 anos é de quase 20 milhões de indivíduos e são necessárias 40 milhões de doses para a imunização completa desse contingente. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) analisa o uso da CoronaVac para crianças acima de 3 anos de idade.

A previsão da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) é que a vacinação das crianças entre 5 e 11 anos se inicie ainda neste mês. Com o surto de gripe H3N2 (variante do vírus Influenza A batizada de Darwin) e o avanço da variante Ômicron do coronavírus Sars-CoV-2, a taxa de ocupação da UTI pediátrica no estado já 72%, segundo o boletim divulgado pela secretaria ontem. Em Salvador, 90% dos leitos pediátricos de UTI para tratamento da covid-19 têm crianças internadas.

Enquanto a vacinação não começa, muitos pais e mães baianos estão ansiosos para protegerem suas crianças. É o caso de Elaine Angelon, moradora da Região Metropolitana de Salvador. Seu filho mais velho, de 13 anos, já está imunizado com as duas doses, mas Henrique, de 7, ainda não. 

“Eu pretendo vacinar ele assim que for possível. Ele mesmo está bem ansioso, sempre pergunta se o governo já comprou a vacina dele. Não tenho medo da vacina”, afirma Elaine. Nenhum dos seus dois filhos foram infectados com o coronavírus e ela afirma que o protocolo sanitário que a escola onde os  meninos estudam fez com que eles passassem a ter ainda mais cuidado com as medidas de proteção: “O que eles aprenderam lá, trouxeram para a vida”

Elaine conta que o filho Henrique, de 7 anos, trouxe os protocolos sanitários da escola para casa

(Foto: Arquivo Pessoal)


No ano passado, Elaine teve sintomas gripais bem fortes, que a levaram a suspeitar da infecção covid-19. “Acabou que foi só uma gripe, mas eu fiquei desesperada e com muito medo de estar contaminada”, relembra. Com a diminuição dos casos e mortes pela doença do coronavírus no país em 2021, a família de Elaine, assim como muitos outras, passaram a flexibilizar as medidas restritivas. 

Para ela, a vacinação do filho menor fica mais necessária por conta disso. “Vamos viajar para São Paulo nessa semana, mas eu tenho muito medo. Mesmo com os sintomas sendo mais leves por causa da vacina, acho que cada pessoa é diferente e não quero pagar para ver”, afirma. 

No estado, três crianças com a idade de Henrique, 7 anos, morreram por covid-19, segundo a Arpen, que reúne os dados a partir das informações dos cartórios brasileiros. O levantamento mostra que as crianças na faixa de 5 a 11 anos mais afetadas foram as de 9 anos, totalizando nove mortes. Em seguida, vem as de 5 anos, com sete registros de falecimento. 

Na cidade de Queimadas, nordeste baiano, as escolas da rede pública chegaram a suspender as aulas quando a menina Ana Vitória Oliveira, de apenas 6 anos, morreu de covid-19. O caso aconteceu em setembro passado e teve muita repercussão na cidade. Segundo o boletim epidemiológico da Sesab, os leitos de UTI na região de Queimadas estão 100% ocupados.

Medo da contaminação

Outra mãe que também ficou com muito medo de estar infectada com o coronavírus e repassar o vírus para o filho não vacinado foi Micheline Arruda. Depois da virada do ano, ela e o filho mais velho começaram a ter os primeiros sintomas de gripe, tosse, febre, dor de garganta e sensação de fraqueza. Na dúvida, optaram por fazer o teste de covid-19, mas era o vírus influenza e não o Sars-CoV-2. 

Mesmo com o resultado negativo para o coronavírus, mãe e filho fizeram o uso de máscara em casa e se mantiveram o máximo possível distanciados de Arthur, de 8 anos. “Se a gripe foi ruim desse jeito, imagina a covid-19. Agora também tem os dois juntos [flurona, o caso onde uma mesma pessoa contrai covid e gripe ao mesmo tempo], é muito preocupante”, diz Micheline, que pretende vacinar Arthur o mais rápido possível: “Aqui em casa todo mundo já se vacinou, só falta ele”. 

Micheline e a família no aniversário de 8 anos do filho mais novo 

(Foto: Arquivo Pessoal)

A preocupação dos pais e mães não fica restrita à capital baiana. Em Santana, na região oeste do estado, Milene Álvares não vê a hora de imunizar logo seu filho Gustavo, de 7 anos. “A gente sabe que tem muita gente que não quer tomar vacina, mas eu vou tomar minha terceira dose e, assim que puder, vou levar ele no posto para se vacinar também”, diz. 

Milene, o marido e o filho Gustavo de 7 anos

(Foto: Arquivo Pessoal)

O medo de que Gustavo se contaminasse aumentou quando as aulas presenciais recomeçaram. No início, Milene conta que ficou receosa, mas como o filho não demonstrava interesse nas aulas online, acabou optando por deixar ele frequentar a escola novamente. 

Derlaine Cruz é mãe de Israelle, de 10 anos. Apesar de tanto ela quanto a filha nunca terem sido infectadas pelo coronavírus, ela conta que tem receio da doença: “Tenho muito medo que ela contraia na escola ou em qualquer lugar, quase não saímos de casa e estou preocupada com o retorno das aulas presenciais”. 

Derlaine e a filha Israelle, de 10 anos. O filho mais novo completou um mês

(Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar do medo que os pais possuem dos filhos se infectarem nas escolas durante o contato com colegas e professores, o professor de Infectologia da Faculdade de Medicina da UFBA, Carlos Brites, afirma que em casa o risco pode ser maior. 

“Os dados que temos disponíveis mostram que a maior parte das exposições ocorrem na comunidade. Porque em locais como a escola existem protocolos de segurança, então as chances de contaminação são menores do que em casa, onde as pessoas relaxam e ficam sem máscara”, explica. 

Vacina é segura e protege

O infectologista Carlos Brites lembra que complicações por causa da vacina são muito menos comuns e que não devem ser usadas como justificativa para a não imunização das crianças. “A infecção por covid-19 em um paciente não vacinado, adulto ou criança, pode levar a casos graves e morte. Isso é um fato absolutamente inequívoco e o mundo inteiro provou isso”, completa o médico.

O professor de infectologia ressalta que, em geral, crianças costumam apresentar casos mais leves da doença se comparado aos adultos. Isso acontece porque os mais velhos possuem mais chance de terem doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, que são fatores de risco para o coronavírus. No entanto, isso não significa que o quadro delas não possa se agravar.

No caso de pais de crianças sintomáticas, que estão em dúvida se os filhos estão com gripe ou covid-19, Carlos Brites destaca a importância da testagem: “O teste é sempre necessário no momento em que a pessoa apresente os sintomas. Porque além de diagnosticar corretamente o que está acontecendo, permite que a pessoa instale as medidas de isolamento e proteja os outros”. 

O pediatra e especialista em alergia e imunologia Celso Sant´anna, leva em conta a ineficiência do governo brasileiro em testar a população para afirmar que os dados de mortes de crianças por covid-19 é ainda maior que o divulgado. “Com certeza há subnotificação em todas as faixas etárias, inclusive em crianças, no mundo inteiro. Como é uma doença que tem uma alta taxa de transmissibilidade, é impossível conseguir uma dimensão 100% exata”, acrescenta.

No levantamento divulgado pela Arpen, foram registradas 56 mortes de crianças entre cinco e 11 anos por septicemia (resposta exagerada a uma infecção no corpo), 56 por pneumonia e 37 por insuficiência respiratória. O que mostra que as mortes por covid-19 podem ser maiores, apesar de não registradas.

Ybere, a esposa e o filho Bruno, de três anos

(Foto: Arquivo Pessoal)

Letalidade é maior em crianças menores

A vacina da Pfizer deve ser aplicada em crianças de 5 a 11 anos. Entretanto, dados da Sesab apontam que a letalidade da covid-19 é maior nas crianças mais novas. Enquanto a taxa é de 0.08% em crianças entre 5 e 9 anos que foram infectadas, o número chega a 0,13% na faixa etária de 1 a 4 anos. Para os bebês que ainda não completaram 1 ano de vida, a taxa de letalidade sobe para 0,46%. 

O pequeno Bruno, de 3 anos, contraiu o vírus duas vezes no ano passado, deixando a família muito preocupada. Ybere Camargo, o pai, conta que a primeira vez que o pequeno testou positivo foi em janeiro do ano passado. Dessa vez, tanto o filho quanto os pais foram infectados. Bruno teve um dia de febre e se recuperou sem maiores problemas. 

Na segunda vez, em julho, os sintomas foram mais fortes e duraram uma semana. O pai conta que o filho teve diarreia, chegando a evacuar sangue, além de febre com temperaturas mais altas do que no primeiro contágio. Ybere não testou positivo para a covid dessa vez e ficou isolado em casa, sem contato com o filho. 

“Ele queria me ver e não podia, né? Mas depois de 7 dias ele já estava melhor e sem complicações”, conta o pai. Apesar do filho ainda não poder tomar a vacina, Ybere espera que mais testes sejam feitos para que Bruno possa ser imunizado também.

*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo

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