Bahia tem proporção maior de mortes do que de nascimentos após a pandemia

salvador
13.04.2021, 05:00:00
(Paula Froes/CORREIO)

Bahia tem proporção maior de mortes do que de nascimentos após a pandemia

Segundo levantamento do CORREIO, no mês passado, a cada 100 nascidos, estado registrou outras 60 pessoas que morreram

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Março de 2021 foi o mês, até o momento, com o maior registro de óbitos de toda a pandemia. E foi também o que teve mais mortes – de causas diversas -  na Bahia desde 2003. Segundo levantamento feito pelo CORREIO com dados da Associação dos Registradores Civis das Pessoas Naturais do Estado da Bahia (Arpen-BA), enquanto em março deste ano para cada 100 nascimentos ocorreram 60 mortes, em 2019, a proporção para o mesmo período foi de 100 nascimentos para 40 óbitos. As mortes por covid-19 registradas em março deste ano, vale lembrar, não ocorreram todas dentro do mês e sim em datas diversas, os registros é que foram feitos no mês passado.

Antes da pandemia, a proporção – que funciona dividindo o número de óbitos pelo de nascimentos – entre mortos e nascidos raramente ultrapassava 0,4 (a cada 100 nascimentos, 40 pessoas morriam). Já em 2021, as médias ficaram maiores do que nos anos anteriores e registram um recorde na série histórica, que se iniciou em 2003: não houve um número abaixo de 0,55 (a cada 100 nascimentos, 55 pessoas morrem – veja no infográfico, abaixo). Se o número ultrapassar 1, significa que as mortes ultrapassaram os nascimentos, o que ainda não aconteceu na Bahia, mas já foi registrado no Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, de acordo com reportagem do Estadão.

Ainda assim, o crescimento vegetativo da população baiana está reduzindo, como pontua a economista Lis Helena Borges, especialista em Produção de Informações Econômicas, Sociais e Geoambientais da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI) da Bahia. Essa estatística é calculada por meio da diferença entre o número de nascimentos pelo de óbitos, ou seja, subtraindo os dois números. Em março de 2019, essa diferença era de 10.892. Essa mesma subtração, em março de 2021, está em 6.078. Isto é, houve uma redução de 44% no crescimento vegetativo da Bahia nesses últimos dois anos. 

Proporção de nascimentos x mortes na BA:

Fonte: Arpen-BA 

(Arte: Axel Hegouet/CORREIO)

“O que temos de concreto é que o crescimento vegetativo, que é o número de nascimentos menos o número de mortes, está diminuindo. Está tendo uma tendência de ter um menor número de nascimentos, mas não sabemos por quanto tempo isso vai perdurar”, pontua Lis. Ela acredita que, com o fim da pandemia, essa proporção volte à normalidade, porém, não deixa de impactar alguns indicadores sociais.

Um dos que ela cita é a expectativa de vida, com a redução do número de nascimentos. “Temos uma redução da reposição da população e isso vai implicar em um maior envelhecimento. Visualizando a pirâmide etária, que no topo temos os mais idosos e na base os nascimentos, a tendência é que a base vá diminuir e a população vai envelhecendo, o que gera uma maior demanda da assistência médica para idosos e previdência social, por exemplo”, explica Lis Helena Borges.

Impactos na Bahia

Essa tendência já vinha sendo observada desde a década de 70, quando começou a existir uma mudança do padrão demográfico brasileiro. “O Brasil e a Bahia já vêm apresentando essa redução no número de nascimentos, já vinha sendo observado que a quantidade de filhos por mulher vinha reduzindo. Pela projeção do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], essa expectativa era de 1,79 em 2012 e passou para 1,68 em 2020, por conta da mulher se inserir mais no mercado de trabalho, ter um aumento da escolaridade e acabar deixando para ter filho mais tarde e planejar melhor esses filhos”, relembra.  

A média de filhos por mulher, para que a população siga com o mesmo número de pessoas, deve ser de 2,1, segundo a economista. Em relação ao número de óbitos, isso pode refletir na redução da expectativa de vida dos baianos.

“Agora com a pandemia, temos tido um aumento significativo do número de mortes, tanto pela própria covid, quanto por pessoas que deixaram de fazer acompanhamento médico. Além disso, a covid acaba atingindo mais os idosos e isso acaba reduzindo a expectativa, mas também estamos observando mais jovens acometidos pela doença”, completa Lis.  

A especialista não pode dizer quanto ao certo essa expectativa de vida reduziria, porque teria de saber quantas pessoas morreram de cada faixa etária para fazer a projeção. A Arpen-BA não enviou essas informações à reportagem, mas pontuou que os dados são dos registros de óbitos e nascimentos e não do dia exato que a pessoa nasceu ou morreu.  

Esse aumento da mortalidade impacta ainda na renda dos baianos. “Temos um número de família que vivem da renda de idosos, de famílias que são sustentadas a partir da aposentadoria deles e, com esse falecimento, esses idosos são mais acometidos e é possível que essas famílias percam essa renda de subsistência”, esclarece a economista.  

Para saber se essa tendência irá continuar ou não, ela diz que precisa avaliar como será a tendência nos próximos meses. Esse número pode se reverter se for considerada a influência da migração, que pode “terminar equalizando” essa diminuição do crescimento vegetativo.  

Uma consequência a longo prazo, segundo o professor doutor em Geografia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Clímaco Dias, seria o crescimento vegetativo ficar negativo não só pelo aumento das mortes em relação aos nascimentos, mas pelo medo dos casais terem filhos.  

“A pandemia traz um efeito devastador para o presente com esse aumento das mortes em relação aos nascimentos. Mas outra questão que considero muito grave para o futuro é que esse medo pandêmico possa contaminar os espíritos dos casais não querem ter filhos, o que terá uma redução ainda maior da taxa de natalidade por conta desse cenário ruim, de insegurança coletiva, se instabilidade na área da saúde, economia, educação e com desemprego”, analisa Dias.  

A tendência é de uma redução da expectativa de vida dos baianos e com um envelhecimento mais rápido da população. “A tendência era viver mais, mas, com essa tragédia pandêmica, vamos ter uma população mais velha, porque não nasce tanta gente, com uma tendência de envelhecimento mais rápido do que vinha acontecendo”, acrescenta o professor. 

Mais mortes registradas

Outro dado que chama a atenção é que, desde 2003, a Bahia só tinha tido mais de 8 mil mortes em um mesmo mês duas vezes: em julho de 2017, quando 8.058 pessoas morreram, e em julho de 2019, quando 8273 foram a óbito. Com a pandemia da covid-19, o estado já superou esse quantitativo cinco vezes: em 2020, em junho (8.894), julho (9.460), agosto (8.803), e, em 2021, em janeiro (8.333) e março (9.493).  

 W.V.** perdeu dois parentes na pandemia por conta da covid-19. “Foi tudo muito rápido mesmo, quando os familiares souberam, eles já estavam internados em UTI. Meu tio por parte de mãe vinha tomando o kit covid com hidroxicloroquina e Ivermectina, ficou no Hospital Aliança, e, em questão de uma semana, morreu. É triste a perda pois é um número limitado de pessoas que foram ao velório. O que estamos vivendo ultimamente é doloroso, paranóico”, conta o entrevistado, que preferiu não se identificar.  

Uma outra tia, por parte de pai, também faleceu. “Ela tinha diabetes, e, por ter sido da área de saúde, sabia dos cuidados e necessidade do isolamento social, ela seguiu tudo certinho, em casa, cuidados ao extremo, mas, houve um dia rm que teve uma crise de labirintite e, em outubro, precisou de uma consulta médica, no Hospital da Bahia. Alguns dias após essa consulta médica, ela apresentou os sintomas da covid e testou positivo. A situação se agravou, ela conseguiu retornar ao Hospital da Bahia, mas, não resistiu”, narra.  

No caso da funcionária pública Rosemary Costa, 48, ela perdeu o irmão, Manuel, para a covid-19 no dia 14 de fevereiro. Ele era hipertenso, ex-fumante, tinha 58 anos e morava no Pará. Após pegar a infecção pela segunda vez no início do ano, ele teve o pulmão 100% comprometido e não resistiu. Outras sete pessoas do ciclo de amigos e conhecidos de Rose também se foram, desde colegas de trabalho a amizades de longa data.  

“Foi tudo muito rápido, em um intervalo de 15 dias. Ele começou a ter os sintomas no dia 26, 27, e se internou no sábado, 29. Ele não queria ir [para o hospital], tinha muito negacionismo, achava que era uma gripezinha e que ia ficar tudo bem. Infelizmente, também era adepto ao ‘kit covid’”, conta a irmã. Manuel só foi ao hospital porque a esposa, que também se infectou, apresentou piora. Mal sabia ele que seu quadro é que iria evoluir da pior forma.  

A luta da irmã foi de conseguir transferí-lo para a Bahia, mas, não deu tempo e a família da esposa não achava necessário. Ele já chegou à unidade hospitalar com o pulmão 50% comprometido. Poucos dias depois, a situação se agravou. “Consegui entrar na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e ele já estava de fralda, com uma situação muito grave, a saturação caindo muito, em 70%, e ele não conseguia se mexer, porque qualquer movimento cansava”, descreve Rosemary. Esse foi o último contato que eles tiveram.  

Nem ela nem os irmãos puderam se despedir, porque não puderam trazer o corpo para a Bahia. “Era uma intenção de nossa família, a gente tem um mausoléu no interior do estado e minha mãe sempre dizia que queria estar para sempre com seus filhos”, relembra. O sentimento agora é tanto de impotência quanto de revolta. “A gente não tem uma exata dimensão do que é a pandemia, de que estamos no meio de algo desconhecido, que a gente não tem cura e nossa única arma é a vacina e o distanciamento social. E revolta por conta da ignorância coletiva que estamos vivenciando, de acreditar em fake news, em ivermectina, cloroquina, em coisas que a ciência já disse que não funciona”, conclui Costa. No hospital, na mochila do irmão, ela encontrou caixas de ivermectina e cloroquina, que ele tomava regularmente. 

**O nome foi omitido a pedido da fonte 

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro 

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