Baianos esperam até 4 meses para receber carro novo; veja modelos que estão em falta

bahia
30.04.2021, 05:30:00
Concessionárias encontram problemas de falta de carros no estoque. Queda na produção é um dos motivos (Nara Gentil/ CORREIO)

Baianos esperam até 4 meses para receber carro novo; veja modelos que estão em falta

Com menos carros no estoque, concessionárias estão vendendo e faturando menos

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

O empresário Alan Kauã está há quatro meses esperando um carro novo, o Toyota SW4. Ele fez o pedido em dezembro de 2020 e a previsão é que o veículo só chegue agora em maio. “Sigo na fila de espera. Eu não cancelei o pedido, pois só quero esse modelo. Nem olhei os prazos de entrega dos outros carros”, conta. Mas Alan não precisaria olhar. A falta de veículos na Bahia está cada vez mais generalizada devido principalmente às recentes suspensões nas linhas de produção e escassez de peças.  

“Todas as montadoras de um modo geral estão sem carros. O problema pegou todo mundo de surpresa com falta de insumos. Algumas empresas dependem totalmente de peças do Japão e China. Os navios chegam e ficam retidos”, explica Ismael Oliveira, diretor comercial do Grupo Honda Imperial. Além dessa questão logística, o preço de alguns materiais subiu durante a pandemia, como o aço.  

O resultado disso é a interrupção da produção por parte das montadoras, algo que vem acontecendo no mundo doto, inclusive no Brasil. “A fábrica da Honda parou por duas vezes, em fevereiro e março, por conta da pandemia. A Volkswagen e Nissan também pararam duas vezes. Então, tá todo mundo com falta de carro”, conta Ismael. Ele tem na sua empresa um estoque de apenas 47 carros, sendo que 29 estão comercializados. “Para um grupo que vende cerca de 270 carros por mês, é pouco ter esse estoque”, diz.  

Mesmo com essa realidade, o diretor comercial do grupo explica que alguns carros conseguem ser entregues num prazo de 30 a 45 dias, como o HR-V. “Outros modelos da Honda, como o Civic e o WR-V estão com dificuldade”, diz. Para quem tá com pressa em sair com o carro novo, o jeito é escolher algo entre as opções limitadas. Essa foi a alternativa da publicitária Laira Carvalho, que comprou com o marido um carro na última quinzena de dezembro de 2020 

“Fui na Eurovia Nissan em busca do March, mas ele tinha saído de linha. Aí me deram mais duas opções, que não tinham em estoque. Depois fui na Nova Bahia Renault. Escolhemos o modelo Kwid Outsider. Eu queria na cor preto ou prata, mas não tinha em estoque. Como precisava do carro ‘pra ontem’, acabei optando pela cor branca para não ter que esperar”, disse.

No dia da compra, a vendedora falou para o marido dela que o carro era o único do estoque e que depois iria demorar pra chegar. “Tivemos que acelerar o processo”, conta. 

Já o empresário Breno Machado tentou comprar, em janeiro de 2021, uma Hilux na Toyota. Primeiro eles deram três meses de espera, que foram prorrogados por mais três sem a garantia de venda. “Procurei então o modelo SW4, mas também tinha lista de espera. Então desisti de esperar e optei por comprar um seminovo do mesmo modelo, só que ano 2020”, diz. 

Estoque 
Gerente de vendas da Eurovia Nissan, Tatiana Barros explicou que sua concessionária tem estoque, mas que há de fato o problema da falta de carros no mercado. “Como estamos com lançamento, a gente tem carro. Mas tá faltando carro, pois as condições estão atrativas. Os bancos estão muito agressivos na taxa de juros e tem muito cliente que está aproveitando a pandemia pra trocar o carro. Não temos muitos veículos no estoque, mas temos o suficiente para entregar um bom serviço”, explica. 

Já Edson Moreno, gerente geral de vendas da Guebor Toyota, disse que não está enfrentando grandes problemas. “O estoque está se renovando. Por ser Toyota, tivemos o lançamento no meio de março do Corolla Cross, que gerou uma pequena lista de espera. Demorou um pouquinho, mas foi sanado”, disse. Em sua empresa, o Toyota Yaris, Corolla Cross, Hilux e SW4 são os mais procurados e que costumam zerar o estoque do mês. “Mas estamos repondo mês a mês o estoque sem problema”, ameniza. 

Para o diretor comercial do Grupo Honda Imperial, não há uma previsão de normalização desse cenário. “As montadoras estão muito retraídas. Nós participamos de uma convenção nacional da Honda e já foi dito que a produção vai cair vertiginosamente e que nós, concessionárias, procurássemos nos readequar e vender menos. Então, eu não estou vendo uma previsão de melhora. Pelo contrário, estou muito assustado, pois é a primeira vez que passo por isso. A gente vive uma crise muito grave de saúde e uma crise política e institucional”, lamenta. 

Dados da Associação Brasileira Das Empresas Importadoras E Fabricantes De Veículos Automotores (Abeifa) mostram que o licenciamento de automóveis no país no primeiro trimestre de 2021 teve uma queda de 6,5% se comparado com 2020. Das empresas que fazem parte da Abeifa, as que mais reduziram a quantidade de licenciamento foram Jaguar (-81,4%), Lamborghini (-40%) e Kia Motors (-39,9%).  

Além disso, o Anuário da Indústria Automobilística Brasileira, produzido pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), mostra que o ano de 2020 teve o pior desempenho na produção de automóveis desde 2003. Foram apenas 2,014 milhões de veículos montados em 2020, uma redução de 32% frente ao ano de 2019, quando 2,944 milhões de carros foram produzidos no país.  

Faturamento 
O problema da falta de carros no estoque das revendedoras também está prejudicando o faturamento das empresas. De acordo com Raimundo Valeriano, presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), são cerca de 30% de redução no lucro. “É algo consequente. Se não tem produto, você acaba vendendo menos mesmo”, diz.  

Valeriano também lembrou que esse é um problema vivido no mundo todo e que é causado principalmente pela produção das montadoras. “Por faltar componentes, eles estão limitando a produção. Eles não dizem quais são as peças que estão em falta, só afirmam que vai reduzir a entrega de veículos. Mas a gente fica sabendo que um dos principais problemas são componentes eletrônicos”, aponta.   

Mais otimista, o presidente da Fenabrave acredita que esse cenário vai melhorar, associado com uma possível retomada econômica em 2021. “A perspectiva é melhorar já no segundo semestre, a partir de julho. Acreditamos que a economia vai dar essa guinada”, conclui.  

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas