Banho de rio e frutas no quintal: êxodo para a Chapada Diamantina cresce na pandemia

bahia
05.07.2021, 05:49:00
Atualizado: 07.07.2021, 10:20:12
Vista para a Serra do Sincorá, que cerca as terras na região de Mucugê (Foto: André Fofano/Divulgação)

Banho de rio e frutas no quintal: êxodo para a Chapada Diamantina cresce na pandemia

Corretora chega a receber 20 ligações por dia de interessados por terras no Capão

A primeira casa de Fernanda e Frederico no Capão, na Chapada Diamantina, tinha pés de limão, graviola e pinha no quintal, vista para os morrões, um córrego no fundo e nenhum vizinho. “O que vocês aprontaram em Londres para virem morar tão escondidos?”, brincavam os amigos quando conheciam a residência do casal que, meses antes, vivia na capital britânica, e agora estava a metros de distância da Cachoeira da Purificação.

Os dois chegaram ao distrito da cidade Palmeiras no dia 23 de dezembro de 2020, em fase de pleno êxodo urbano para cidades da Chapada Diamantina. As localidades preferidas de quem chega são o Capão e Mucugê, segundo corretores. O apelo de uma vida mais tranquila, cercada por natureza, é a principal isca para novos moradores. Os municípios não têm estimativa de quanto a população cresceu desde a pandemia. São os moradores e corretores da região que dimensionam o fenômeno de mudança para a Chapada. 

Fernanda, a soteropolitana que trocou Londres pelo Capão com o marido, costuma dizer que está “desacelerada”. Há oito meses, desconhece trânsito, está a no máximo 15 minutos dos compromissos e não se importa se tem ou não sinal no celular. Já não precisa ter pressa. Ela e o marido desembarcaram no distrito no dia 23 de dezembro de 2020.

Fernanda e Frederico desembarcaram de Londres direto para o Capão (Foto: Acervo Pessoal)

Como ceia do primeiro Natal na nova casa, tiveram apenas arroz com passas. Mas, estavam felizes - tinham terminado de limpar os cômodos e podiam vislumbrar uma noite completamente estrelada. 

“Quando acordei, mentalizei que queria ter aquilo”, lembra. Hoje, Fernanda, que era babá em Londres, trabalha como assessora de comunicação, e o marido, antes chefe de cozinha, como corretor de imóveis. Os dois planejaram a mudança direto de Londres depois de decidirem que não queriam mais viver confinados em apartamentos, carros e trabalhos. “Minha chefe me dizia: Desacelerar? Você é jovem?". 

Mas, nem Fernanda, nem Frederico queriam esperar para frear o ritmo da vida e voaram para a Bahia. Não dormiram sequer um dia em Salvador, de tanta vontade de chegar ao destino, para onde rumaram com 15 malas no carro, de madrugada.

“Ganho bem menos, mas nada paga o que temos”, diz Fernanda, grávida de um bebê que, no que depender dos pais, fincará raízes no Capão, para onde ela só tinha ido duas vezes antes de morar.

A família comprou um lote para construir uma casa própria e se mudou da primeira residência para uma mais próxima da obra. 

A corretora Betânia Rodrigues, 39, nativa do Capão e uma das mais experientes da região, recebe até 20 ligações por dia de pessoas interessadas em comprar lotes ou casas no distrito, onde até 2010 moravam 2,3 mil pessoas, calcula o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em agosto de 2020, Betânia notou o início do boom imobiliário. “Às vezes nem eu dou conta de tanta procura”, diz ela, que aproveita a fase de valorização para expandir dos negócios. 

Em breve, ela lançará uma imobiliária em Mucugê. Demanda, ela sabe, não falta, embora o Capão ainda seja o “preferido”, segundo ela, “pela qualidade de vida, o apelo do natural”. Perto da Vila, o metro quadrado Capão custa R$ 150 e casas prontas são vendidas até na cifra do milhão. Mais distante, o preço cai para até 50 reais.

“Conheço umas cinco pessoas que deixaram de vender porque viram que a era vantagem esperar, porque estava valorizando o imóvel. A procura cresceu muito porque as pessoas quiserem deixar de viver trancadas”, opina Betânia, que teve o ator baiano Luís Miranda como cliente no último mês. 

Lotes se encerraram em oito meses

Em oito meses, as 14 unidades de um village lançado no centro de Mucugê foram compradas. O preço chegava a R$ 389 mil, em média o preço de um apartamento de dois a três quartos num bairro de classe média de Salvador, como a Pituba.

“Mucugê, fora os atrativos naturais, tem uma vida supertranquila, restaurantes, cafés, casinhas aconchegantes”, descreve Péricles Pereira de Jesus, 40, corretor com 20 anos de experiência que nunca viu uma procura tão alta por imóveis ou lotes na cidade, com uma população estimada em 8,8 mil habitantes pelo IBGE.

Os principais compradores são de Salvador, Vitória da Conquista e Feira de Santana, com dois interesses: passar a aposentadoria ali ou morar num lugar mais sossegado, mas ainda com possibilidade de negócios. “Vejo muitos jovens vindo morar em Mucugê também para abrir delicatessens, café”, perfila o corretor. 

“Não me arrependendo nem um dia e não penso nem um momento em voltar”, conta a empresária Fabiana Honorato, 37, que deixou Salvador, onde tinha duas lojas em shoppings da cidade, para viver em Mucugê com o marido, no ano passado.

Ela não conhecia Mucugê e aceitou a sugestão do marido de que se mudassem para lá. “Incomodava as pessoas aceleradas, que não respeitam mais as individualidades, a falta de tempo...”, elenca Fabiana, sobre os motivos da mudança.

Depois de deixarem a metrópole, há o privilégio de parar e ir a pé até os compromissos, sem deixar de ter acesso a mercadorias de fora. Fabiana, por exemplo, não se vê mais dependente do celular, apenas para comprar “o que não tem em Mucugê e chega rápido”.

Quando querem se isolar ainda mais, ela e o marido podem acampar por dois dias na mata, ainda mais isolados. “Temos planos de comprar um lote e construir um sítio na área rural a 20 minutos de Mucuge. Mais emerso e isolado ainda”, comenta.

"Êxodo precisa ser planejado", avalia pesquisadora

O êxodo urbano para a Chapada Diamantina coloca em destaque uma questão: como será o planejamento para que as cidades e distritos não sejam completamente modificados ou pressionados por um novo estilo de vida? Para Mônica de Moura Pires, professora e coordenadora do mestrado em Economia Regional e Políticas Públicas da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), os governos municipais precisam se perguntar isso.

“As áreas sensíveis precisam ser identificadas e as prefeituras precisam se iterar disso. Impacto sempre vai haver, então é preciso tentar minimizar”, opina.

Duas dessas “áreas sensíveis” citadas pela pesquisadora são a preservação do ambiente nativo - ambiental e social - e o aumento do preço do solo. “Se não há um planejamento, há pressão muito grande sobre o preço do solo urbano e você acaba expulsando pessoas nativa para áreas mais inóspitas, com menos condições básicas, tudo isso”, explica.

Até porque a chegada de novos moradores traz outras pressões sobre as infraestruturas locais, como de saúde e educação, que devem ser debatidas. Essa pressão, claro, varia de local para local, pois a própria Chapada Diamantina é um território que comporta 24 municípios.

A mudança para interiores como os da Chapada, no entanto, incentivada pelo apelo de uma vida mais ecológica e tranquila, não é necessariamente nova, nem exclusiva do Brasil, afirma Mônica. Em 2016, ela viveu no Norte da Espanha e conheceu pessoas que tinham saído da cidade para o interior.

Casal de advogados se mudou para Chapada Diamantina em busca de vida mais tranquila (Foto: Acervo Pessoal)

Justamente nessa época, o casal Ana Victória e Yuri se formou em Direito, em Salvador. Os dois pensavam em viver no interior, mas não tiravam os planos do papel. Num passeio de férias à Chapada Diamantina, o casal foi incentivado por tios que viviam na cidade de Seabra a se mudarem.

“Nisso, resolvemos abrir um escritório em Seabra. Queríamos vir para cá uma vez por mês, mas quando chegamos aqui nos conectamos, decidimos ficar de vez”, lembra Ana Victória, 27 anos, que atende, com o marido, desde 2018, pessoas com demandas previdenciárias no escritório montado.  

Ela diz que os dois adoravam a vida urbana, mas como não preferir a que têm hoje? “Acordo feliz porque meu trabalho é significativo para a comunidade, atendemos lavradores, ouvimos suas histórias. Venho almoçar em minha casa, estamos conectados às pessoas”, elenca Ana. Em Seabra, há até um ditado que pode explicar o sentimento do casal. Segundo o dito popular, “quem bebe a água do Rio Cochó”, que corta a cidade, “não vai mais embora”.  

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