Beisebol, traumas, família: irmão e filho mudaram vida de Guerra

e.c. bahia
11.09.2019, 05:00:00
Guerra exibe tatuagem com o nome do irmão, que morreu em 2008 (Marina Silva/CORREIO)

Beisebol, traumas, família: irmão e filho mudaram vida de Guerra

Venezuelano do Bahia abriu as portas de sua casa em Lauro de Freitas para o CORREIO; conheça a história

Desde pequeno, Alejandro Guerra se acostumou a quebrar barreiras. Criado na região de Los Magallanes, uma das mais violentas de Caracas, capital da Venezuela, ele encontrou no futebol a saída para ajudar a família. E foi além. Primeiro e único venezuelano campeão da Copa Libertadores, em 2016, quando foi eleito o craque da competição pelo Atlético Nacional, da Colômbia, o meia de 34 anos também já está marcado na história do Bahia por ser o primeiro jogador do país vizinho a defender e balançar a rede com a camisa tricolor.

Mas quem vê a serenidade e a calma no olhar de Guerra, talvez não imagine que a força do “Lobo” foi forjada entre perdas e dramas familiares.

Um dos quatro filhos de Rosa e Armando, por pouco Alejandro não seguiu o caminho com outra bola, menor e mais popular na Venezuela: a de beisebol. Quando garoto, era com o esporte que usa um taco para rebater a bola que ele sonhava.

“No Natal o que eu pedia de presente ao Papai Noel era luva ou bat, que é como é chamado o taco de beisebol. Não pedia de presente uma chuteira, ou bola de futebol”, conta Guerra.

O futebol acabou levando vantagem sobre o beisebol por influência do irmão mais velho, Armando, e da mãe, que era delegada dos times do bairro e ajudava a organizar os campeonatos. “Eu sempre o acompanhei para os treinamentos, torneios, junto com a minha mãe, e aí começou o amor pelo futebol. O meu irmão era muito melhor do que eu. Nós fomos crescendo e com o tempo a gente foi vendo que o futebol era uma maneira de sobreviver na Venezuela, de ajudar a família”, explica. 
 
Os chutes no campo de terra do Colégio San José Calasanz chamaram a atenção de Nelson Carrero. Ex-jogador da seleção venezuelana - com participações na Olimpíada de 1980, em Moscou, e nas Copas América de 1983 e 1987 -, Carrero enxergou o talento e levou os irmãos Guerra para o Caracas, um dos times mais tradicionais da Venezuela. Ali, seria questão de tempo para que o futebol de Alejandro de destacasse. 

Principal exemplo para Guerra, Armando, no entanto, não alcançou o sonho. Considerado o melhor da família, ele sofreu uma lesão grave no joelho quando defendia o sub-20 do Caracas e sequer chegou a se profissionalizar. Coube então ao irmão mais novo assumir o protagonismo. E ele veio. O sucesso no sub-17 levou Alejandro direto ao profissional.

Em 2003, aos 17 anos, ele estreava na primeira divisão do país. No ano seguinte, teve a primeira experiência fora da Venezuela. Mas a passagem pelo Juventud Antoniana, que na ocasião disputava a segunda divisão da Argentina, foi mal sucedida. Ele teve poucas oportunidades e não viu a cor do salário. Seis meses depois, Guerra voltou ao Caracas para fazer história. 

Guerra carrega tatuagens em homenagem à família (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Tragédia com o irmão
A partir do retorno, o meia iniciou sua trajetória vitoriosa no futebol venezuelano. Foram seis títulos em seis anos e convocações para a seleção. Consolidado, ele ganhava tudo, mas acabou perdendo justamente para aquilo que usou o futebol como escape: a violência.

Principal entusiasta da sua carreira, Armando, o irmão, foi assassinado a tiros em Caracas em 2008, assim como já havia acontecido com o pai deles. Guerra havia viajado com a seleção para uma partida das eliminatórias da Copa do Mundo de 2010 quando recebeu a notícia.

“Eu já estava com 20, 21 anos, estava viajando com a seleção, no Peru. A comissão técnica me juntou com outros três jogadores que tinham mais experiência e deu a notícia. No momento eu só queria falar com a minha mãe, queria voltar, ficar com toda a família. Mas minha mãe me disse para não voltar, ficar lá e fazer o que meu irmão gostaria que eu fizesse. Eu pensei e decidi ficar, mas a minha vontade era voltar. Não digo que me arrependo. Foi a melhor decisão”, lembra o jogador.

A morte de Armando mudou a vida de Guerra. O amor pelo irmão foi eternizado na pele e, antes de cada jogo, o meia tem seu momento particular com o ente querido.

“Sempre o levo da melhor forma. Antes de cada jogo eu peço para que ele cuide de mim, me proteja. Foi difícil, mas eu sei que ele está cuidando de mim onde estou e penso nele da melhor forma. (...) Eu lembro dele como um cara inteligente, mas que não aproveitou essa inteligência. Ele dava aula para os companheiros, um cara muito inteligente, mas não aproveitou isso fora do campo”, conta, evitando dar detalhes do ocorrido.

Meia relembra drama com o filho (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Traumas e adeus à seleção
Nas redes sociais, Guerra sustenta um apelido que ganhou ainda na infância, o de “Lobo”, por causa dos muitos pelos que tinha no corpo. É também na internet que ele mostra para o mundo o amor pela família. E foi esse amor que fez o meia tomar uma decisão importante. 

Em 2017, Guerra estava no Equador para um jogo do Palmeiras pela Copa Libertadores quando viveu outro drama. O seu filho mais novo, Assael, na época com 3 anos, se afogou na piscina do condomínio onde a família morava em São Paulo.  

“Eu estava viajando com o Palmeiras e recebi uma ligação da minha esposa. Ela estava chorando desesperada. Era o dia do aniversário dela, ele queria pegar uma bola na piscina e caiu. Ela pedia para eu voltar, estava sozinha, não tinha familiares em São Paulo, mas eu não imaginava a gravidade. Quando voltei do Equador vi que ele estava internado, com aparelhos. Ficou 15 dias internado. Para a minha família foi algo difícil”, revela.

Após o episódio, o menino ficou bem. Guerra, no entanto, anunciou a aposentadoria da seleção venezuelana. Além de achar que não tinha mais idade para disputar outra Copa do Mundo (que seria a de 2022, pois a Venezuela já não tinha chance de classificar para a de 2018), ele queria passar mais tempo em casa. 

“Quando aconteceu a coisa com meu irmão eu estava na seleção. Quando aconteceu com o meu filho eu estava viajando. Foi um momento em que parei e decidi que iria dedicar esse tempo à minha família”, justifica.

Guerra também tatuou os nomes dos filhos no braço direito e fez uma homenagem para a mãe no ombro. Em Salvador ele vive com a esposa, Kris Espejo, e o pequeno Assael. O outro filho, Kleverson, de 15 anos, não se adaptou ao Brasil e mora com a avó em Medellín, na Colômbia.

Crise na Venezuela
O êxodo que tem sido comum a muitos venezuelanos nos últimos anos, em função da crise no país, é realidade também para os familiares do jogador. O meia conta que boa parte da família hoje vive em outros países, mas ainda têm parentes na Venezuela.

Guerra lamenta a situação. “A gente fica triste pelo que está acontecendo hoje e sempre acredita que as coisas vão melhorar para que um dia a gente possa voltar. Tenho cinco anos que não vou à Venezuela. Nós vamos mais para a Colômbia, Medellín, como eu joguei lá tem o carinho muito grande do povo”.

Mirando alto
Aos 34 anos, Guerra não é muito de projetar o futuro e prefere viver o presente. Conta que viu no Bahia o lugar ideal para recuperar o seu futebol, após uma temporada como reserva do Palmeiras, e sonha em conquistar títulos com a camisa tricolor. 

O técnico Roger Machado, com quem trabalhou no time paulista, foi responsável pela ponte. “No Palmeiras eu não estava feliz, precisava sair. Quando me falaram do Bahia, da insistência da comissão técnica, eu disse sim. Eu queria jogar e acho que aqui é o melhor lugar para voltar a fazer o que amo. Eu já estava esquecendo. Sete, oito meses sem jogar é difícil”.

Questionado até onde o Esquadrão pode chegar no Brasileiro, o venezuelano surpreende na resposta. “As pessoas falam muito que o Bahia pode se classificar à Libertadores. Se a gente está falando em jogar uma competição internacional, por que não disputar o campeonato? É um torneio longo. Por que não pensar mais além? Acho que essa é a ambição que nós temos, pensar assim e trabalhar. No campo são 11 contra 11, não se joga por nome. Quem trabalhar mais e fizer a coisa melhor vai ganhar. Eu penso assim. Temos equipe, estrutura, comissão técnica e estamos demonstrando que o elenco que nós temos é para brigar por títulos”. Palavras de um campeão da Libertadores.
 


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