Cadê a crise? Dispara a venda de imóveis na Bahia no segundo semestre de 2020

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05.04.2021, 07:00:00
Atualizado: 05.04.2021, 07:34:22
Seja na planta ou usado, cresce a procura por imóveis no estado (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Cadê a crise? Dispara a venda de imóveis na Bahia no segundo semestre de 2020

Cartórios registram recorde na quantidade de escrituras de compra e venda feitas; corretores afirmam que setor não sofreu durante a pandemia

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Durante a pandemia, as pessoas passaram a comprar mais imóveis na Bahia e o reflexo disso está nos números de escrituras feitas nos cartórios. No segundo semestre de 2020, foram 13.720 atos de escrituras de compra e venda de apartamentos, casas, edifícios, lotes ou terrenos, o que representa um crescimento de 13% em relação ao mesmo período do ano passado e de 71% em relação ao primeiro semestre do ano. Esse é o recorde na quantidade de escrituras de compra e venda feitas durante o segundo semestre desde 2006, quando o levantamento começou a ser realizado. 
    
Os dados são do Colégio Notorial do Brasil, que também observou esse mesmo aumento nas quatro maiores cidades da Bahia: Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Camaçari. Na capital baiana, 2.703 imóveis foram comprados em 2020, um aumento de mais de 100% em comparação com o primeiro semestre, quando apenas 1.336 compras de imóveis foram registradas. Os dados completos dessas cidades você confere no final do texto. 
    
Segundo os especialistas ouvidos pelo CORREIO, esse crescimento é devido a diversos fatores como melhores condições de financiamento, escolha de imóveis como forma de investimento financeiro e busca por uma melhor qualidade de vida das pessoas durante a pandemia. 

“Durante a pandemia, o imóvel se tornou o centro da vida das pessoas, pois com o isolamento social, ficamos mais em casa. Esses locais começaram a ser mais valorizados e as pessoas começaram a pesquisar oportunidades de mudar de residência. Nossa estimativa é que o crescimento de vendas foi de 14% em comparação com 2019. Mesmo na pandemia, o mercado surpreendeu positivamente. Começamos 2021 bem e a expectativa continua alta”, disse Claudio Cunha, presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi-BA). 

Quem está feliz da vida com a alta do setor é o corretor de imóveis Gustavo Reikdal, que antes vendia apenas uma casa por mês e, só no último trimestre de 2020, vendeu 45 imóveis. “Teve realmente um aumento gigantesco durante a pandemia. Eu achava até que o mercado seria altamente afetado, pois imaginava que as pessoas não iam querer investir em imóveis na incerteza do momento vivido, mas foi justamente o contrário. O mercado imobiliário foi o que não sofreu durante a pandemia”, comemorou.

Quem comprou uma casa na mão de Gustavo foi o empresário Paulo Filipe, que com apenas 25 anos já está indo para o seu segundo imóvel. O atual em que ele vive fica no Subúrbio de Salvador, que será alugado assim que o de Camaçari ficar pronto. “É um condomínio fechado, perto da praia, numa região que está se valorizando rápido. Além de melhorar na qualidade de vida, em bem estar, estou fazendo um investimento. Quando comprei a unidade foi por R$ 300 mil e hoje já está em R$ 320”, revelou o rapaz, que é dono de empresas distribuidoras de gás (@pe_gas_) e bebidas. 

Gustavo Reikdal (esquerda) foi o corretor responsável pela compra da casa própria de Paulo Filipe (Foto: arquivo pessoal)

Movimento
De acordo com Noel Silva, diretor do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-BA), há de fato um movimento de compra de imóveis na Linha Verde, o litoral Norte baiano, e não apenas para casas de veraneio. “As pessoas estão deixando apartamentos e procurando imóveis mais bem espaçosos ou bem localizados em relação a qualidade de vida. Morar na frente do mar, por exemplo, e perto da natureza é um diferencial. No litoral Norte, o que antes era veraneio virou moradia principal”, disse.

Noel também apresentou as boas condições de financiamento bancário em 2020 como um estímulo para a venda de imóveis. “A taxa Selic estava muito baixa, apenas 2% e os juros dos bancos ficaram em patamares bem atrativos. Isso trouxe para dentro do mercado muita gente não conseguia antes pagar as taxas. É interessante que estamos no meio de uma pandemia, mas as pessoas que não perderam emprego e não tiveram dificuldade econômica foram as que fizeram isso”, explicou. 

Esse é o caso do coordenador de logística Paulo Reis, 35 anos, que mora de aluguel, mas comprou na planta o apartamento novo no Cabula em maio de 2020. A previsão de mudança é ainda em 2021. “Eu sempre tive vontade de ter a casa própria e veio essa oportunidade. Confesso que no momento fiquei receoso, pois não sabia como ia ser o cenário do Brasil depois, mas se encaixou no meu orçamento. Foi um período que as construtoras e o banco estavam dando incentivos muito bons, não perdi a oportunidade”, lembrou. 

Foi durante a pandemia que Paulo fez toda a negociação e compra da casa própria (Foto: arquivo pessoal)

Também diretor do Creci-BA, José Alberto de Vasconcellos explicou que a alta do setor também é devido ao desejo das pessoas em investirem dinheiro em imóveis, algo que ele considera como um bom negócio. “Dificilmente se perde dinheiro quando compra um imóvel, pois se pode alugar, o que permite uma renda extra, ou esperar o local valorizar e vender, no futuro, por um preço maior do que antes”, apontou. 

Nesse caso, não foram apenas as casas e apartamentos que foram procurados pelos baianos. Dentro da noção geral de “imóveis” registrados nos cartórios, os terrenos ou loteamentos também foram comprados pelas pessoas como uma forma de investimento. Em Ribeira do Pombal, Nordeste da Bahia, a estudante Fernanda Deise, 24 anos, decidiu aplicar nessa área o dinheiro ganho num comércio de biquinis. 

“O dinheiro estava na conta parado e apareceu a oportunidade de comprar. Como é algo que valoriza rápido, pensei que seria melhor investir do que gastar com coisas fúteis. No futuro, eu posso construir algo no local ou vender por um valor mais alto do que comprei”, disse a jovem. 

Fernanda sabe que investir em imóvel é um bom negócio (Foto: arquivo pessoal)

Plataforma digital
O aumento de escrituras de compra e venda de imóveis nos cartórios baianos coincidiu com a possibilidade das pessoas fazerem o registro de forma online, pela plataforma e-notoriado, lançada em junho de 2020. Desde o lançamento do serviço, 2.119 atos já foram praticados eletronicamente em todo o estado, segundo o Colégio Notorial do Brasil. 

Não há uma especificação de quantos desses atos foram de escrituras de compra e venda, mas Fernanda Rabelo, tabeliã do cartório de notas e processos da comarca de Santana, na Bahia, não tem dúvidas de que a plataforma tenha contribuído nos números positivos de mais registros. “Muita gente não sabe que existe essa plataforma digital, que durante a pandemia tem forte impacto. Pela segurança jurídica do cartório, as pessoas passaram a procurar mais nossos serviços. E, hoje, elas podem fazer isso sem sair de casa”, contou. 

Ela explicou que o procedimento pode ser feito totalmente digital ou híbrido, caso algumas das partes envolvidas queira fazer a assinatura presencial e não a digital. “O ato é lavrado no cartório pelo tabelião, mas o procedimento, envio de documentos e assinaturas são feitos pela internet. Presencialmente, alguns procedimentos não são feitos no mesmo dia e usar o e-notoriado é um avanço, pois a pessoa não precisa se deslocar, economiza tempo, dinheiro e vida, por causa da pandemia”, falou.

O único requisito para que o procedimento possa ser feito de forma digital é que as partes envolvidas tenham como fazer uma assinatura eletrônica. Isso é possível através da obtenção do certificado digital. “Nós também dispomos de um certificado digital notoriado, que é feito no cartório gratuitamente, mas só serve para os atos notoriais. Essa também é uma possibilidade”, lembrou. 

(Ilustração: Arte CORREIO)

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro.

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