Cadê minha agência? Entenda por que bancos estão fechando na Bahia

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03.05.2021, 05:30:00
Atualizado: 03.05.2021, 18:54:31
(Nara Gentil/CORREIO)

Cadê minha agência? Entenda por que bancos estão fechando na Bahia

Ao todo, 54 unidades já foram encerradas no estado em um ano

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A primeira conta bancária da servidora municipal Karla Izabelle, 35, foi na unidade do Banco do Brasil do Garcia, fechada em 2017. Na época, sem direito à escolha, sua conta foi transferida para a agência do Canela, encerrada em abril passado. “Mais uma vez me transferiram  e agora para uma agência que nem sei onde fica”, lamenta. 

Assim como Karla, muitos correntistas têm se deparado com esse problema. Na Bahia, no primeiro trimestre desse ano, 24 agências encerram as atividades, uma média de 8 fechamentos por mês. O número representa 44% dos encerramentos de 2020: 54. Veja os números completos de agências perdidas na Bahia por banco no final do texto.  

Os dados foram elaborados pelo Sindicato dos Bancários da Bahia, que usou como fonte o Banco Central. Das unidades fechadas em 2021, 15 pertencem ao Banco do Brasil.  A instituição anunciou no início deste ano que iria passar por um “plano de reestruturação”, com fechamento de agências.

De acordo com dados coletados pelo CORREIO junto ao registro de agências bancárias do BC, o  número de agências em março de 2020 na Bahia era de 982 postos de atendimento. Um ano depois, em março de 2021, último mês divulgado pelo BC, o número caiu para 911. A redução percentual é de 7,2% no intervalo de um ano.

Aramari, no nordeste do estado, já tem data marcada para perder a única agência da cidade, que pertence ao Banco do Brasil: 17 de maio próximo. Os quatros funcionários que trabalhavam na unidade já foram realocados para outros municípios. Um deles, que não quis se identificar por medo de represália, classifica a decisão do banco como cruel.  

“Existe agora, mais do que nunca, a ordem de incentivar os clientes a usarem internet banking. E isso é um tiro no pé, pois quanto mais os clientes usam, mais forte o argumento deles de diminuírem agências e quadros de funcionários. Só que a função social da instituição sai prejudicada. Não tem preocupação com o atendimento humano, programas sociais e o acesso da população idosa e menos informatizada. Parece até que eles querem afastar o cliente e não atrair”, desabafa.  

Operações digitais

Edval Landulfo, economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), argumenta que estamos em um caminho sem volta. Para ele, o que mais os bancos querem nesse momento é que os clientes utilizem apenas o serviço digital. “Não há necessidade hoje do cliente ir para uma agência bancária. Ele pode fazer tudo através da internet, até mesmo se precisar contatar alguém, de forma personalizada, já tem como fazer isso virtualmente, pelo celular”, diz.  

Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), 63% das operações bancárias são feitas por meios digitais. As movimentações financeiras com smartphone tiveram alta de 41% em 2019, em relação a 2018. Também foram observados avanços em outras transações, como contratação de investimento (alta de 114%), de seguros (+133%), tomada de crédito (+47%), transferências, DOCs e TEDs (+43%), depósitos virtuais (+327%) e pagamento de contas (+39%).  

A consequência, segundo o especialista, é o desaparecimento progressivo da maioria das agências e das ocupações destinadas ao atendimento do público. “Por outro lado, eles [os bancos] investem na área da tecnologia da informação, inclusive contratando novos profissionais, que não são bancários, para atuar nesse processo de digitalização”.  

Clientes

Quem sai prejudicado é quem opta pelo modelo tradicional de atendimento. Normalmente, segundo Edval Landulfo, são pessoas idosas ou com menor grau de escolaridade. No caso de Aramari, até o dia 17 de maio, a população passa por treinamento para usar apenas o internet banking. Depois disso, quem precisar do serviço presencial terá que se deslocar para Alagoinhas, a 11 quilômetros de distância.  

“Em março de 2015, a agência da cidade chegou a ser explodida e as pessoas tiveram que ir para Alagoinhas sacar dinheiro. Ficaram sujeitas aos assaltos constantes e acidentes que ocorriam no percurso. São muitos idosos, aposentados e pensionistas que terão que fazer essa viagem. Sem contar naqueles que passarão a comprar o que precisa em Alagoinhas, algo que impacta de forma direta no comercio do município”, analisa o economista.  

Em nota divulgada em suas redes sociais, o prefeito de Aramari, Fidel Dantas (PP), lamentou a decisão do BB, que ele classificou como ‘absurda e equivocada’. “A estratégia do banco desconsidera todo o esforço histórico do município para implantação e manutenção da agência. Desconsidera toda a população aramariense, correntistas, aposentados, pensionistas, funcionários públicos e comércio local. Mesmo sendo uma unidade viável e lucrativa”, escreveu.  

Mais filas 

Na prática, o fechamento de agências bancárias não afeta apenas idosos ou pessoas sem acesso à tecnologia. O estudante Pedro Paiva tem apenas 17 anos e já sofre com essa realidade. “Tinha três agências do Bradesco na Avenida 7 [de Setembro, em Salvador]. Primeiro fecharam a minha e me jogaram para a agência Mercês. Logo depois fecharam também essa e realocaram para uma nova agência no mesmo bairro”, lembra. Tudo isso aconteceu sem a opção de escolha para o rapaz, que precisava ir presencialmente no banco antes da pandemia.  

“Depois das mudanças, passei a resolver tudo por internet banking. Quando vou, ainda é para lidar com chave de segurança do Bradesco, que sempre dá problema. Mas como juntaram clientes de três agências em uma só, estou pegando mais filas, que chegam a ficar fora da agência nos dias de pagamento”, lamenta.  

As longas filas é justamente o que Augusto Vasconcelos, presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia, usa como argumento para rebater quem defende o fechamento das agências. “Se por um lado aumentou a capacidade de fazer transações eletrônicas, ao mesmo tempo, as filas nas agências continuam imensas. Isso revela a necessidade de ter agências físicas para atender a população, especialmente idosos e os mais pobres, que dependem fundamentalmente do atendimento presencial”, argumenta.  

Para o sindicato, o que está causando o fechamento das agências é explicado por outras razões: “Um aspecto é o do oligopólio. Vários bancos passaram por fusões. Hoje, cinco instituições detêm 85% dos ativos do sistema financeiro. Além disso, a gente tem um processo de desmonte dos bancos públicos. Banco do Brasil e Caixa Econômica, em especial, enfrentam um processo de redução do número de agências. E isso tem um impacto brutal no total de empregos e na economia dos municípios que sofrem com esse fechamento”, aponta. 

Segundo a União dos Municípios da Bahia (UPB), pelo menos 26 cidades baianas serão prejudicadas com a reestruturação do BB. “Perderão sua única agência e sua capacidade de operacionalização de crédito”, lamentou Isaac Newton Carneiro, coordenador jurídico da instituição, em reunião realizada em abril entre a Confederação Nacional de Municípios (CNM), associações municipalistas estaduais, e João Rabelo Jr., vice-presidente de Agronegócio e Governo do BB.  

Na ocasião, segundo a UPB, Rabelo disse entender a preocupação dos prefeitos e a legitimidade do pleito, mas se mostrou alheio à realidade dos municípios. Em sua fala ele citou a expansão digital e o investimento em tecnologia feito pelo banco, explicou que a medida visa manter a competitividade da instituição no mercado e disse que questões pontuais podem ser analisadas.

Demissão de bancário vai parar na Justiça

O bancário Agnaldo Souza de Santana, 54 anos, trabalhava desde 1986 no banco Mercantil do Brasil, cuja agência funcionava na avenida Tancredo Neves, em Salvador.  A demissão do trabalhador com 35 anos de casa foi definida como ‘surpreendente’ e acabou na Justiça.

“O ano passado foi um pesadelo total”, classifica o bancário. “A gente acha que adquire uma certa estabilidade depois de tanto tempo de empresa, mas é uma mera ilusão. E é um banco que é uma plataforma, trabalhava com cliente de ponta. Com a economia ruim, tudo fica mais complexo”

De acordo com Agnaldo, existia um pacto dos bancos com a Febraban para que estes não fizessem demissões no período de crise sanitária. No entanto, o Mercantil do Brasil quebrou o acordo, o que fez com que o bancário recorresse às vias legais para tentar recuperar o posto de trabalho. O caso está em andamento na Justiça e Agnaldo conta com o apoio jurídico do sindicato dos bancários.

Ainda segundo o sindicato, entre 2019 e 2020, os bancos baianos eliminaram quase 600 postos de trabalho. Foram 282 bancários demitidos, em 2019, e 307, em 2020.

“Eu fui pego de surpresa e tudo fica ainda mais difícil pois nós não conseguimos nos recolocar no mercado. Quando o banco te demite, ele não te indica para outra empresa. O bancário é visto como mero número, ainda mais nessa categoria nos dias atuais. Com 54 anos, o mercado te excluí. Hoje só entram no banco pessoas com até 25 anos”, lamenta Agnaldo.

Ele ressalta que necessitou bastante do amparo familiar, especialmente por conta do choque da demissão. Segundo o profissional, que ainda se considera contratado do Mercantil, o prosseguimento de sua vida normal — na medida do possível — só foi possível com a ajuda da esposa, que trabalha como contadora e consegue manter a casa. “Se não fosse por ela, eu estaria completamente desamparado”, finaliza.

O que dizem os bancos?  

A decisão de abrir ou fechar um posto de atendimento é tomada pelos bancos individualmente, com base na respectiva estratégia de negócio, afirma a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). 

“De acordo com a última edição da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, o número de agências em operação no Brasil tem se mantido estável ao longo dos últimos anos. Na comparação entre 2018 e 2019, último dado disponível, houve crescimento no total de postos de atendimento: de 37,8 milhões para 38,2 milhões”, disse a entidade, em nota.  

A federação também afirma não ter dados regionais. “Os bancos estão adequando suas estruturas à nova realidade do mercado, em que a utilização dos canais digitais de atendimento vem ganhando espaço em detrimentos dos canais físicos e presenciais”, acrescenta a nota.  [

Já o Banco do Brasil argumenta que avalia constantemente suas unidades de negócios em relação ao desempenho financeiro, o potencial de negócios, o volume de utilização pelos clientes, a proximidade com outros pontos do BB e as características dos imóveis. "O objetivo é trazer mais eficiência à rede de atendimento do banco, propiciando recursos para abertura das unidades de atendimento especializado e buscando melhorar a experiência do cliente. (...) Os bancos têm recomendado fortemente aos seus clientes que, durante o período da pandemia, busquem atendimento pelos canais digitais", informa a instituição, em nota. 

O Bradesco, por sua vez, também afirmou que passa por uma restruturação da rede de agências, que prevê a implantação de um novo modelo de atendimento. "As agências fechadas serão direcionadas para a Unidade de Negócios, novo modelo de atendimento, que preza pelo relacionamento com os clientes atendendo-os em todas as necessidades de negócios", diz nota da empresa. 

O Itaú Unibanco explicou que a redução do número de unidades físicas é um movimento de reposicionamento da rede que converge com o aumento da procura por atendimento em outros canais, como internet, celular e agências digitais. "Após serem devidamente informados pelo banco, os clientes migram para unidades próximas – e ainda contam com atendimento em nossos canais digitais, via site e aplicativo", informou a empresa. No momento, o banco não ter planos específicos para mais fechamento de agências na Bahia.

Por fim, o Santander argumenta que está em um movimento de expansão na Bahia. “Nos últimos seis meses, foram 16 agências abertas e temos previsão de inaugurar mais sete até o final do ano. Uma, inclusive agora para maio, em Itapetinga”, afirma o banco. As outras agências a serem inauguradas em 2021 são em Euclides da Cunha, Seabra, Santo Amaro, Candeias, Dias D’Ávila e Jaguarari. No entanto, o levantamento do Sindicato dos Bancários da Bahia afirma que sete agências do Santander foram fechadas só no primeiro trimestre de 2021.   

O Banco do Nordeste e a Caixa Econômica Federal também foram procurados, mas não responderam até o fechamento dessa reportagem. 

*Quantidade de agências na Bahia:

Banco do Brasil: 
2018: 288 
2019: 261 
2020: 260 
2021: 245 

Caixa: 
2018: 215 
2019: 214 
2020: 213 
2021: 213 

Bradesco: 
2018: 299 
2019: 288 
2020: 242 
2021: 241 

Itaú: 
2018: 94 
2019: 86 
2020: 79 
2021: 78 

Santander: 
2018: 53 
2019: 55 
2020: 56 
2021: 49  

Banco do Nordeste: 
2018: 61 
2019: 59 
2020: 59 
2021: 59 

Outros bancos: 
2018: 18 
2019: 18 
2020: 16 
2021: 16 

*Fonte: Sindicato dos Bancários da Bahia com dados do Banco Central

**Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 
 

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