Cajazeiras VII tem 83% nos casos de covid-19 na região em apenas um mês

salvador
23.07.2020, 05:00:00
Cajazeiras ainda tem alto número de circulação nas ruas (Nara Gentil/ CORREIO)

Cajazeiras VII tem 83% nos casos de covid-19 na região em apenas um mês

Moradores admitem aflição com confinamento que começa sexta (24), mas entendem necessidade

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O bairro de Cajazeiras XI sempre esteve presente na vida de Áurea Maria. Seja no cotidiano de quem vive por lá desde a infância, seja nas letras de suas músicas. A rapper de 22 anos – e nome artístico Áurea Semiséria – só saiu de casa nos últimos três meses para fazer mercado. Ela deixou até de ir para a sua fisioterapia com medo da aglomeração na clínica.

Só que, a partir de sexta-feira (24), Áurea e seus vizinhos precisarão se acostumar com regras ainda mais rígidas no bairro. Isso porque a região teve um aumento alarmante no número de casos de covid-19 em apenas um mês. Diante disso, o prefeito ACM Neto anunciou quarta-feira (22) que Cajazeiras VII, VIII, X e XI e Fazenda Grande I, II, III e IV passam a fazer parte da lista de locais em Salvador com medidas restritivas por conta da pandemia para combater a pandemia. A ação tem prazo inicial de sete dias.

“Uma região da cidade que passou muito tempo sem registro de casos”, lembrou o gestor municipal, afirmando que era cobrado para ir até estes bairros, mas, por conta dos números, não havia motivo para grande preocupação até agora. “Passamos praticamente quatro meses com os casos controlados e agora, de repente, a gente teve um aumento muito significativo, sobretudo nos últimos sete dias”, completou Neto.

De acordo com balanço informado pelo prefeito, toda Fazenda Grande registrou 422 casos da doença, sendo 219 destes nos últimos sete dias. Já as Cajazeiras têm 528 casos, sendo 261 nos últimos sete dias - Cajazeiras VII tem 83% dos casos da região nos últimos 30 dias. Em julho, até agora, foram 307 casos em todas as Fazenda Grande e 335 nas Cajazeiras.

Segundo ACM Neto, houve um crescimento acelerado no número de casos da região durante os últimos sete dias e isso deixou as localidades classificadas com a luz amarela. “No mês de julho, o coronavírus chegou de maneira muito mais intensa em Cajazeiras e Fazenda Grande. Com base nos critérios técnicos que adotamos para incluir as localidades nas medidas mais restritivas, chegou a hora de chegarmos mais firmes nessa parte da cidade”, explicou o gestor da capital.

O CORREIO procurou a coordenação de infectologia da Secretaria Municipal de Saúde para entender o que pode estar por trás do fenômeno de aumento de casos na região, mas não teve resposta até o fechamento desta reportagem.

Maior contaminação

O caso de Cajazeiras VII chama atenção porque, até o início de maio, o local era uma espécie de ‘ilha’ livre do coronavírus em Salvador. É isso mesmo: não havia qualquer caso de pessoa infectada por lá. No entanto, nos últimos 30 dias, o bairro registrou 83% dos casos da região, de acordo com o prefeito ACM Neto. 

A última atualização divulgada pelo Secretário Municipal da Saúde (SMS), Léo Prates, colocava Cajazeiras VII com 65 casos confirmados e 40 recuperados. Ao todo, Salvador tem 46.684 casos confirmados de coronavírus e pouco mais de 25 mil recuperados.

Ainda na época em que Cajazeiras VII era uma ilha sem contágio, a região das Cajazeiras já liderava o número de reclamações para o Disque Coronavírus 160, E esse pódio negativo segue por lá com 6.728 ocorrências. Os números são da Ouvidoria da Prefeitura Municipal de Salvador.

Moradora de Cajazeiras VII há 36 anos, a manicure Jane Tavares, 48 anos, contou que a vida acontece de forma normal por lá. Há registro de aglomeração, principalmente, nos finais de semana por conta das festas que são organizadas na região. Ainda assim, Jane acredita que o aumento no número de infectados aconteceu por conta de pessoas que precisam trabalhar ou que fizeram viagens e voltaram infectados para casa.

A rapper moradora de Cajazeiras XI, Áurea, disse que precisou ir à Rótula da Feirinha para comprar mantimentos, no último final de semana, e até se sentiu mal educada por ver pessoas conhecidas na rua e não parar para conversar.

“As pessoas estão se aglomerando muito. Tem estabelecimento que os funcionários nem usam máscara. Os fregueses, clientes, ficam muito perto um do outro sem necessidade e acho isso uma falta de respeito e empatia muito grande. A desculpa que usam é que aqui em Cajazeiras tem poucos casos, mas não tá estampado na cara se a pessoa está infectada, há o risco de ser assintomático e tudo”, disparou Áurea, ao justificar sua concordância com as medidas de restrição tomadas pela Prefeitura.

Região lidera reclamações na ouvidoria do município

Em todos os locais com medidas de isolamento mais rígidas, os comércios formal e informal devem permanecer fechados, independentemente do tamanho da área. A exceção acontece com as atividades essenciais, a exemplos de supermercados, padarias, delicatessens, farmácias, açougues, estabelecimentos que utilizam o sistema de delivery (sem retirada no local) e serviços de saúde.

Além disso, os bairros recebem ações de proteção à vida que consistem na distribuição de cestas básicas para trabalhadores informais e entidades sociais que atuam na região, além de máscaras de proteção para a comunidade. Também são ofertados testes rápidos para detecção do novo coronavírus, medição de temperatura, higienização de ruas, ações de combate ao mosquito Aedes aegypti e Centro de Referência da Assistência Social (Cras) Itinerante.

De acordo com a Ouvidoria da Prefeitura Municipal, quase 130 mil demandas foram registradas pelo Disque Coronavírus 160. Foram mais de 225 mil ligações recebidas pelo órgão. Pedidos de Informação e Orientação (61%) lideram os motivos das ligações, seguidos por solicitação de serviço e denúncias (36%).

Atrás das 6.728 ocorrências de Cajazeiras registrasdas pela ouvidoria, estão as dos bairros de Pernambués (4.567), Fazenda Grande do Retiro (4.489), Paripe (4.181), Liberdade (4.064), Itapuã (3.874) e São Marcos (3.799). As solicitações mais frequentes são de fiscalização de bares com aglomeração e atividade sonora, além de estabelecimentos comerciais que descumprem o decreto.

O cidadão que precisar fazer uma denúncia pode entrar em contato com o Disque Coronavírus 160 utilizando a opção 1, informando qual a atividade está ocorrendo (bar, restaurante, etc), a quantidade aproximada de pessoas, se há atividade sonora (carro, caixa, paredão) e o endereço com ponto de referência. Pode também encaminhar para o e-mail: ouvidoria@salvador.ba.gov.br ou acessar o portal Fala Salvador clicando neste link.
 

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