Capoeiristas se preparam para decisão de torneio internacional em Salvador

salvador
28.02.2018, 03:00:00
(Foto: Betto Jr./CORREIO)

Capoeiristas se preparam para decisão de torneio internacional em Salvador

Final do Red Bull Paranauê será sábado, no Farol da Barra; veja programação

São 600 homens lutando, literalmente, para ganhar o direito de provar que é o capoeirista mais completo do mundo. Eram só quatro vagas para a final e eles deram o melhor, na tarde desta terça-feira (27), no Goethe Institut, no Corredor da Vitória, na última das seletivas da Red Bull Paranauê, que escolheu Salvador para sediar sua final. Vai ser já no próximo sábado, às 14h, no Farol da Barra.

Embora seja uma competição, não parecia que as pessoas queriam vencer, mas confraternizar. “Eu não vim para ganhar, vim para participar. Não existe campeão na capoeira, não tem melhor e pior. É como o mundo: tem o branco, o negro, o índio, o amarelo. Ninguém é melhor que ninguém”, avalia Marcelo Pereira, o Cacique, um dos selecionados para a final.

(Foto: Betto Jr./CORREIO)
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Na seletiva da categoria Mundo, 32 estrangeiros e brasileiros residentes no exterior disputavam quem tinha melhor desempenho nos toques da capoeira no berimbau. Na roda, muitos anos de dedicação e uma paixão que nasceu ao acaso. Na categoria Bahia, eram 90 brasileiros que cresceram no país onde surgiu a mistura de arte marcial, dança, música e cultura.

Do frio de Praga, na República Checa, o despachante de metrô David Brezovsky, 33 anos, levava para a roda um sonho que nasceu vendo um filme na televisão: o lendário Esporte Sangrento (Only the Stronger), da década de 1990, mostrava a arte marcial do início ao fim, estrelado pelo ator Mark Dacascos.

Muitos capoeiristas mundo afora começaram a lutar porque viram esse filme.

“Tem vários grupos de capoeira na República Checa, O Abadá Capoeira, Candeias, Axé Capoeira”, enumera Brezovsky.

Ele deu os primeiros gingados aos 15 anos e, hoje, 18 anos depois, é o professor responsável pela filial do grupo Ginga Mundo na cidade de Praga. “Gosto da energia. É diferente da do europeu.”

Por mais que os gringos se esforçassem, não deu para superar quem tinha a capoeira no sangue. Dois brasileiros residentes na Europa foram os selecionados para a final no Farol da Barra. Cacique Massaranduba e Guga Quilombo foram considerados os mais competentes na arte tão típica na capital baiana.

Cacique Massaranduba e Guga Quilombo, os finalistas (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Dificuldades
Nascido no Largo de Roma, num dos mais tradicionais bairros de Salvador, o Cacique dedicou a maior parte da sua vida à capoeira. Desde cedo, soube o que é superação. De menino carregador de compras a professor na escola de capoeira Arte Negra na cidade de Bordeaux, na França, Cacique Massaranduba vive há 17 anos no país europeu.

“Eu fazia capoeira, trabalhava durante o dia e estudava à noite. Até que um dia eu disse a minha mãe: 'Mãe, eu quero ser capoeirista'. Ela disse: 'Você tem um ano sem trabalhar. No outro ano, eu estava indo para a França'”, conta ele, após o primeiro convite que recebeu para se aprimorar na arte que aprendeu brincando na rua com amigos.

O tempo passou, Cacique sustenta a sua família e até deu uma casa para a mãe com o dinheiro que ganha como professor, mas não superou as dificuldades. “Já operei dois joelhos, já tive doença que me derrubou, tenho hérnia de disco”, conta sobre outros desafios que superou ao longo do caminho, sem nunca abdicar da paixão da sua vida.

“Vim aqui para representar a capoeira. Ela é cultura, educação. É o fio condutor da minha vida”, contou Cacique, que evita dar tom de competição. “A capoeira não é só movimento, é sentimento, é música. Se você ver a capoeira você não sabe o que é. Se você ler a capoeira você não sabe o que é. Você tem que sentir”, poetiza.

Também vendo o mesmo filme, o chileno Francisco Castro, o Sony, chegou longe. Participar do Red Bull era uma forma de agradecer ao que a capoeira lhe deu. “Me graduei de monitor, trabalhei como dublê de ação na televisão, em filmes, propagandas. Tudo isso graças à capoeira. Hoje, tenho minha academia de artes marciais e crossfit”, lembra o empresário de 34 anos. 

Além do Cacique e de Gugu, como representantes da seletiva Mundo, foram escolhidos como finalistas: Nahuel Mingote e Marcus Vinicius, na seletiva Bahia, Eliel Ramos na seletiva São Paulo e Rodrigo da Conceição na seletiva Rio de Janeiro.  Também participam da final, o campeão e o vice-campeão da Red Bull Paranauê do ano passado: Lucas Ratto e Arthur FIU, respectivamente.

Mulheres na roda
A categoria feminina é a novidade da edição deste ano. Representando as mulheres, competem Débora Santos (a Pérola), Jubenice de Oliveira, Jailane Graziele, Michelle Palhano, Thaís Federsoni, Clara Folatelli, Priscila dos Santos e Aline Longui. Na última edição, Pérola foi a única  mulher a competir no meio dos homens. 

O vencedor de cada categoria ganha uma viagem de uma semana para os Estados Unidos para participar de um workshop com o mestre João Grande, em Nova York. O capoeirista é um dos mais antigos mestres vivos em capoeira de Angola e leciona na sua escola Capoeira Angola Center of Mestre João Grande.

De quarta a até sábado, dia da grande final, serão realizados eventos abertos ao público no Goethe Institut. Confira:

Quarta-feira (28):

  • 18h às 19h - Aula com Mestre Paulinho Sabiá

  • 19h às 20h - Aula com o Mestre Jogo de Dentro

Quinta-feira (1):

  • 17h às 18h: Aula com o Mestre Nenel

  • 18h às 19h: Aula com o Mestre Suassuna

  • 19h às 20h: Lançamento do CD do Contra Mestre Rafael e exibição do curta metragem “Herói da Liberdade”, do Mestre Negoativo

  • 20h às 21h: Apresentação dos 16 atletas do Red Bull Paranauê 2018

*Inscrições por ordem de chegada. Vagas sujeitas à lotação do espaço.

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