Casamentos para ‘poucos e bons’: casais se adaptam para viabilizar cerimônias na Bahia

bahia
02.05.2021, 07:00:00
O casamento de Beatriz e João Pedro foi o segundo a acontecer no Castelo Garcia D'Ávila, em Praia do Forte, após a reabertura em Mata de São João (1.2 Imagem/Divulgação)

Casamentos para ‘poucos e bons’: casais se adaptam para viabilizar cerimônias na Bahia

Mata de São João foi a primeira cidade a flexibilizar; festas deram lugar a recepções com número reduzido de convidados

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Era um sonho que precisava ser acompanhado - e avaliado - a cada semana. A economista Beatriz Mendonça Leal, 30 anos, sabia disso quando decidiu manter a data do casamento para 24 de abril de 2021. Por mais de um ano, seguiu as notícias sobre as medidas de combate à pandemia da covid-19 na Bahia ao lado da assessoria de eventos e de cada um dos fornecedores. 

Desde março do ano passado, cerimônias e celebrações em todo o estado estão sob alerta e noivos em aflição: na maior parte do tempo, eventos foram cancelados ou suspensos por decretos municipais e estaduais. No segundo semestre de 2020, porém, com a queda no número de casos, voltaram a ser permitidos com limitações. 

Entre dezembro e janeiro, houve a maior abertura até então: as cerimônias foram permitidas pelo governo estadual para até 200 pessoas, sem festa. Mas com o recrudescimento da pandemia em fevereiro, tudo foi proibido de novo. Só que a queda nas infecções e a reabertura gradual no mês passado trouxeram um novo cenário. 

No fim, o sonho de Beatriz foi possível - de forma adaptada. Em abril, a prefeitura de Mata de São João autorizou casamentos no município. Assim, no dia 24, ela e o marido, João Pedro, se casaram no Castelo Garcia D’Ávila, na Praia do Forte. A festa para 200 pessoas virou uma recepção para apenas 50. 

“Na nossa visão, os protocolos vão ser permanentes. Não acho que vai deixar de ter máscara, álcool gel. Caberia adiar por mais um período de ansiedade? A gente realmente tinha essa data na cabeça e sabia que iria acontecer da forma permitida. Graças a Deus, foi algo absolutamente incrível", explica Beatriz. 

Agora, relatos como o dela devem ficar mais comuns. Por enquanto, a maior parte das cidades ainda segue o decreto estadual mais recente, que só permite eventos científicos, e com menos de 50 participantes. No entanto, de acordo com a Secretaria da Casa Civil, cada município pode adaptar as orientações para sua própria realidade.

Foi o que fez a prefeitura de Mata de São João. No início, foram liberadas as celebrações de casamento para até 50 pessoas. Na semana passada, foram ampliadas para até 100 pessoas  - o número de convidados de cada evento vai depender da capacidade do local, que não deve ter mais do que 50% do espaço preenchido. De acordo com o secretário municipal de Turismo, Alexandre Rossi, a autorização só foi possível por causa das medidas tomadas pela administração durante a pandemia. 

“Fizemos lockdown quando foi preciso e foi muito duro, mas por um bem maior. Como hoje a gente está numa situação de estabilização, aos poucos temos flexibilizado horários de bares e restaurantes. E na realidade, nosso destino é tradicionalmente fantástico para a realização de casamentos”, analisa. 

Bares e restaurantes
O casamento de Beatriz e João Pedro foi o primeiro que a assessora de eventos Indira Marrul fez, nessa nova fase de reaberturas. Há 15 anos trabalhando na área, ela conta que o setor espera manifestações de outras prefeituras, como Salvador e Camaçari, em breve. Ela afirma que a sugestão dos próprios organizadores de casamentos é que os eventos voltem gradualmente. 

"A gente não consegue entender a diferença de um casamento para 30 pessoas de um restaurante funcionando. Esperamos que o poder público entenda a nossa dinâmica em eventos mais familiares, sem pista de dança, que é a grande diferença. O restante a gente consegue manter o mesmo protocolo de bares e restaurantes. Para a gente, é muito simples porque sempre lidamos com protocolo", diz. 

Desde o ano passado, os casais têm seguido principalmente dois caminhos: o adiamento ou a adaptação, que é a única forma possível atualmente. Assim, festas de 200 pessoas passam a contar com 50 convidados. "Já adiei mais de 50 casamentos. Cancelamentos foram só dois e tivemos sete adaptações esse ano", conta Indira. 

Nesse contexto, ela precisa administrar não só as incertezas da própria organização, mas também a ansiedade dos casais. “A gente sempre acolhe muito, orienta bem, para mantê-las bem informadas. Mas, emocionalmente, já estou no limite, porque a gente se doa muito. Todos os dias, desde que a pandemia começou, recebo ligações de noivas chorosas ou chateadas, porque a família está pressionando, os amigos estão questionando”, diz. 

Ela reforça que o setor de casamentos têm sofrido com os fechamentos. Ao contrário de áreas como bares e restaurantes, os eventos precisam contar com mais planejamento. “Estamos precisando que o poder público entenda que começar pelo pequeno destrava o setor e faz as pessoas voltarem a ter confiança. Esse é um momento muito importante porque a noiva é movida por amor e esperança, é um público que precisa de planejamento”, completa. 

No caso de Beatriz, a data original foi mantida. Quando marcou, no ano passado, acreditava que a pandemia já estaria controlada em 2021. 

Cerimônia de Beatriz e João Pedro foi adaptada; passou de 200 para 50 convidados (Foto: 1.2 Imagem)

“Com o tempo, fomos adaptando para poucas pessoas - o famoso ‘poucos e bons’. De certa forma, isso foi extremamente mágico, porque quem estava no dia 24 de abril estava tão entregue que o dia fluiu de uma forma muito gostosa”, conta Beatriz. 

O casamento dela foi o segundo realizado no Castelo Garcia D’Ávila após a reabertura. Antes disso, houve uma cerimônia para 20 convidados no dia 17 de abril. Lá, segundo a gestora do castelo, Tina Tude, apenas cerimônias diurnas têm sido permitidas, de modo que todas as atividades sejam encerradas antes das 21h. 

Beatriz conseguiu manter o mesmo vestido e as cores vivas que havia planejado desde o começo. A Praia do Forte também tinha sido uma das escolhas do começo. 

“Eu diria a outras noivas para não desanimarem. A gente costuma fazer uma lista grande, às vezes chama até pessoas que não convivem tanto com você. Nesse contexto, as pessoas estão ali de alma por você, isso muda a energia que você recebe no dia. Sua vida não deve parar porque não pode ter um casamento para 200 pessoas, celebre sua união”, aconselha. 

Nos primeiros meses da pandemia, ainda no ano passado, as imagens de um casamento na Paróquia da Vitória, em Salvador, assustaram muitos casais. Em vídeos que circularam nas redes, os noivos e os cerca de 30 convidados foram vaiados por pessoas que passavam pelo local. 

Um ano depois, as noivas estão menos apreensivas quanto ao medo do julgamento. “O que essa noiva passou, eu não desejo para ninguém. Não a conheço, mas fiquei extremamente triste com o vídeo. Mas o que me confortou foi saber que eu não estava fazendo nada de proibido. Estava tudo certo, tudo autorizado para acontecer. Esse novo contexto não vai acabar daqui a uma semana, nem daqui a um ano”, comenta Beatriz. 

Recepções
Agora, as festas têm dado lugar às recepções: ao invés de um casamento com balada, o que tem acontecido é uma cerimônia com jantar, como explica a decoradora Camilla Bahiense. Ao lado da mãe, ela conduz o Buffet Beth e Camilla Bahiense, no mercado há 25 anos. Entre as noivas atendidas por elas, cerca de 30% decidiram se readequar. 

"A gente entende e tem ciência que esse é um momento muito delicado. Em nenhum momento, o setor está pressionando pela liberação a qualquer custo. Em contrapartida, a gente não tem como segurar muito as pessoas de realizar seus sonhos", explica. 

Nesse modelo, acontece a cerimônia religiosa e civil - ou apenas civil - e depois os noivos recebem os convidados para uma refeição, que pode ser um almoço ou um jantar. As mesas têm lugares demarcados por grupos que já convivem entre si, com etiquetas indicando onde cada um deve sentar. "O serviço de bufê é diferenciado. A comida sai da cozinha e vai já para a mesa", explica Camilla. 

Não há mais shows, nem bandas. No máximo, algum músico toca um violino, piano ou saxofone, para dar um som ambiente. A atração do evento, assim, acaba sendo a refeição, em vez da música. Com o toque de recolher, a maioria tem preferido almoços. Às 16h, os convidados já começam a ir para casa. 

“Tenho feito muitos casamentos adaptados e tem dado super certo. É uma reunião de familiares e pessoas mais íntimas, que realmente fazem parte da vida do casal. As noivas que têm como foco a celebração, fechar um ciclo e abrir outro, essas estão topando. Mas também têm aquelas cujo foco é a balada. Essas precisam adiar. Eu tenho noivas dos dois tipos e não tem como dizer qual sonho está certo e qual está errado”, completa a decoradora. 

Ela também diz esperar mais sensibilidade das autoridades para a compreensão de que, nesse novo modelo, os casamentos são como recepções. “A gente também não quer voltar com 300 pessoas. A gente quer voltar com 50, gradualmente 80. Queremos oferecer um serviço seguro porque a gente também precisa estar em segurança. O grande questionamento é: qual é a diferença de os noivos irem para um restaurante e fazerem o almoço ou alugar um salão e fazer esse mesmo almoço?", reflete. 

A advogada Victória Guimarães, 29, está passando pelo processo de adaptação. Quando vieram os primeiros casos de covid-19, a data original, 4 de julho de 2020, foi transferida para outubro do ano passado.

“Mas casar em outubro também não foi possível para mim, porque a segurança das pessoas sempre esteve em primeiro lugar. Então, eu suspendi e agora remarquei de novo para 24 de julho, de uma forma totalmente diferente do que faria inicialmente”, conta. 

Antes, receberiam 350 convidados em uma festa com duas bandas. Agora, os planos são de uma recepção para 40 pessoas no Solar Cunha Guedes, no Corredor da Vitória. “Mesmo que eu reagendasse para 2022, talvez não me sentisse segura para aquilo porque acho que todo mundo ficaria um pouco incomodado. Acho que adaptar é a melhor escolha porque, ainda assim, você vai ter as pessoas que ama. O momento vai continuar existindo, mas sem colocar ninguém em risco”, reforça. 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas