Casos ativos de covid-19 crescem nove vezes na Bahia em menos de um mês

salvador
30.06.2022, 05:00:00
São João 2022 no Parque de Exposições reuniu milhares de pessoas sem máscara (Nara Gentil/Arquivo Correio)

Casos ativos de covid-19 crescem nove vezes na Bahia em menos de um mês

Estado registrou na quarta (29) o maior número de resultados positivos do trimestre

O crescimento do número de casos ativos de covid-19 na Bahia, que já era nítido no início deste mês, agora deu um salto. Conforme dados de ontem da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab), a quantidade de infectados cresceu nove vezes, em comparação com o primeiro dia de junho. Em menos de um mês, a estatística pulou de 860 casos ativos no dia 1° para os 8.075 que constam no boletim epidemiológico desta quarta-feira (29). Ontem, inclusive, o estado teve o maior número de contaminados confirmados em um único dia dos últimos três meses, com 2.744 novos registros. 

Os festejos juninos, iniciados ainda na primeira quinzena com Santo Antônio têm relação com esses números, que podem ser ainda maiores, uma vez que há uma divergência entre a quantidade de casos ativos registrados no início do mês pela Sesab e pela Secretaria de Saúde de Salvador (SMS). Segundo a pasta municipal, só na capital, em 1° de junho, existiam 929 casos ativos.  As duas secretarias foram questionadas sobre a diferença e a Sesab afirmou que os números publicados são formados pelos dados que os próprios municípios notificam na base de dados. Já a SMS não respondeu sobre isso até a publicação da reportagem.

Já sobre o quantitativo atual de casos, a SMS informou que, ontem, Salvador registrou 1.101 soteropolitanos com infecção ativa pelo novo coronavírus. Nesse grujpo está a escritora Cristiane Schwinden, 41, que sente os sintomas desde segunda-feira (27) e viu seu teste dar positivo na terça (28).

"Peguei da minha esposa, que positivou no domingo. Ela acha que pegou no supermercado. Começou com dor de garganta e tosse. Agora, além disso, estou com falta de ar e muito cansaço. Qualquer atividade cansa muito, até escovar os dentes. Também tive febre", conta ela, que está com as doses de vacina em dia.

Já a estudante Laura Pita, 18, que testou positivo no dia 22 de junho, pegou o vírus do pai. Ela, assim como Cristiane, não apresenta atraso na vacinação, mas teve mais sorte: sentiu apenas sintomas leves.

"Acredito que ele tenha pegado de familiares com quem teve contato na semana anterior. No segundo teste que fiz depois dele pegar, deu positivo. Tive coriza, tosse e espirros. Inclusive, antes de saber que era covid-19, comprei remédio para a gripe por serem sintomas não tão pesados. Só o que tirou a dúvida foi o teste, que eu recomendo muito para quem quer se proteger". 

Cristiane testou positivo para covid-19 na terça

(Foto: Acervo Pessoal)

Procura por testes
A preocupação em se proteger e aos familiares, fez os números de testes de covid-19 também crescerem em junho na saúde pública e privada. Diretora do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), Arabela Leal afirma que na 21° semana epidemiológica - primeira do mês de junho - 1.184 laudos de testes foram emitidos por demanda espontânea. Na 25° semana, encerrada no sábado (25), foram feitas 1.618 análises solicitadas por diferentes municípios.

"Em relação aos casos positivos, na 25° semana epidemiológica, a positividade ficou em 20,3%. Na 24°, ficou em 11%. Já na 23°, em 10,1%. Na semana 22, a taxa foi de 4,6%. Na 21° semana, a positividade foi de 3,2%", enumera Arabela.

Nos laboratórios privados, Mauro Adan, presidente da Associação dos Hospitais e Serviços de Saúde do Estado da Bahia (Ahseb), garante que o aumento dos testes e resultados positivos também ocorreu este mês.

"Os indicadores que temos de junho é de um crescimento de 200% em relação a maio de 2022. E, dentro desse índice, a positividade dos testes está atualmente entre 35% e 40%. Um número bem maior quando o comparativo é com o mês passado", diz.

A reportagem pediu dados de testagem em Salvador para a SMS, mas não obteve retorno. 

Risco presente
Médica infectologista, Clarissa Cerqueira aponta que, mesmo com o crescimento recente, ainda deve haver uma guinada de casos de covid-19 na Bahia. No entanto, ressalta que, para que as medidas restritivas sejam tomadas novamente, é necessário avaliar a incidência de infecções graves.

"O número de casos mostra que o vírus está circulando bastante e isso deve aumentar mais por conta do São João e das aglomerações. Porém, a gente tem que prestar mais atenção em pacientes graves, porque grande parte dos infectados são casos leves que não têm impacto grande no serviço de saúde", diz a médica, indicando que, por enquanto, o recomendado é seguir com o uso das máscaras e atualização do calendário de vacinas.

As orientações da especialista se mostra necessária, especialmente, para os baianos. Em todo o estado, de acordo com a Sesab, são mais de 5 milhões de pessoas com atraso na terceira e na quarta doses contra a covid-19. Um número que se mostra ainda preocupante pelo fato da Bahia não estar livre das variantes. O Lacen, que faz o sequenciamento genético dos casos do vírus detectados, indica a presença da variante ômicron - tipos ba1, ba2 e ba4 - por terras baianas. Procurado, o Geocovid Mapbiomas, que costuma projetar uma estimativa de novos casos baseada em índices atuais, disse não poder indicar o quanto esses dados ainda podem crescer por enfrentar problemas na base de dados que é utilizada para fazer essas projeções.

Crianças estão vulneráveis
Mesmo que sem previsões do que pode ser o avanço da covid-19 nas próximas semanas, o infectologista Matheus Todt afirma que o momento é de preocupação por dois motivos: a subnotificação de casos e a baixa proteção para crianças.

"Se antes, quando era comum sintomas mais graves da doença, não conseguíamos registrar tudo, agora, com vacina e muitos casos leves ou assintomáticos, a subnotificação é ainda maior. O número que é registrado oficialmente como nove vezes maior que o do início do mês pode ser, na verdade, 10 ou 14 vezes superior. E isso deixa o público não vacinado ou com esquema incompleto muito vulnerável", adverte. 

Uma pesquisa realizada pelo Observa Infância, com a parceria da Fiocruz, analisou a base de dados coletados no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, e verificou que, até aqui, a covid-19 matou 1.439 crianças com menos de 5 anos no Brasil. Número que forma uma média diária de duas mortes de crianças dessa faixa etária por conta do vírus.

Ainda de acordo Matheus Todt, tanto a gestão estadual como a prefeitura de Salvador cometeram um equívoco ao não reagir antes quando a curva de casos estava crescendo. "Estão incorrendo no mesmo erro. Você evita que hospitais fiquem lotados, não deixa para tomar medidas quando eles já estão assim", completa. 

Sobre o cenário atual e a possibilidade de medidas restritivas para combater a crescente de casos ativos, a SMS afirmou que, apesar do sensível aumento de casos registrados nos últimos dias, o fato não tem gerado impactos significativos no sistema assistencial da Saúde por conta da cobertura vacinal. A Sesab não respondeu sobre a possibilidade de medidas para lidar com o aumento até o fechamento desta matéria.

ENTREVISTA: Washington Franca-Rocha

O professor, doutor e especialista em Ciências de Geodados Washington Franca-Rocha, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e coordenador do Portal Geocovid Mapbiomas, em breve conversa com a reportagem do CORREIO,  disse que há perspectiva de aumento nos casos de covid-19 após o período das festas juninas por conta das aglomerações nos eventos ocorridos no período. Segundo ele, só em Feira de Santana os casos dobraram em sete dias, de 23 a 28 de junho. Confira:

Quem é: Washington Franca-Rocha é doutor e especialista em Ciências de Geodados, com estágios no Geological Survey of Canada (Canadá) e University of Twenty (Holanda). É professor titular e diretor do Núcleo de Inovação Tecnológica da UEFS. Anteriormente, foi assessor especial de Relações Institucionais da UEFS (2007 a 2015) e superintendente de Desenvolvimento Científico da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado da Bahia (2019-2021). Em 2020, liderou a criação do Portal Geocovid, tornando-se seu coordenador. Exerce também a coordenação da equipe Caatinga do Projeto Mapbiomas. É bolsista de Produtividade em Pesquisa 2 do CNPq.

CORREIO: Há projeção do Geocovid do quanto os casos ativos podem crescer na Bahia após o São João? 

Washington Franca-Rocha: Já estão crescendo. Analisando os dados de Feira de Santana, os quais tive acesso, a soma de casos em sete dias dobrou, entre 23 e 28 de junho. No momento, não temos como fazer as projeções, pois o Brasil IO, base de dados que utilizamos, descontinuou a coleta integrada de informações, impossibilitando-nos de modelar os possíveis cenários. Nosso modelo foi programado para rodar dados do Brasil todo, por município. Os casos estão aparecendo com mais velocidade e o tempo de incubação parece menor. 

É uma consequência dos festejos de São João?

A maior velocidade é consequência do aumento da circulação do vírus, em decorrência do abandono das medidas de proteção. Quanto ao tempo de incubação, análises do Instituto Todos pela Saúde (ITpS) mostram aumento na frequência de casos prováveis das subvariantes BA.4 e BA.5 da Ômicron, de 44% a 79,3% em duas semanas, reflexo da rápida disseminação viral. Os festejos juninos só amplificaram essa tendência.

A situação epidemiológica atual é motivo de preocupação?

Certamente, pois significa aumento de circulação do vírus, com potencial para crescimento explosivo. Mesmo com baixa letalidade geral, implica no aumento de exposição a riscos para a parcela da população não imunizada. Já sabemos também que a circulação maciça do vírus pode levar à geração de variantes, que podem se tornar mais agressivas, por não serem contidas pelos imunizantes atuais.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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