Cenário de guerra na Bahia: mortes, hospital isolado, falta de luz e água e estradas destruídas

salvador
29.12.2021, 05:10:00
Travessia feita pelos Bombeiros da Paraíba e PM de corpos de pessoas que faleceram no hospital e precisam ser enterradas (Camila Souza/GOVBA)

Cenário de guerra na Bahia: mortes, hospital isolado, falta de luz e água e estradas destruídas

Já são 136 municípios em estado de emergência no estado; “A extensão da destruição é o que impressiona”, diz governador

Chegou a 136 o número de municípios que tiveram a situação de emergência reconhecida pelo governo da Bahia, devido às chuvas que atingem o interior baiano desde o final de novembro. A quantidade representa cerca de 32% do total de 417 cidades e a tragédia já é considerada a maior da história do estado, segundo o governador Rui Costa.

Na terça-feira (28), a Defesa Civil da Bahia (Sudec) confirmou a 21ª morte causada em decorrência dos temporais. Mateus Goes dos Santos, de 19 anos, morreu em Ilhéus, na noite de segunda-feira (27), ao tentar atravessar um rio no distrito de Itariri para ajudar sua família. O grupo de pessoas que perderam suas casas (desabrigados) soma 34.163, enquanto que 42.929 moradores estão desalojados, porque há risco de desabamento onde residem. O número de feridos permanece em 358, ainda segundo dados da Sudec.

A região atingida pelas chuvas vive um cenário de guerra. O Hospital Regional Costa do Cacau, em Ilhéus, ficou isolado na segunda-feira. Com a BR-415 com trechos interditados, a prefeitura pediu ajuda da Marinha e embarcações foram usadas para fazer transporte de pacientes, profissionais de saúde e até de caixões com corpos de pessoas que morreram na unidade médica. Também ajudaram no transporte bombeiros da Paraíba.

Travessia feita pelos Bombeiros da Paraíba e PM de corpos de pessoas que faleceram no hospital e precisam ser enterradas (Foto: Camila Souza/GOVBA)

Segundo o Comando do 2º Distrito Naval, houve dois pontos de bloqueio na estrada. Por conta disso, os militares da Capitania dos Portos de Ilhéus ajudaram no transporte e na logística para distribuição de mantimentos para quem estava ilhado no hospital. Na terça-feira, o acesso à unidade de saúde foi normalizada.

“A extensão da destruição é o que impressiona. Parece que houve uma guerra. As crateras, as barragens que foram levadas, as pontes, o dano à infraestrutura é enorme. Nossos técnicos estão avaliando os danos, mas ainda não temos esse dado concreto”, afirmou o governador Rui Costa.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), na terça-feira, foram registradas dez interdições em rodovias nas regiões sul, extremo sul e sudoeste do estado. Os problemas ocorrem devido a deslizamentos, afundamento de pistas e desmoronamentos.

Como se não bastasse os problemas que as chuvas na Bahia têm provocado, o Corpo de Bombeiros fez um alerta, na terça-feira, para fortes enchentes nas cidades de Itambé, Canavieiras, Mascote e Cândido Sales. O motivo do aumento do fluxo da água é a abertura das comportas da barragem Machado Mineiro, no Rio Pardo, em Minas Gerais. A orientação dos bombeiros é que a população de áreas ribeirinhas deixe as casas que estiverem em zonas de risco.

No escuro e sem água

A situação crítica provocada pelas fortes chuvas tem prejudicado o fornecimento de luz e o abastecimento de água em muitas localidades do estado. Áreas que fazem parte dos municípios de Itabuna, Ilhéus, Dário Meira e Jitaúna, no sul baiano, tiveram o fornecimento de energia desligado por questões de segurança.

De acordo com a Coelba, técnicos da distribuidora estão realizando inspeções e monitorando o acúmulo de água para reativar o serviço quando for seguro. O superintendente técnico da companhia, André Araújo, explica que, apesar do desconforto, a medida é necessária: “Precisamos fazer o desligamento de energia das residências onde o nível da água está próximo ou acima do medidor. Isto é feito por questões de segurança, pois, quando submerso, o aparelho pode provocar um curto-circuito e vazar corrente para as pessoas que estão próximas”.

Até o acesso à água está prejudicado. Inundação de estação de captação e tratamento, danificação e rompimentos de tubulações, além de destruição de bombas que captam águas dos rios e entupimento de equipamentos, são alguns dos fatores que, segundo a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), dificultam a vida de moradores de cidade que sofreram com alagamentos.

Casas alagadas no município de Gandu, as margens da BR 101 (Foto: Camila Souza GOV/BA)

A Embasa destaca, como grandes afetadas pela falta de água, as regiões do Vale do Jiquiriçá, Itabuna, Floresta Azul, Santa Cruz da Vitória e Firmino Alves. Enquanto o fornecimento não é restabelecido, a concessionária tem tentado contornar a situação com carros-pipa. Até terça-feira, 19 deles já haviam sido mobilizados.

Providências

Na terça-feira, o governo federal anunciou um repasse de R$ 200 milhões, por meio do Ministério da Infraestrutura, para a reconstrução de estradas e rodovias na Bahia e em mais quatros estados: Amazonas, Minas Gerais, Pará e São Paulo. A prioridade da verba é para restabelecimento do tráfego em 11 rodovias federais, sendo três delas na Bahia. 

A maior parte da verba (R$ 80 milhões) será destinada à Bahia e, segundo nota da Secretaria Geral da Presidência da República, será aplicada imediatamente, reforçando contratos já existentes ou emergenciais. Também nesta terça-feira, os ministros João Roma (Cidadania), Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), Marcelo Queiroga (Saúde) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), se reuniram em Ilhéus com o governador.

Após a reunião, Rui Costa afirmou que os repasses ainda são insuficientes: “Não é possível recuperar as estradas federais com R$ 80 milhões para o Nordeste”. O coordenador da bancada da Bahia no Congresso, deputado Marcelo Nilo (PSB-BA) chegou afirmar, após reunião com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que são necessários, pelo menos, R$ 2 bilhões para reconstruir as cidades atingidas na Bahia. Já são mais de 470 mil pessoas afetadas por enchentes, deslizamentos e outras consequências dos temporais.

O governo da Bahia também anunciou medidas para conter os rastros de destruição deixados pelas fortes chuvas. Um auxílio financeiro destinado às famílias atingidas será executado dentro do programa Estado Solidário, mas o valor e a data ainda não foram divulgados. Outra medida é a extensão da Tarifa Social da Embasa para todas as residências, comércios e prestadores de serviços que tiveram prejuízos com as enchentes nos municípios que decretaram situação de emergência por causa das chuvas.

O Ministério da Saúde vai repassar R$ 12,7 milhões a municípios afetados na Bahia e Minas Gerais. Para o estado baiano, valor repassado é de R$ 7 milhões. O aporte é do Fundo Nacional de Saúde e contemplará 50 cidades em situação de emergência ou calamidade pública.

Previsão

Em muitos locais em que as consequências das chuvas ainda castigam, a previsão é que mais chuva ocorra. Em Itabuna, que já registra um acumulado de 165 milímetros desde a véspera de Natal, é prevista chuva entre quinta (30) e sexta-feira (31), segundo o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE).

Em Ilhéus, a chuva deve dar trégua nos próximos dois dias, mas é prevista para voltar entre o último e primeiro dia do ano. Já em Itamaraju, cidade que mais registrou precipitações no Brasil em dezembro, com um acumulado de 796mm, deve continuar registrando temporais isolados durante a semana, podendo ter raios e trovões.

Na capital baiana, o tempo começa a melhorar e as chuvas, apesar de continuarem, terão volume reduzido, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). As chuvas em Salvador podem ser explicadas pela chamada de Zona de Convergência do Atlântico Sul (Zcas), intensificadas pelo fenômeno climático La Niña e pelo aumento da temperatura das águas dos oceanos.

Herói em Itabuna

Circulam, nas redes sociais, imagens de um homem resgatando pessoas ilhadas em casas em Itabuna com uma jangada. Os registros são do último domingo (26) e a pessoa, que chama atenção pela coragem e solidariedade, é Jean Paulo Neves, de 48 anos. Morador da cidade há 12 anos, o pescador conta que quando o nível da água subiu no final de semana, levou alguns de seus móveis para a casa do irmão e retirou sua esposa e filho de dez meses do local onde moram.

“Eu e meu irmão pegamos a jangada às 4h da manhã e saímos resgatando pessoas que estavam nas lajes no bairro Mangabinhas”, conta Jean, que deu cerca de 85 voltas e salvou mais de 100 pessoas. O morador conta ainda que acabou perdendo a sua casa, que desmoronou devido aos temporais. Ele agora está abrigado na casa de familiares e conta com doações que tem recebido de pessoas comovidas com a sua atitude: “A gente ficou só com os documentos e roupa do corpo, mas foi muito gratificante poder ajudar”, afirma o homem que acredita ter sido um “instrumento de Deus”.

Em Iguaí, no Centro-Sul do estado, oito pessoas, incluindo um casal de idosos e duas crianças, foram resgatadas com apoio de uma aeronave na manhã da terça-feira (28). O grupo, que também contava com três cachorros, estava ilhado por conta dos temporais, e foi resgatado por bombeiros militares de Sergipe, que atuam na Operação Sul, em conjunto com o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia.

Bombeiros resgatam grupo de pessoas e animais em Iguaí (Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros Militar da Bahia)

Medo e insônia

O medo de ter sua casa atingida foi relatado pela moradora de São Félix do Coribe, Norma Oliveira. A cidade é uma das 136 que decretaram estado de emergência por conta das chuvas e é banhada pelo Rio Corrente. “Nós, moradores, vivemos em uma situação de muita ansiedade, porque ora o nível do rio desce, ora sobe, não sabemos o que pode acontecer”, conta Norma, nascida na cidade.

Apesar de não ter sido diretamente afetada pelas chuvas deste mês, ela chegou a ter a casa, que mora com o filho, alagada em 2015 e, por isso, sente receio de que a situação se repita: “Nessas áreas têm muita água no subsolo, então sempre que chove forte inunda mesmo”, relata. Norma também diz que, além do medo, se sente mal por outras famílias que precisaram sair de suas casas: “A gente sofre assistindo, sabemos que toda a condição financeira é desestabilizada quando as pessoas precisam sair de casa”.

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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