Chuva derruba muro, assusta famílias e liga alerta máximo em Salvador

salvador
19.04.2022, 05:00:00
O acúmulo de água provocou a queda de um muro de contenção no Pero Vaz (Paula Fróes/CORREIO)

Chuva derruba muro, assusta famílias e liga alerta máximo em Salvador

Codesal registrou mais de 300 ocorrências nesta segunda; tempo ruim continua

A chuva que se prolongou durante o fim de semana não deu trégua nesta segunda-feira (18) e causou problemas aos soteropolitanos. Foram 337 ocorrências registradas pela Defesa Civil de Salvador (Codesal) ao longo do dia. Uma delas aconteceu na Travessa Nossa Senhora das Graças, no bairro de Pero Vaz, às 8h, quando o acúmulo de água provocou a queda de um muro de contenção. Apesar do susto, não houve feridos porque a terra que desceu com o muro não chegou a invadir residências que ficavam logo abaixo. 

O acidente, no entanto, não pegou ninguém desprevenido porque, de acordo com moradores, a Codesal tinha alertado as famílias da área sobre o risco de desabamento e todos estavam em alerta. "Até então, não tinha risco aqui. Só começou depois que teve uma infiltração há uma semana. Eles vieram ontem e deixaram o alerta de que o muro poderia descer com uma chuva forte. O pessoal estava consciente de que ia acontecer e, por isso, não teve vítima", conta Genival Silva, 49, segurança que mora em uma das casas próximas ao muro que cedeu. 

Também morador da travessa, Odebaldo Azevedo, 58, que é mais conhecido como Marinho, estava em casa com a família quando o muro caiu e falou do susto. "Moro aqui bem de junto onde caiu. Desceu tudo às 8h. A gente sabia do risco, mas tomamos um susto grande. Foi um estrondo enorme, parecia que o mundo estava acabando. O barulho foi muito forte, bateu o desespero. Com eu, minha esposa, minha filha e os netinhos tudo em casa. Aí saímos logo com medo", lembra Marinho, que está desempregado.

Ele voltou para pegar algumas roupas que a família deixou para trás ao sair às pressas. Apesar de cadastrado pela Codesal, por hoje, Marinho vai precisar da ajuda de familiares para abrigar quem mora com ele. "Eu vim para pegar umas coisas aqui, não podemos ficar. Não saímos antes porque sem lugar para ir não dava. Mas, nessa situação, vamos apelar para o pessoal da família. Vou para a casa da minha mãe que mora lá para cima", fala ele, com uma mochila nas costas.

Marinho deixou sua casa apenas com uma mochila

(Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

Capelinha de São Caetano e Lobato

Ainda mais cedo, por volta das 7h, a Codesal tinha ligado as sirenes de risco de deslizamento na Vila Picasso em Capelinha de São Caetano e no Lobato, colocando os dois bairros em alerta máximo devido ao acumulado de água acima 150mm em 72h e a previsão de chuva forte. A recomendação dos agentes do órgão era que os moradores de residências próximas a encostas fossem para uma creche do bairro que servia Dee alojamento até que a chuva passasse e o risco de deslizamento também.

No entanto, apenas uma família foi para o local. Débora Moura, 35, que trabalha com serviços gerais foi a única a ficar na creche com o filho Lucas de Souza, 11. "Eu vim porque a sirene tocou e eles chamaram. Fiquei preocupada porque é um risco e lá em casa tá caindo muita água. Então, vou ficar aqui com Lucas até a chuva parar e o pessoal aqui confirmar que é seguro retornar", afirma ela. Ainda segundo Débora, essa é a segunda vez em 2022 que ela precisa deixar a sua casa por conta das chuvas.

Rose Nascimento, 45, não foi para a creche, mas teve que sair de casa. Foi para o bairro de São Caetano a pedido da filha, que estava preocupada. Ela diz não ter medo da realidade que enfrenta quando chove. "Sempre foi assim, eu não costumo sair de casa porque nunca tive medo. Do que adianta eu sair para retornar? Pelo ambiente, é um risco. Porém, eu prefiro ficar, sou acostumada a viver conforme a situação em que estou. Vou porque eles vêm me buscar. Por minha vontade, eu ficava", diz.

Rose aguardava a filha para sair de casa

(Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

Cristovão Felix, 57, é funcionário público aposentado e mora na Vila Picasso há 35 anos. Ele não saiu de casa para o alojamento por acreditar que está em uma área de menos risco, mas admite estar com medo. "Toda vez que chove não dá para dormir. Eu moro em uma área mais distante da encosta, mas tenho medo, não vou mentir. A sirene toca e assusta todo mundo. É difícil viver assim com as água colocando a gente em risco. Mas não saí porque tô mais seguro, ainda não vi motivo para sair", fala o aposentado.

Redução de danos

Segundo informações da Prefeitura de Salvador, com a água que desceu nos últimos dias, a cidade já atingiu 81% da média de chuvas no mês de abril. Moradores de áreas de risco como Capelinha de São Caetano e do bairro do Lobato passam por treinamento para saber como agir em momentos como estes. A gestão municipal já acolheu 32 famílias que ficaram desabrigadas devido às fortes chuvas.

De acordo com a Codesal, existem orientações sobre qual caminho fazer e quais alojamentos estão disponíveis quando as sirenes são acionadas. Sosthenes Macêdo, diretor da Codesal, afirma que, mais do que preparar soteropolitanos para se protegerem em situações de risco, a gestão municipal tem tentado ao máximo evitá-las. "Desenvolvemos programas de capacitação dos moradores, executamos contenções de encosta, instalações de geomantas e diversas outras intervenções para deixar a cidade preparada para os dias atuais", afirma.

O diretor ainda dá detalhes do investimento feito na Operação Chuva, lançada pela administração municipal em março para coibir problemas causados pelo alto volume de água. "Para a Operação Chuva, o investimento supera a casa dos R$ 50 milhões. São intervenções urbanísticas, encostas, geomantas, poda de árvores e muitas outras atividades que envolvem diversas secretarias da prefeitura", completa.

Alerta máximo

A previsão da Codesal para os próximos dias ainda é de chuvas fortes, pelo menos, até a quarta-feira (20). O que deixa áreas de risco em alerta máximo até lá. Veja quais são elas:

  • Vila Picasso, em Capelinha de São Caetano;
  • Voluntários da Pátria, no bairro do Lobato;
  • Calabetão, em Bom Juá;
  • Mamede, no bairro Alto da Terezinha;
  • Baixa do Cacau, em São Caetano;

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas