Cidades do interior reforçam medidas para evitar explosão de casos de covid-19

bahia
23.06.2021, 05:00:00
Em Mucugê, barreiras sanitárias foram montadas (Divulgação)

Cidades do interior reforçam medidas para evitar explosão de casos de covid-19

Entre junho e julho de 2020, municípios chegaram a registrar mais de 600% de aumento de infectados

Após a experiência com o São João do ano passado, quando cidades do interior tiveram aglomerações e chegaram a registrar mais de 600% de aumento de casos de covid-19, o objetivo em 2021 é não repetir esse cenário. Para isso, agora as prefeituras reforçaram a fiscalização, fizeram campanhas de conscientização e adotaram novas estratégias para evitar um colapso nos hospitais, já que não há margem para aumento de infectados e os municípios não têm um sistema de saúde com estrutura adequada para suportar uma nova explosão.  

Cidades como Senhor do Bonfim, Cruz das Almas, Cachoeira, Amargosa, Santo Antônio de Jesus, Ibicuí e Mucugê, tradicionalmente conhecidas pelas festas, apresentaram uma alarmante alta de casos de covid-19 na comparação entre 20 de junho e 20 de julho de 2020, de acordo com dados retirados dos boletins da Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab). No quadro geral, a Bahia subiu de 45.304 para 123.292 casos confirmados, com aumento percentual de mais de 170% neste período. 

O maior percentual entre as sete cidades foi registrado em Cachoeira: 674%. A cidade passou, em um mês, de 27 para 209 casos confirmados. A preocupação para o São João já ligou o alerta por lá. Segundo a assessoria da prefeitura, um decreto foi publicado na última quarta-feira (16) proibindo a guerra de espadas, fogueiras e fogos de artifício. A entrada de turistas está suspensa até o dia 29 de junho. A prefeitura também informou que está realizando uma campanha educativa, através das redes sociais e rádios locais, para conscientizar a população. 

“Não estamos recomendando, estamos decretando que não aconteçam os festejos e tradições de São João; não é momento festivo”, diz a secretária de saúde de Cachoeira, Maria José Silva. Para a gestora, mesmo com o andamento da vacinação, ainda há motivos de sobra para preocupação. “Já sabemos das variantes e da doença atingindo os jovens. Temos uma UTI que foi inaugurada na cidade há uma semana e está com 100% de ocupação desde então”, acrescenta.

Maria José ressalta que, na próxima semana, serão inauguradas duas unidades de atendimento para pacientes com covid-19. Mesmo com esse esforço da prefeitura, ela diz que o papel da população é fundamental. “A gente precisa que as pessoas compreendam e atendam aos nossos pedidos, até mesmo para que seja possível realizar a festa no próximo ano”, finaliza a secretária.

Em Ibicuí, ordem é seguir o decreto estadual
O segundo percentual mais alto registrado entre junho e julho do ano passado foi o de Ibicuí, com 446%, saltando de 15 para 82 casos. O CORREIO entrou em contato com a prefeitura da cidade, mas não obteve retorno até o fechamento do texto. No entanto, nas redes sociais, a prefeitura informou que vai segui à risco todas as medidas vigentes no decreto estadual. Isso significa que, na cidade, está proibida a realização de festas e venda de bebidas alcoólicas a partir das 18h de hoje até às 5h do dia 28 de junho.

 

Logo em seguida vem o município de Amargosa. Por lá, o número de casos subiu de 22 para 119, um aumento de 440%. Ainda com as barreiras sanitárias nas entradas da cidade implementadas em 2020, chegou ao conhecimento da prefeitura que houve ocorrências de gente que driblou a fiscalização ingressando na cidade por vias marginais e através da zona rural. 

Para este ano, portanto, o foco da prefeitura será em outras medidas. “Vamos adotar uma estratégia diferente da do ano passado, já que as barreiras não foram tão efetivas porque Amargosa tem muitas estradas. A aposta desse ano é nos bloqueios nas ruas da cidade. Decretamos um toque de recolher a partir das 18h até às 5h do dia seguinte e o fechamento total de todos os bares até o dia 30 de junho”, disse o prefeito Júlio Pinheiro (PT). 

“Já estamos com aumento do número de casos de covid mesmo antes do São João, então o risco de uma explosão de infecções pós-festejos”, alertou o prefeito. Mas Pinheiro destaca que, mesmo com as diversas medidas, é quase impossível que aglomerações não aconteçam. “Queremos minimizar os efeitos das aglomerações porque sabemos que são inevitáveis. Mesmo sem as festas oficiais, parentes e amigos de moradores vêm para a cidade. É uma questão cultural difícil de ser desestimulada. Justamente por isso a gente se preocupa”, finaliza. 

Na Chapada Diamantina, Mucugê aposta em barreiras sanitárias
Em Mucugê, o aumento foi de 325%. Localizado na Chapada Diamantina, o município de pouco mais de 9 mil habitantes saltou de 4 para 17 infectados. Para evitar que isso se repita, a prefeitura iniciou a Campanha São João Seguro com intuito reforçar o uso da máscara, higienização das mãos, evitar contato físico, respeitar o distanciamento social e não realizar ou participar de festas clandestinas e aglomerações em casa.

Para isso, neste último sábado (19), começaram os trabalhos nas barreiras sanitárias localizadas nas entradas da cidade. "Além disso, contamos com: fiscalizações nas ruas através da Vigilância Sanitáriaria e da Polícia Militar. Por meio de carros de som, divulgamos orientações dos decretos municipais, que seguem o estadual. A Secretaria de Saúde trabalha arduamente para que as medidas de prevenção sejam sempre compridas, até porque a luta contra a covid não é unilateral e uma população conscientizada é uma população segura", disse a prefeitura, em nota. 

Mesmo sem festas, ruas de Mucugê foram decoradas (Foto: Divulgação)

Já em Cruz das Almas, o crescimento foi de 65 para 275, ou seja, de 323%. Nesta segunda (21), 142 camisas de um bloco junino que aconteceria no dia 24 foram apreendidas na cidade. A festa foi descoberta por policiais da Delegacia Territorial (DT) do município, que cumpriram mandado de busca e apreensão na casa do organizador do evento, onde também foi encontrado um caderno de anotações de compra e venda dos abadás. 

O Secretário de saúde da cidade, Sandro Borges, também destaca o perigo do aumento de casos que os festejos de São João podem provocar. “Toda a região aqui tem tido um aumento de casos e Cruz das Almas não fica de fora disso. E não adianta o poder público manter leito de UTI, estrutura de atendimento para covid. Se a população não se conscientizar, eles podem não ser suficientes e, de qualquer forma, não são garantia de vidas salvas”, diz o secretário.

“A pandemia ainda não passou. Apesar de todo mundo já saber das medidas preventivas, as pessoas acabam se descuidando e aí acontece o aumento de casos. No período junino, as pessoas querem estar juntas, querem se aglomerar, mas o momento não é oportuno, precisamos esperar. Nossa preocupação principal é fazer com a que a população entenda e embarque nessa prevenção junto com a gente”, coloca Borges.

Santo Antônio de Jesus tem histórico de aglomeração no São João
Em Santo Antônio de Jesus, os números após o São João do ano passado saltaram de 226 para 909, um aumento de 302%. Também mesmo com a montagem de barreiras sanitárias nas entradas da cidade com apoio da Polícia Militar, foram registradas festividades volumosas e paredões de som com famílias reunidas. 

A principal ocorrência do ano passado aconteceu no dia 21 de junho e foi noticiada inicialmente pelo site local Andaia. Mais de cem pessoas se aglomeravam em um forró no bairro da Juerana, na zona rural, a cerca de 5 km do centro da cidade, descumprindo as regras de isolamento, o afastamento social e o toque de recolher das 20h às 5h. Procurada pelo CORREIO, a prefeitura de Santo Antônio de Jesus não respondeu sobre as medidas preventivas adotadas para o período de São João deste ano. 

Em Senhor do Bonfim, o número de infectados pulou de 78 para 214 nestes 30 dias (174%). A secretária de saúde do município, Renata Maia, também demonstrou preocupação com a possível explosão do número de casos após os festejos. “Hoje temos 16 pacientes internados em UTI, o que representa uma taxa de ocupação de 80%. Se as aglomerações acontecerem, os casos vão aumentar, isso é algo comprovado cientificamente. Então estamos fazendo o possível para evitar que o cenário do ano passado se repita”, afirmou. 

“Tivemos uma reunião com o Ministério Público e o delegado de polícia do município na semana passada para tratar das medidas que seriam tomadas em relação ao São João. Nós não faremos festejos oficiais, vamos intensificar a fiscalização nas ruas, a vigilância sanitária está fazendo distribuição de máscaras e o prefeito decretou que o feriado será somente no dia 24, não se estendendo para o dia 25, para evitar que as pessoas viagem e façam festas”, acrescentou a secretária.

Reflexo de aglomerações no São João podem ser sentidas em julho
Os cientistas do Portal Geocovid projetam 2,5 mil mortes pela doença na Bahia para junho de 2021. Até o boletim do dia 21, o estado registrava 1.925 mortes. Mas, de acordo com autoridades de saúde, os reflexos do período festivo devem aparecer após 15 a 30 dias. O governador Rui Costa já demonstrou preocupação com a situação da Bahia em julho, por conta do cenário atual e pensando no período pós-São João. 

Durante a inauguração de policlínica em Eunápolis, no sul da Bahia, no último dia 10, Rui disse que pode haver um aumento significativo de casos e que o número de leitos pode não ser suficiente. Para o governador, se isso vai acontecer ou não, "depende do comportamento das pessoas" durante o período junino. "Já vimos que até pequenas aglomerações como no Dia das Mães afeta nos índices", explicou. 

Por determinação do governo estadual, nenhuma cidade pode promover festas públicas durante o São João. As festas particulares também estão suspensas, independentemente do número de pessoas. Alguns municípios também estabeleceram decretos para tentar conter as aglomerações durante as festividades juninas. 

Fogueiras estão proibidas em municípios do interior 
Em Mata de São João, um decreto com medidas restritivas de combate ao coronavírus proibiu a montagem e acendimento de fogueiras em toda a cidade, que fica na região metropolitana de Salvador. As cidades de Coaraci, Almadina e Itapitanga, no sul da Bahia, também não poderão ter fogueira, nem fogos de artifício após prefeituras atenderem recomendação do Ministério Público Estadual (MP-BA).

Para cumprir com as medidas, os municípios precisarão suspender a concessão de alvarás para barracas de venda de fogos, além de proibir toda e qualquer comercialização dos artigos. Quanto aos festejos, a Polícia Militar e as Guardas Municipais de cada uma das cidades foram acionadas para aumentar a fiscalização de eventuais aglomerações.

Em decreto divulgado pela prefeitura de Coaraci, foi definido a proibição, em todo território municipal, de quaisquer festejos juninos, tais como: acender fogueiras em espaços públicos e privados; soltar fogos de artifício; eventos festivos pertinentes ao período, como shows musicais e quadrilhas; e concessão de espaços públicos para realização de eventos particulares. 

Para garantir a adoção das medidas, foi determinado que haverá fiscalizações nas ruas para impedir o acendimento de fogueiras, com a aplicação de multa e desmanche em caso de descumprimento. Além da Guarda Municipal e da Polícia Militar da Bahia, fiscais da Vigilância Sanitária e os destacados pelo Poder Público - Fiscal Covid-19, foram mobilizados para garantir o cumprimento do decreto.

Uma ação integrada entre a Guarda Municipal e a Polícia Militar vai impedir a comercialização de fogueiras em Feira de Santana. O trabalho visa cumprir o decreto municipal publicado no Diário Oficial Eletrônico da última segunda-feira (21), pelo prefeito Colbert Filho. Denominada "Operação Fogueira", a fiscalização terá a participação de duas companhias da Polícia Militar e prepostos da Guarda Municipal. 

Segundo a comandante da Guarda Municipal, Cássia Dias, os guardas municipais estarão nas ruas na Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) a fim de constatar o cumprimento do toque de recolher até a próxima segunda-feira, 28, sempre das 20h às 5h. "Esse é um momento atípico por conta da pandemia e a intenção é coibir as aglomerações", ressalta. Desta forma, eventos e atividades com a presença de público permanecem suspensos. A venda de bebida alcoólica também está proibida durante o toque de recolher. 

PGJ quer impedir festas com aglomerações nesse São João
A Procuradoria Geral de Justiça (PGJ) expediu recomendação-geral aos promotores de Justiça para que os municípios adotem medidas que impeçam a realização de festejos juninos com aglomerações de pessoas. A recomendação vale para qualquer evento presencial público, planejado ou patrocinado pelo município, que se destine às tradicionais comemorações juninas e gere aglomerações, independentemente do número de participantes, com ou sem comercialização de ingresso. 

Além disso, foi recomendada a revogação de quaisquer autorizações e alvarás sanitários eventualmente expedidos para a realização de festejos juninos privados que importem em aglomeração de pessoas, com ou sem comercialização de ingresso, em ambientes públicos ou privados de qualquer natureza, independentemente do número de participantes. 

Vale ressaltar que o governo da Bahia suspendeu a venda de bebida alcoólica das 18h de sexta-feira (18) até as 5h de segunda (21) e também no período do São João, das 18h do dia 23 até as 5h de 28 de junho. Além disso, o transporte intermunicipal também será interrompido durante o São João.

Procurada pelo CORREIO para responder sobre as ações previstas para coibir as aglomerações durante o São João na Bahia, a Polícia Militar informou que contará com um aporte de 7500 PMs em todo estado, reforçando o policiamento entre os dias 23 e 27 de junho. O foco da operação será no interior, em especial em cidades como Amargosa, Santo Antônio de Jesus e Senhor do Bonfim. Na capital, a operação concentrará 500 policiais além daqueles que já fazem parte dos serviços diários já existentes.

Em caso de desrespeito aos decretos, os cidadãos devem realizar denúncias através do número 190 ou do disque-denúncia no número 181 (válido para toda a Bahia).

Guerra de espadas tambémm estão proibidas
Uma prática junina que vem preocupando gestores das cidades baianas é a guerra de espadas. Mesmo proibida desde 2011, muitos espadeiros insistem em dar continuidade à tradição, que sempre provoca aglomerações, atrai turistas e pode, até mesmo, causar ferimentos e aumentar a demanda por atendimento nos hospitais.  

Segundo informações da TV Bahia, já houve registro este ano de dois dias de guerra de espadas e brincadeiras com fogos de artifício em Cruz das Almas. O primeiro aconteceu no dia 1º de junho, provocando aglomeração na Rua Ruy Barbosa. Vídeos circularam nas redes sociais mostrando pessoas reunidas e espadeiros também soltando rojões. 

No último final de semana, mais um registro de ilegalidade por lá. Um vídeo mostra a Rua Arapiraca completamente tomada pelas faíscas das espadas por volta das 22h de sábado (19). Segundo os moradores, no dia seguinte também houve guerra de espadas em outras localidades da cidade durante todo o dia. Por lá, alguns moradores chegaram a colocar tapumes nas portas e janelas das casas para se proteger dos riscos que a prática pode provocar.

Para o secretário de planejamento e desenvolvimento econômico de Cruz das Almas, Euricles Neto, a prática persiste, mesmo sendo proibida na cidade, e acaba se tornando uma preocupação a mais durante o período de pandemia. “A guerra de espadas está proibida, mas, mesmo assim, nesses 10 anos, nunca deixamos de ter essa prática aqui em Cruz das Almas. Todos os anos, a guerra acontece e as pessoas vão às ruas, ainda que correndo o risco de sofrer os rigores da lei”, diz.

O secretário destaca as ações que vêm sendo feitas desde o ano passado e que terão continuidade neste ano de 2021 para tentar coibir a prática. “O que o poder público municipal pode fazer é dar apoio ao Ministério Público Estadual e às polícias militar e civil com decretos e direcionamentos para fiscalização”, afirma. Mesmo que o prejuízo econômico estimado para 2021 no município de Cruz das Almas seja de R$ 50 milhões por conta da ausência dos festejos, o secretário reafirma a necessidade de seguir os decretos e determinações de segurança.

“Nesse momento, mais do que nunca, a gente vem fazendo uma campanha apelativa para que os irmãos e irmãs espadeiros não soltem as espadas e não aglomerem. Nós estamos bastante temerosos porque a espada é um atrativo turístico, as pessoas vêm ver e tudo isso gera aglomeração. Esperamos contar com o apoio da população”, finaliza Neto.

Em Senhor do Bonfim, a prática também é tradição, mas está proibida desde 2017. Segundo a secretária de desenvolvimento econômico Ana Cláudia Matos, a prefeitura segue monitorando e tentando coibir as ações. “Nós temos uma força tarefa do poder público municipal para fiscalizar isso. A ação envolve a Guarda Municipal, a Vigilância Sanitária, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e o órgão de trânsito municipal”, afirma a secretária.

“A gente também trabalha para disseminar informação e promover a conscientização da população. Fazemos distribuição de máscaras nas praças e circulação de carro de som e utilizamos nossas redes sociais. Aí, junto com a Polícia Militar, fazemos a fiscalização”, acrescenta Ana Cláudia. A secretária também divulga o canal através do qual a população pode denunciar qualquer irregularidade ou descumprimento de determinações locais. O telefone é o (74)99161651.  

Mesmo com um prejuízo econômico elevado por conta da ausência das festas, estimado em mais de 15 milhões de reais para Senhor do Bonfim, a secretária também defende a importância de seguir as determinações e ligar o alerta para a pandemia. “Estamos seguindo o governo estadual e fechando bares nos finais de semana, proibindo bebida alcoólica, intensificando a fiscalização, além do fato de os ônibus intermunicipais estarem suspensos. Isso tudo conta para evitar a proliferação do vírus após esse período de São João”, finaliza a secretária.

De acordo com o Ministério Público Estadual (MP-BA), fabricar, possuir e soltar espadas é crime cuja pena pode chegar a até seis anos de prisão. A fabricação, comercialização e a utilização do artefato são vedadas em diversos diplomas legais, como o Código Penal, Estatuto do Desarmamento, Lei de Crimes Ambientais e Código de Defesa do Consumidor. 

Associação defende regulamentação da prática
Até mesmo alguns espadeiros compreendem que não é o momento para guerra de espadas. O presidente da Associação Cultural de Espadeiros de Senhor do Bonfim (Acesb), Darlan Valverde, afirma que a associação não defende que a guerra aconteça enquanto estiver proibida, ainda mais durante a pandemia e que, para coibir a prática, vem promovendo diversas ações durante o período de São João. 

“As pessoas precisam esperar que o artefato seja regulamentado e que a pandemia acabe para que a gente possa, finalmente, seguir com a nossa prática cultural. A gente já está arrecadando máscaras e álcool em gel para fazer a distribuição e continuar o trabalho de conscientização. Infelizmente, temos algumas pessoas que acabam subvertendo as determinações, mas a maioria esmagadora das pessoas atendem ao nosso apelo e permanecem em casa”, finaliza. 

A proibição, no entanto, vem sendo contestada. “A guerra de espadas é uma prática secular da região e envolve o conhecimento que é passado de geração em geração. Além disso, existem famílias que se sustentam com a movimentação econômica que a prática gera. A espada não é uma arma de fogo. Estamos tentando adequar o artefato dentro das exigências dos órgãos para regulamentar a guerra de espadas”, defende Valverde.

Queimaduras são fator de perigo no São João
As autoridades de saúde alertam que, durante o período de São João, os casos de queimaduras aumentam consideravelmente. Segundo dados da Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab), de 20 a 25 de junho de 2020, o Hospital Geral do Estado (HGE), referência no atendimento de casos de queimadura, registrou 42 ocorrências. No mesmo período de 2019, o número foi ainda maior: 88 casos. Além das queimaduras aumentarem a demanda pelo sistema de saúde em plena pandemia, a queima de fogos está associada à fumaça, que pode trazer prejuízos ao sistema respiratório, agravando o quadro de quem já está infectado com a covid-19.

O cirurgião plástico e diretor científico da Sociedade Brasileira de Queimaduras - Regional Bahia (SBQ-BA), Vitor Felzemburgh, destaca os riscos à saúde que a queima de fogos de artifício podem causar. “As bombas e fogos têm pólvora, que podem explodir. Então é muito comum vermos explosão de bomba ou de espada na mão das pessoas. Essas lesões causam alterações motoras irreversíveis, com perda de dedos ou até mesmo da mão toda”, alerta. 

O cirurgião também ressalta os perigos das guerras de espadas. “A espada pode causar queimadura, lesão por explosão e mal funcionamento ou ainda lesão por trauma. Conheço casos de pacientes que perderam o globo ocular por conta de uma espada que foi diretamente no olho e teve um impacto muito grande”, diz. 

Felzemburgh explica que também sobre as consequências das queimaduras. “As queimaduras por espada, bomba ou fogueira, geralmente, são de segundo grau, ou seja, provoca bolhas e machucados. Às vezes, também pode ser de terceiro grau, quando acomete, além da pele, também músculo e osso. Tudo depende da fonte de calor e, no caso da pólvora, é uma fonte de calor muito grande, bastante perigosa”, pontua. 

“As queimaduras acometem muito as crianças. Muitas daquelas roupinhas de festejos juninos são de alguma fibra sintética e isso, com qualquer fonte de calor, mesmo que não muito elevado, entra em chamas e se espalha muito rápido, causando graves lesões”, lembra o diretor da SBQ-BA, que traz ainda mais um alerta para o uso de álcool em gel. 

“Tem aumentado de uma forma absurda o número de atendimentos nas enfermarias de queimaduras provocadas pelo mau uso desse recurso. As pessoas, às vezes, passam álcool em gel e esquecem que aquilo é inflamável e vão manusear uma panela no fogo, por exemplo. Isso causa queimaduras. Então é preciso alertar que devemos usar o álcool, mas saber que ele é inflamável e mantermos os cuidados após a aplicação, principalmente durante o São João”, finaliza Felzemburgh.  

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro e colaboração de Daniel Aloisio

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