Coach bruto: veja o que está por trás desse discurso que atrai cada vez mais seguidores

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01.11.2020, 07:00:00
Atualizado: 03.11.2020, 18:46:36
(Foto: Shutterstock)

Coach bruto: veja o que está por trás desse discurso que atrai cada vez mais seguidores

Sem 'mimimi'? Polêmico, duro e em alguns casos, até agressivo. Especialistas comentam a construção dessa abordagem

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“Eu recebo muitas críticas diariamente. Que sou estúpido, grosseiro, arrogante, mal-educado. Antigamente eu ficava puto, hoje não fico mais. Não tenho que agradar todo mundo. Deus não agradou, né?”, diz o coach e ex-nutricionista do Flamengo, Thiago Monteiro (@thiagomonteironutricao), ou o ‘Nutri Fofo’, como é conhecido nas redes. Ele acumula mais de 640 mil seguidores só no seu perfil no Instagram.

Com uma abordagem nem tão fofa assim, Thiago admite que tem um discurso mais duro e, às vezes, até agressivo. “Tenho esse jeito duro, mais agressivo para que a pessoa transforme a vida dela. Hoje você pega minha rede social e tem palavrões sim. Só que antes tinha muito mais”. 

Thiago Monteiro,  conhecido como o ‘nutri fofo’, tem 643 mil seguidores
(Imagem: Reprodução)

Assim como Thiago, outros coachs com uma abordagem pesada acumulam milhares, ou até milhões de seguidores na internet, muito diferente do coach tradicional, paz e amor (veja ao longo da matéria algumas postagens). “A minha mensagem é motivacional”, garante.

O CORREIO tentou ouvir também outros perfis que se identificam como de desenvolvimento pessoal e que são conhecidos por esse discurso, entre eles,  Wendell Carvalho (@wendellcarvalho) e Italo Marsili (@italomarsili), que juntos somam 5,8 milhões de seguidores. No entanto, eles não retornaram os contatos feitos pela reportagem. 

Italo Marsili em uma postagem feita dia 16 de outubro
(Imagem: Reprodução)

Mais de quatro milhões seguem Wendell Carvalho. Muita gente deve se lembrar da polêmica gerada pelo vídeo do Grito da Masculinidade que viralizou nas redes nos últimos meses. O assunto rendeu críticas de incitação à masculinidade tóxica.

O coach comentou a repercussão em entrevista à Jovem Pan: “O que eu defendo claramente é que está acabando a virilidade e a agressividade nos homens e a agressividade é fundamental dentro de um homem. Mas um homem tem quer ser agressivo com a sua agressividade contida, controlada, não-violenta”, disse. Foram 437 mil visualizações em seu perfil. 

Mais uma postagem de Wendell Carvalho, que tem 4,7 milhões de seguidores no Instagram
(Imagem: Reprodução)

O assistente administrativo Marcel Ricardo, de 41 anos, é um dos seguidores de Wendell nas redes sociais. “Para quem sempre teve um pai duro, que empurrou para frente, a linguagem deles é familiar e não tira pedaço nenhum”, diz.

 Discurso 
A pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Análise do Discurso e Mídia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Tâmara Terso, analisa que a construção desses discursos tem a ver com uma disputa de valores na web.

“Quando Wendell incita o grito, ele convoca um discurso que naturaliza a agressividade do homem e esse tipo de discurso tem circulado muito nas redes, enquanto cresce também, o discurso do questionamento das masculinidades tóxicas, violência doméstica, violências sexistas e misoginia”.

Recursos linguísticos polêmicos costumam ser disruptivos e, por isso, chamam atenção, como pontua a estrategista digital e professora do curso de pós-graduação em Mídias Sociais da Unijorge, Rebecca Lyrio. “A linguagem é imperativa, quase como um comando de obediência imediata”. 

 “Homens masculinos gostam de mulheres independentes desde que elas sejam femininas”, diz Wendell Carvalho. O vídeo tem 1.232 comentários
(Imagem: Reprodução)

O professor de marketing digital da ESPM Porto Alegre, João Finamor, concorda. “Se os ‘valores’ da mensagem soam semelhantes ao modo de pensar daquela pessoa, ela vai se conectar. É a famosa ‘minha verdade’”.

O pintor automotivo Geovane Silva, 23 anos, é um que costuma acompanhar as postagens e explica por que gosta: “Um choque de realidade me ajuda a não abandonar meus sonhos”. A empresária Ana Paula Santos, de 33 anos, também conta qual o seu motivo para seguir esses perfis. “Sempre procrastino e isso estava prejudicando meus resultados”, diz.

Outra postagem de Marsili nas redes sociais
(Imagem: Reprodução)

Segue quem quer 
A coach esportiva que acompanha há oito anos a judoca e campeã olímpica Rafaela Silva, Nell Salgado, também é adepta do palavrão e de um discurso firme. “Se eu digo você é bom para caramba, é diferente de eu dizer você é ‘foda’ para ‘caralho’. Dentro do cérebro, a gente recebe isso de forma diferenciada”, explica. Mais de 34,9 mil pessoas seguem o perfil (@nellsalgado).

A ideia é impactar mesmo. “Eu vou atrair para mim o tipo de público que quero, o ‘faca na caveira’, o cara ‘foda’ com padrão mental de campeão. O resto é ‘mimimi’. Eu tenho que ter respeito, independente de quem é o outro, mesmo com essa abordagem. O meu discurso é sempre de amor, de troca, empatia. É essa mensagem que eu quero passar. Vai ser difícil sim, bravo, sinistro, mas porque vai valer a pena”. 

 O vídeo de Nell Salgado teve 7.088 visualizações, 48 comentários
(Imagem: Reprodução)

O psicoterapeuta especialista em gestão emocional, controle do estresse e da ansiedade, Diego Wildberger, explica como funciona esse choque.

“A maneira enérgica é também uma forma de quebrar um padrão mental e comportamental. A mente é programada de acordo com três fundamentos: imagem, forte impacto emocional e repetição”.

Nem todos, no entanto, seguem o padrão. “Alguns reagem com hostilidade. Também existe a possibilidade de se motivar por essa abordagem. Cada indivíduo é diferente”, reforça a psiquiatra da clínica Holiste, Livia Castelo Branco.

Master coach, Fernanda Chaud (@fernandachaud) argumenta que dá para equilibrar a visão positiva com o discurso duro. É a proposta do seu perfil que tem  65,3 mil seguidores.

Fernanda Chaud: “Querida, não me interprete mal, se não dá produtividade corta”
(Imagem: Reprodução)

“As pessoas não se motivam apenas por prazer, mas também por dor. Uma coisa não exclui a outra. Eu compartilho o que acredito”.


CURSOS DE FORMAÇÃO DIVIDEM OPINIÕES

Se por um lado a Sociedade Brasileira de Coaching (SBCoaching) afirma que cada profissional tem sua própria abordagem, a credenciadora International Coaching Federation (ICF) condena a conduta.

Segundo a master coach, franqueada e trainer oficial da SBCoaching, Liamar Fernandes, apesar de não ser adepta da postura mais severa, ela ressalta que existe sim, uma divisão entre o grupo mais sensível e o grupo mais duro.

“Precisa ter pessoas para todos os níveis, todos os tipos. A SBC não fala de recomendação, a gente não ensina essa abordagem, agora, existe sim, cursos de vendas, por exemplo, que trazem uma proposta mais agressiva para vender. É uma pegada diferente”.

Já o presidente do ICF no Brasil, Marcus Baptista, não é favorável ao discurso ‘bruto’. “O bom coach será sempre  comprometido com o genuíno interesse no desenvolvimento do outro”, diz. Para a presidente da regional ICF na Bahia, Meiry Santana, é possível encorajar sem ser rude.

“Temos uma página dedicada apenas à abordagem que melhor representa o profissional”.

Em quatro anos, o número de coachs certificados no Brasil pulou de 25 mil para 44 mil — crescimento de 76%, segundo a SBCoaching. Cerca de 1.158 alunos foram formados na Bahia.
 

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