Colmeia no Barbalho tinha 40 mil abelhas; idosa morreu após ataque

bahia
13.03.2019, 16:45:00
Atualizado: 13.03.2019, 22:29:48

Colmeia no Barbalho tinha 40 mil abelhas; idosa morreu após ataque

Irmão, Bira do Jegue lamenta a morte: 'Podia ter sido eu'

Idosa foi atacada pelas abelhas em casa; insetos invadiram cinco imóveis no Barbalho (Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

Quando o folclórico artista de rua Bira do Jegue saiu de casa na última sexta-feira (8), em direção a Ondina, para mais um dia de trabalho, caracterizado de Charlie Chaplin, não podia imaginar a notícia que receberia quando retornasse para casa. A irmã dele, que morava na mesma rua, a aposentada Igna Santos, 74 anos, estava morta. Ela foi vítima de um ataque de centenas de abelhas, quando estava dentro da própria residência, no bairro do Barbalho.

A colmeia que estava a cerca de quatro metros da casa da idosa tinha aproximadamente 40 mil abelhas, segundo aponta o apicultor Sérgio Carmo, proprietário da empresa SOS Abelhas e responsável pela retirada do enxame do local. Segundo relato de vizinhos, os médicos que prestaram socorro informaram que a idosa foi picada por aproximadamente 500 abelhas.

De luto, Bira, que tem como nome de batismo Ubirajara Tavares Gomes, lamentou o fato.

“Podia ter sido eu. Ela estava varrendo a frente da casa dela. Poderia ter sido qualquer um dali. Ela morava do meu lado. Ficou toda inchada. Se eu estivesse na hora, teria acudido ela. O que eu quero é justiça. Não pode ficar assim”, disse Bira.

O artista de rua culpa o Atakarejo pela morte, já que a empresa está fazendo uma obra no local. Bira ainda afirma que o estabelecimento, durante as intervenções, invadiu o loteamento, o que provocou o ataque do enxame à sua irmã.

“Eles estão fazendo uma obra e descobrimos que lá tinha um monte de abelhas. Eles estão entrando na terra dos outros. Entraram no lugar que tinha abelha que acabou indo atrás da minha irmã”, lamentou Bira.

O sepultamento de Igna Santos, que era viúva e não tinha filhos, ocorreu nessa terça-feira (12), no Cemitério Municipal de Plataforma, no Subúrbio. Bira conta que, por conta do ataque, o corpo de sua irmã inchou de tal forma que um caixão inicial, que havia sido comprado, precisou ser trocado por outro, por conta da expansão do corpo dela.

Agora, Bira do Jegue quer justiça. Nesta quarta-feira (13), ele entrou em contato com a Defensoria Pública, que marcou uma nova reunião para o dia 10 de abril. No atestado de óbito de Igna, consta que ela morreu de "choque anafilático provocado por abelhas". A responsabilização pela morte será questionada.

“A culpa foi deles, do Atakarejo. Eu vou entrar na justiça porque foi uma vida, né? Não pode ficar assim”, criticou.

De acordo com a família, o funeral de Dona Igna foi custeado pelo estabelecimento, que, um dia após a morte, pagou para que uma empresa especializada fizesse a remoção da colmeia do local. Em nota, o Atakarejo confirmou apenas que custeou a remoção das abelhas, mas não comentou sobre o funeral.

Vizinhos buscaram ajuda
Vizinha de Igna, a dona de casa Maria José Ferreira, 49, contou ao CORREIO que, antes da morte da idosa, os próprios moradores da região procuraram o Atakarejo para tentar solucionar o caso. “Chamamos uma empresa na quinta-feira, um dia antes do ataque, que fez um orçamento. Nós levamos para os responsáveis pela obra”, lembra.

A informação foi confirmada pelo proprietário da empresa SOS Abelhas, o apicultor Sérgio Carmo. “O pessoal tinha me acionado e eu estive lá no dia 28, no Carnaval. Eu relatei a eles a situação, o procedimento que precisava ser feito para fazer a remoção e eles não me procuraram mais até o dia 8, que foi quando ocorreu a situação do incidente, quando o pessoal do Atakarejo autorizou a retirada. A colmeia estava dentro de uma caixa de esgoto desativada. Precisou usar uma máquina para abrir a caixa e capturar o enxame, que era grande”, explicou.

Abelhas estavam irritadas, apontam especialistas
As cerca de 40 mil abelhas que se agrupavam no local foram capturadas e levadas para o apiário dele. Sérgio não sabe o que motivou o ataque, mas acredita que alguma movimentação das máquinas tenha irritado os insetos.

“As abelhas saíram procurando quem foi que atiçou sua colmeia e, infelizmente, em decorrência da distância do local do imóvel da senhora, de uns quatro metros, ela acabou sendo o alvo dos animais. A abelha pode ir até 600 metros, tentando ferroar as pessoas. Quem estava mais próximo foi atingido”, disse ele, que acredita que os bichos se sentiram atraídos pelo cheiro ou perfume da aposentada. 

O conselheiro da Câmara Setorial de Apicultura e Meliponicultura e apicultor Rogério Alves afirmou que, para que as abelhas tenham atacado, uma interferência na colônia deve ter sido feita. “Se tiver tido algum barulho estranho ou até mesmo algum movimento diferente, elas já podem ficar irritadas”, disse ele, que afirmou que a espécie dos insetos no país são as africanizadas.

Ele explicou como acontece a morte por causa da picada de abelhas. “Tem quem morra com uma ferroada e quem morra 500. Óbvio que, quando mais veneno, pior”, disse o apicultor. O verão também é um período mais propenso a ataques de abelha, por conta do calor. 

Local onde tinha colmeia está em obras (Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

Salvador não tem entidade pública especializada
Em 10 anos, foram registrados 5.866 casos de pessoas atacadas por abelha que procuraram atendimento médico. Os dados são de 2008 a 2017. Somente em 2017, foram 830 casos no estado. Os óbitos, no entanto, são poucos: de 2006 até 2017 foram 36 óbitos. Em 2017 foram três óbitos por ataque de abelhas. Em todo o Brasil, 2017 registrou 52 casos de pessoas que não resistiram aos ataques dos insetos. 

Segundo a SOS Abelha, atualmente, o maior número de chamadas recebidas é do bairro de Stella Maris. Eles destacam ainda que, locais com muitas árvores, próximos a parque ou com muitas flores por perto, atraem mais os bichos.

O conselheiro da Câmara Setorial de Apicultura e Meliponicultura destacou que Salvador sofre com a questão da remoção de colmeias, por conta da falta de uma entidade pública especializada nisso. “A Câmara está com essa demanda há algum tempo. Nós fomos atrás da Polícia e Proteção Ambiental (Coppa), ligada à Polícia Militar da Bahia, também fomos atrás do Corpo de Bombeiros, mas ninguém quer ficar com isso”, disse.

Na ausência de um órgão público, a Câmara atende ligações de pessoas que estejam com o problema e informa a apicultores que fiquem próximos ao local e que possam se voluntariar para retirar os animais do local. Os telefones são (71) 3115-2711 e (71) 3115-2742.

“As leis sugerem que os responsáveis são os órgãos ambientais. Quem era capacitada, era a Polícia Ambiental, além dos Bombeiros, mas eles não fazem mais”, disse Rogério Alves. Em Feira de Santana, dois grandes apiários são chamados nestes casos. Em Cruz das Almas, a UFRB possui o projeto SOS Abelha, que retira as colmeias da cidade e de cidades próximas”, disse.

Em nota ao CORREIO, a Coppa informou que tem como missão “coibir crimes ambientais” e que “não compete à referida unidade da Polícia Militar fazer o manejo de animais sinantrópicos - a exemplo de abelhas, conforme Instrução Normativa do Ibama nº 141/2006”.

Apesar do posicionamento da companhia, o documento do Ibama diz que “fica facultado aos órgãos de segurança pública, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil, o manejo e o controle da fauna sinantrópica nociva, sempre que esta representar risco iminente para a população”.

A mesma instrução assegura que pessoas físicas e jurídicas habilitadas possam fazer o controle desses animais, sem a necessidade de autorização do Ibama.

Em 2016, o Ministério Público da Bahia expediu uma nota técnica orientando promotores e órgãos públicos a respeito do manejo das chamadas abelhas africanizadas, por representarem risco à saúde pública.

O CORREIO tentou contato com o Ministério Público sobre o resultado da nota técnica, mas não obteve respostas até a publicação desta reportagem.

O que o veneno das abelhas pode provocar no corpo humano?
Efeitos do veneno - A histamina, a melitina e outras enzimas conhecidas como hialuronidase e fosfolipase presentes no veneno das abelhas provocam a queda da pressão. O veneno destrói glóbulos vermelhos. Abelhas ‘enfurecidas’ podem provocar a morte. As informações são da Fiocruz.

- Efeito neurotóxico: O veneno atua sobre o sistema nervoso.

- Efeito hemorrágico: Aumenta a permeabilidade dos capilares sanguíneos.

- Efeito hemolítico: Destrói os glóbulos vermelhos.

Reações à picada
- Dor forte durante os primeiros dois a três minutos, proporcional ao número de ferroadas recebidas.
- Inchaço mais ou menos acentuado.
- Vermelhidão no local.
- Coceira no local, podendo atingir todo o corpo.
- Aumento de temperatura corporal, principalmente no local.
- Dificuldade para respirar.
- Cor azulada nos lábios (casos de alergia).
- Vômito e perda de consciência (casos de alergia).

Recomendações
- Não mexer com abelhas se não for apicultor ou não tiver conhecimento.
- Não mexer em dias chuvosos - as mais agressivas estão na colmeia.
- Não chegar perto das abelhas sem devida proteção.
- Usar vestuário limpo e sem cheiro desagradável às abelhas.
- Evitar esmagar abelhas, pois o cheiro do veneno se espalhará entre as demais, motivando uma reação agressiva.
- Estudar a biologia delas e seguir as orientações de um técnico.
- Não atacar as abelhas.
- Usar roupas brancas e de origem vegetal, como algodão. Lã motiva a agressividade.
- Evitar movimentos bruscos, porque as abelhas enxergam com facilidade objetos em movimento.
- Usar chapéu  ou cobrir o cabelo com um pano, pois elas são atraídas por óleos e perfumes. 

Fui picado. E agora?
- Retire  o ferrão, sem apertar a bolsa do veneno, para que ele não se espalhe.
- Aplique gelo no local inchado.
- Evite esfregar o local da picada.
- Evite tomar banho ou passar álcool no corpo, para não aumentar as reações.
- Procure assistência médica.

Como se prevenir?
O Ministério da Saúde orienta à população que evite se aproximar de colmeias de abelhas africanizadas Apis mellifera sem estar com vestuário e equipamento adequados. A remoção das colônias de abelhas em lugares públicos ou residências deve ser feita por profissionais devidamente treinados e equipados, preferencialmente à noite ou ao entardecer, quando os insetos estão calmos. Barulhos, perfumes fortes, desodorantes, o próprio suor do corpo e cores escuras (principalmente preta e azul-marinho) desencadeiam o comportamento agressivo e, consequentemente, o ataque de abelhas.

Em caso de acidente provocado por múltiplas picadas de abelhas ou em caso de reação alérgica, é preciso levar o acidentado rapidamente ao hospital. Se possível, indica-se também levar junto alguns dos insetos que provocaram o acidente. A remoção dos ferrões pode ser feita por raspagem com lâminas, e não com pinças, pois esse procedimento resulta na inoculação do veneno ainda existente no ferrão.


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