Com covid-19, expectativa de vida ao nascer em 2020 deve cair a patamar de 2013 no país

coronavírus
25.04.2021, 11:00:00
Brasil registrou aumento significativo em número de mortes (Amazônia Real/Arquivo)

Com covid-19, expectativa de vida ao nascer em 2020 deve cair a patamar de 2013 no país

Estimativa de retrocesso é menor nos estados do Nordeste por conta de medidas mais rígidas contra a disseminação do coronavírus

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

O número elevado de mortes por covid-19 no Brasil neste último ano causará, provavelmente, um impacto significativo na expectativa de vida do brasileiro. No final de março, um grupo de pesquisadores das universidades de Harvard, Princeton e Southern California – nos Estados Unidos – e da Federal de Minas Gerais (UFMG), analisou os dados de mortalidade pela covid-19 no Brasil e em cada estado do país no ano passado e apontou que a expectativa de vida de uma pessoa que nasceu no país em 2020 deverá retroceder ao patamar de 2013. 

Eles estimam que, dos ganhos de expectativa de vida acumulados nas últimas duas décadas, mais de 25% serão perdidos por conta da pandemia. O artigo, publicado na no dia 9 de abril de 2021, ainda está em fase de preprint, ou seja, não foi revisado por outros pesquisadores. Há dois brasileiros entre os autores: os demógrafos Márcia Castro, professora em Harvard, e Cassio Turra, professor da UFMG. 

Se não houvesse a covid-19, segundo os pesquisadores, a expectativa de vida do brasileiro em 2020 seria de 76,74 anos. Com a covid, a expectativa cai para 74,8 anos, um declínio de 1,94 ano. Entre os homens, segundo a pesquisa, o declínio é maior (1,98), do que entre as mulheres (1,82). Pode parecer pouco, mas esta redução, de ambos os sexos, é 72% maior do que o declínio esperado nos Estados Unidos, de 1,13 ano. 

Em números absolutos, a maior redução em anos da expectativa de vida ao nascer foi no Distrito Federal (3,68 anos). Na Bahia, a redução estimada é de 1,25 ano, retrocedendo, mesmo assim, ao patamar de 2015. De um modo geral, os estados do Nordeste tiveram uma estimativa de declínio menor do que os demais. “Os governadores dos estados daquela região impuseram as mais rigorosas medidas de distanciamento físico, em oposição direta às recomendações do presidente”, explicam os pesquisadores. 

Segundo eles, as expectativas de vida costumam cair quando há “choques intensos”, como pandemias ou guerras, mas esses valores costumam ser rapidamente recuperados. Não é exatamente o que eles esperam em relação ao impacto da covid-19 na expectativa de vida do brasileiro. Para eles, a recuperação aqui não será imediata. 

“A gente esperava que o Brasil fosse dar uma resposta melhor e não fosse ter essa sobre-mortalidade enorme que a gente está observando. O que a gente argumenta é que, ao contrário desse padrão de retomada, é que provavelmente a gente vai tomar um tempo para retomar uma tendência de antes da pandemia porque, primeiro, 2021 vai ser pior do que 2020”, aponta a demógrafa Marcia Castro, em entrevista, esta semana, ao canal MyNews. 

“Além disso, você tem os efeitos de longo prazo da covid, que a gente não sabe se vão afetar a mortalidade ou não. A gente tem uma demanda que está represada, de cirurgias adiadas, pessoas com diabetes, hipertensão, que não estão sendo acompanhadas, diagnósticos de câncer que não estão sendo feitos. Você tem uma deterioração da saúde da população em função da ruptura da atenção básica. E nosso sistema de saúde, que é tão invejado por tantos países, está sendo negligenciado e não está recebendo os recursos que deveria”, completa. 

Para o professor Márcio Watanabe, do Departamento de Estatística da Universidade Federal Fluminense (UFF), a tendência é que, à medida que a vacinação avance, o impacto na expectativa de vida reduza. “Na verdade, é um impacto desse ano e do ano passado. Com a pandemia recrudescendo, diminuindo o número de óbitos e com a vacinação avançando, os óbitos voltam ao patamar anterior”, diz. 

A matemática Juliane Oliveira, do Cidacs, pensa um pouco diferente. Para ela, o retorno aos patamares anteriores pode não ser tão rápido assim. “Eu acho que ainda dura um pouquinho, nem que sejam uns quatro anos. Eu acho que ainda tem um impacto maior porque a covid vai impactar na vida socioeconômica das pessoas, vai impactar em outras doenças, as pessoas vão morrer mais”, aponta. 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas