Como reabrir o comércio de produtos e serviços de forma segura?

economia
27.07.2020, 06:00:00
Carla Guarisco reformulou toda a loja física para garantir as finanças e a recepção aos clientes (Arquivo pessoal/Reprodução)

Como reabrir o comércio de produtos e serviços de forma segura?

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O ano era 1997 e a proposta era vender roupa feminina, com peças criativas e de charmosas, com estilo próprio e atendimento personalizado. O negócio começou nos chás da tarde promovidos por amigas. Em 2002, a Oca ganhou uma loja no Rio Vermelho. Dezoito anos depois, a pandemia mudou a história de Carla Guarisco, que precisou fechar as portas e passou a vender com um sistema de delivery. Diante da possibilidade de retornar as atividades presenciais, a empresária está cautelosa. “Não sei como os clientes vão encarar o fato que roupa tem que se experimentar e pode existir um pouco de receio para provar uma peça de roupa”, diz. 

Apesar dos temores, Carla vem buscando se adaptar à nova realidade e incrementou o atendimento com hora marcada, providenciou o tapete sanitizante, álcool 70 na entrada, ferro a vapor com álcool 70 para as peças de roupa. “Aliado a isso, vamos precisar fazer essa higienização com mais constância, trocamos os filtros de ar da loja, lavamos as cortinas do provador e deixamos apenas um biombo, ao invés dos dois anteriores”, conta. 

Nesse retorno, as medidas de higiene são fundamentais, mas não só elas. De acordo com a coordenadora de Comércio e Serviços do Sebrae, Ana Paula Almeida, é preciso abandonar as expectativas de que tudo voltará a ser como antes da pandemia. “A reabertura, nesse atual cenário, ainda não favorece o empresário. Isso porque, segundo dados de mercados que já reabriram, setores como o de alimentação e salões de beleza, por exemplo, indicaram que o movimento foi apenas 30% do usual”, salienta, pontuando que fatores como o medo da clientela e a inevitável diminuição da capacidade de atendimento para seguir as exigências de biossegurança são fatores que impactaram nesse recomeço.

Reforçando a compreensão do momento, o membro da Associação Brasileira de Consultores Empresariais (ABRACEM) e administrador de empresas, Alex Cruz acredita que os negócios não devem render “lucros” até o final do ano. Mesmo diante dos estabelecimentos que estão para abrir em breve, o profissional aconselha que lojistas foquem em compensar a redução do período de quarentena, trabalhando estratégias comerciais chamativas para seduzir os “novos consumidores”, que estão mais receosos, exigentes e atentos a promoções na pandemia.

O  consultor Alex Cruz chama atenção para a necessidade de enxugar as finanças para atravessar esse momento de incertezas (foto:Lorena Venturini/Divulgação)

Finanças sadias

Para se adaptar ao mercado inusitado da flexibilização, Alex atenta para dois cuidados fundamentais: abrir a loja com custo enxuto e reiterar que o estabelecimento atua sob as medidas de higienização. “O primeiro contexto envolve uma grande movimentação nas calçadas, com procura por entretenimento e serviços que a população esteve privada, como aconteceu nos bares e restaurantes vistos no Rio de Janeiro”, diz o consultor.

No entanto, ele ressalta que o retorno das atividades pode ter também surpresas, como o fato da população estar receosa em voltar as ruas, mesmo tendo liberado os setores do comércio. “Em qualquer um dos acontecimentos, pode-se esperar um alerta de que o comércio volte a ter prejuízos, sejam graduais ou explosivos. Portanto, foque sempre em quitar dívidas gradualmente, em vez de procurar lucros com antecedência”, conclui. 

Para a representante do Sebrae, é imprescindível fazer as contas e avaliar todos os custos envolvidos na reabertura, incluindo os  EPIs e materiais de limpeza. Para ela, terão mais sucesso aqueles que, além de implantarem as orientações sanitárias, mostrarem que estão tomando todos os cuidados.  A coordenadora lembra que apesar das dificuldades, existem empresas que estão se sustentando e até mesmo tendo bons resultados nesse período. “Olhe para seus concorrentes, vejam o que estão fazendo. Não dá para tratar Marketing com ações isoladas, desconectadas e sem uma estratégia definida”, orienta Ana Paula. 

Ela também chama atenção para o fato de que o consumo mudou muito nos últimos meses e o alto nível de desemprego e a crise econômica podem gerar diminuição de vendas, dependendo do segmento e tipo de negócio. “Numa recente pesquisa feita pelo SEBRAE Bahia sobre o novo consumidor, os itens mais indicados para compra após o fim do isolamento são eletrodomésticos e material de construção”, destaca. Ela lembra ainda que a criatividade tem sido o diferencial para os negócios, por isso, é fundamental estar atento às necessidades dos clientes e às indicações do mercado.

Pontos de Equilíbrio

Ana Paula Almeida acredita que uma das grandes lições dessa crise foi a necessidade das empresas se organizarem financeiramente. “Não há mais espaço para quem negligencia cálculos, metas e resultados”, afirma. O ponto de equilíbrio é um indicador financeiro que afere sobre quanto se precisa faturar para cobrir as despesas. Esse é o mínimo. Só superando é que se consegue vislumbrar um lucro. “Mas cada negócio tem um tipo de cálculo. Por isso, é necessário buscar conhecimento real de suas finanças. Para quem precisa de ajuda, o SEBRAE tem uma consultoria que foi criada para atender às necessidades deste momento. É o Presença Financeira (emkt.ba.sebrae.com.br/presencafinanceira)”, sugere. 

Alex Cruz reforça a necessidade dos empreendedores se aterem ao novo “ponto de equilíbrio” dos negócios. “O ponto de equilíbrio é o mínimo que o empreendedor precisa vender por mês para pagar as contas. Se um comerciante abre por abrir o estabelecimento na flexibilização, sem ter em mente esse planejamento, seu prejuízo pode ser ainda maior. Eu sugiro fazer uma avaliação, sobretudo para quem já retorna na ‘Fase 1', de quanto você tem que vender e faturar por mês para pagar os custos acumulados”, recomenda.

Feita a avaliação financeira, Alex sugere não fazer um planejamento a longo prazo, seja em comércios de rua, lojas de shopping ou centros comerciais. “Variáveis como a  ‘taxa de ocupação de leitos de UTI’ podem implicar no fechamento de todos os segmentos novamente, caso retorne ao patamar acima dos 75%. Então, é fundamental esse cuidado”, finaliza. 

Passos da Retomada
O SEBRAE disponibilizou orientações para 35 tipos de negócios, através do site
https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/protocolosderetomada. É preciso agir com responsabilidade, cuidando da saúde de seus colaboradores e de seus clientes. 


Então as etapas indicadas seriam:

1 - Ter pleno conhecimento dos protocolos municipais/estaduais e implantar os processos necessários para garantir a segurança no seu estabelecimento.

2 - Seguir à risca as orientações a respeito do horário permitido, e planejar sua equipe de forma a diminuir custos e otimizar resultados.

3 - Treinar a equipe sobre como deverá se portar nas ações rotineiras  e com o cliente. Eles representam sua empresa, então, dedique tempo a isso.

4 - Criar estratégias de divulgação da reabertura. Seus clientes precisam saber e se sentir seguros para voltar a frequentar o comércio. Implantou mudanças e procedimentos de segurança? Faça um vídeo mostrando isso e divulgue nas redes sociais. 

5 - Realizar pesquisa de satisfação com os clientes que forem ao seu estabelecimento após a reabertura, perguntando sobre a sensação de segurança. Muito importante acompanharem a percepção do consumidor. 

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