Como será o professor do futuro no pós-pandemia?

coronavírus
05.12.2020, 06:59:00
(Foto: Morgana Miranda/Casa Grida)

Como será o professor do futuro no pós-pandemia?

Conheça as principais habilidades que os educadores vão ter que dominar daqui para frente; confira cursos gratuitos

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“Levar minha aula para o mundo virtual foi um dos meus maiores desafios enquanto educadora. Isso me incentivou a buscar uma pós-graduação na área em Psicologia Educacional para que eu pudesse auxiliar meus alunos que estavam com dificuldade de reter o conhecimento durante as aulas online”. Professora de Ciências, Tainana Rabelo, de 35 anos, sabe que esse caminho não tem volta.

Pode dar adeus ao professor condicionado apenas ao uso do quadro, a página do livro e as avaliações de múltipla escolha. Se o mundo não será mais o mesmo no pós-pandemia, tão pouco a escola vai ser. E o professor também não, depois de tudo que passou nos últimos meses para conseguir se adaptar ao ensino remoto. Daqui para frente ele vai ter que ser bem mais engajado, mediador e criativo. Estas são só algumas das 10 principais habilidades que precisam ser aprimoradas na adaptação à esses novos tempos, como apontam especialistas em Educação atentos as transformações que o sistema está atravessando (veja abaixo).

A tendência é que se tenha várias modalidades de ensino convivendo ao mesmo depois da pandemia, como pontua a gerente pedagógica da Nova Escola, Ana Ligia Scachetti. A organização produz há 30 anos conteúdos sobre educação básica no país. “Ele [professor] precisa  lidar com essa diversidade de situações, presenciais e remotas, com a heterogeneidade da turma e com um aluno cada vez mais protagonista”.

Não é só uma questão de domínio da tecnologia, como acrescenta um dos fundadores da Escola para Professores, Roda Escola, Nilton Júnior Martins:

“Antes a gente aceitou a forma de ensino da revolução industrial, uma educação regrada, passiva, quadrada e processual. Agora e depois da pandemia necessitamos de profissionais que foquem no lado humano: empatia, criatividade, conexão, prática, de diferentes formas”.

Para a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e líder do grupo de pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologia (GEC), Maria Helena Bonilla, a pandemia veio evidenciar as fragilidades  na formação do professor e que são necessárias políticas públicas para que essa qualificação consistente, de fato, aconteça. “Não podemos culpabilizar o professor se ele não sabe lidar com as tecnologias, que sempre existiram. O que devemos resgatar é a sua função com uma formação crítica e ampla”.

A Bahia tem atualmente 108, 8 mil professores com alguma Licenciatura no currículo. Pouco menos da metade possui um curso de Especialização. Os números  fazem parte da Sinopse Estatística da Educação Básica do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC). O coordenador de projetos da organização sem fins lucrativos Todos Pela Educação, Ivan Gontijo reconhece essas lacunas.

“Na faculdade de Pedagogia e nas licenciaturas se trabalhava muito  pouco o ensino remoto, porque nós não tínhamos isso na Educação Básica. Os professores terão que ser muito bem preparados com essa formação continuada”. 

Qualificação 
De acordo com um estudo feito pela Fundação Lemann e o DataFolha com professores da rede pública do país, sete entre cada dez profissionais docentes pretendem fazer mais formações remotas no pós-pandemia. No Nordeste, o índice de interesse chega a ser até maior que a média nacional onde alcança quase 80% (79%). A pesquisa ouviu os profissionais entre os dias 22 de setembro e 10 de outubro de 2020.

Professor de Educação Física, Melquizedeque Paixão, 33 anos, não esperou a pandemia passar para começar uma especialização em Docência e Novas Tecnologias. “As mudanças fizeram com que eu me especializasse mais e com isso, potencializasse meu método”, afirma.

Já a professora de Ciências Biológicas, Química e Física, Irailde Santos, 49 anos, buscou mais conhecimento sobre o ensino híbrido, que contempla a educação remota e presencial. “A pandemia só ratificou a ideia de que o profissional precisa estar sempre se aperfeiçoando. Essa escola que se mostra agora requer mais compromisso, inovação, dinamismo, e essencialmente trabalho coletivo para uma efetiva aprendizagem”.

Para ajudar o professor nessa jornada, o CORREIO pesquisou 10 cursos gratuitos disponíveis online e que estão relacionados as estas competências e habilidades imprescindíveis para o profissional. O levantamento contou com o apoio do professor da Universidade São Paulo (USP) e designer de ecossistemas inovadores na Educação, José Moran, que ratificou as sugestões e apontou outras opções de qualificação para o aprimoramento do educador (confira mais informações sobre os cursos no final da matéria). 

Entre as plataformas onde os cursos foram encontrados estão a da Nova Escola, a Fundação Getúlio Vargas (FGV), Roda Escola, Escolas Conectadas, Moonshot Educação, Porvir e o próprio site do MEC. Moran ressalta que as reinvenções são contínuas.

“Porém, esse mesmo professor deve ser mais apoiado por todos, mais valorizado, melhor formado e remunerado para que continue evoluindo e inovando sempre”.

Mercado de trabalho
Professora de Português, Queila Leal, de 36 anos, reconhece que o professor estava condicionado as aulas expositivas e na zona de conforto. “Tenho aprendido bastante sobre o uso de aplicativos e  na preparação de vídeos. Vejo que se tornou um conhecimento imprescindível na atualidade para qualquer educador”, acredita.

Escolas como o Villa Global Education deve ampliar seu quadro, tendo em vista a inauguração da segunda unidade, no Litoral Norte. Apesar de não informar o número de vagas, a CEO, Viviane Brito, adianta que a preferência será por aqueles com capacidade para atuar em aulas presenciais, híbridas e remotas.

“O perfil conjuga um profissional alinhado aos desafios deste cenário histórico. Queremos um professor com bagagem acadêmica, capaz de promover humanidades e que tenha domínio dos recursos digitais”, ressalta.

O Colégio Marista Patamares está analisando ainda se deve contratar professores até a retomada das aulas presenciais, que depende da liberação do poder público e não tem data prevista para acontecer. “Assim como os que temos hoje, precisaremos de profissionais parceiros, em constante formação,  pois teremos desafios sociais e emocionais considerando o novo contexto”, pontua a vice-diretora da escola, Vagna Oliveira.

Futuro?
Luiza Nunes, 13 anos, é aluna do 8º ano de uma escola da rede pública de ensino, localizada no subúrbio de Salvador. Até que as aulas presenciais sejam retomadas ela vai continuar ajudando seus professores com as dificuldades que eles tiveram na hora de migrarem para o ambiente virtual. Ela criou um grupo de Whatsapp onde compartilhou  o passo a passo para o acesso em redes sociais e a gravação e edição de vídeos.

“O professor de artes não tinha nenhuma rede social sem ser o Telegram e ele não sabia que dava para fazer essas coisas só com um aplicativo. Sempre fiz videozinhos e usava muito os editores e que poderia ajudar e somar nesse momento que é difícil para todo mundo se adaptar”, conta.

A professora de Português, Maiara Cerqueira, 31 anos, não enxerga o futuro como algo tão distante assim. “Nós já estamos sendo transformados.  Recentemente, fiz um curso sobre competências profissionais, emocionais e tecnológicas para tempo de mudanças. Essa formação me ajudou bastante a entender o funcionamento dessa jornada durante e pós-pandemia, sobre que caminhos vamos seguir”.

Nem tudo depende só do professor. Mãe da pequena Ivana de 9 anos, Isiane da Silva, defende que as escolas não somente  imponham uma adequação, mas, sobretudo, tenham capacidade para oferecer esses recursos que se tornaram essenciais.

“Não adianta saber fazer e não ter recursos ou ter recursos e não ser capacitado para ele”, defende, atenta ao perfil do professor que ela quer ver na volta às aulas. “Não há mais espaço para pensar na educação como uma via de mão única, onde o professor é o detentor  do conhecimento e a sala de aula o único lugar onde se pode aprender”, completa Isiane. 


As 10 habilidades e competências para o professor no pós-pandemia

1. Articulador Para o professor da Universidade de São Paulo (USP) e designer de ecossistemas inovadores na Educação, José Moran, o docente será o grande articulador de três dimensões, que ele destaca como as mais importantes do processo de ensinar e aprender: “nós temos aí a aprendizagem personalizada (que cada aluno aprenda dentro do seu ritmo), a aprendizagem ativa por projetos em grupos  e a aprendizagem através da tutoria/mentoria, orientando os estudantes para que encontrem sentido e propósito na escola e nas suas vidas”.

2. Capacidade de mutação Já para a gerente pedagógica da Nova Escola, Ana Ligia Scachetti, o educador deve estar apto para se reinventar constantemente, depois que a pandemia pegou todo mundo de surpresa e a sala de aula comum passou a ser totalmente digital com o ensino remoto. “Vemos hoje professores com décadas de prática, de repente, tendo que se reinventar a partir das novas tecnologias, aprendendo a usar Zoom, aplicativos de edição de áudio e vídeo, participando de fóruns virtuais. Apesar de toda a dor e do cansaço é um processo muito rico de aprendizado”.

3. Adaptação Não basta ter só a habilidade de mudar, mas de se adaptar também, é o que complementa um dos fundadores da Escola para Professores, Roda Escola, Nilton Júnior Martins. “É uma questão de sobrevivência mais do que de educação. Para seguir dando aulas sem deixar o estresse tomar conta da sua vida, ou até mesmo para ser contratado, ele vai precisar mostrar que se adaptou às aulas remotas”. 

4. Mais interdisciplinar Outra capacidade que vai ser mais exigida do professor, que deve atuar cada vez mais em grupo com colegas de outras áreas, como destaca José Moran. “O professor planejará suas aulas mais aberto para conversar com seus colegas docentes em projetos integradores e interdisciplinares”.

5. Mediador A professora do Núcleo de pesquisa em Políticas Educacionais da Universidade Federal do Paraná (NUPE/ UFPR), Andréa Barbosa Gouveia, destaca que esse educador pós-pandemia vai ter que ter habilidade de mediar experiências diversas e desiguais. “Estudantes trarão outras aprendizagens de sobrevivência, certamente com menos conteúdo formal, mas com as aprendizagens que os cotidianos lhes oportunizou. Será um grande desafio receber, acolher e produzir interação e aprendizagens a partir deste contexto”.

(Imagem: Shutterstock)

6. Maior domínio das habilidades emocionais É ir além do currículo escolar tradicional: capacidade de acolhimento, saber criar ambientes de confiança são algumas das habilidades emocionais que o educador deverá dominar. “Após a pandemia ensiná-lo a ser resiliente, mais flexível e afetivo, o professor valorizará que os estudantes sejam mais participativos, o trabalho com projetos,  pesquisa e desafios”, adianta José Moran.

7. Inovador e aberto a tecnologia A necessidade de se qualificar não para por aqui. O educador vai precisar experimentar mais, explorar mais todas as potencialidades das tecnologias em rede. É mais uma habilidade defendida por José Moran. “Ou seja, apostar na formação continuada, em aprender com as inúmeras oportunidades que estão disponíveis nas plataformas digitais, em metodologias ativas, aprender a avaliar de uma forma diferente de testes e provas”.

8. Autonomia É outra característica que Andréa Barbosa Gouveia pontua como importante. “Esta interação terá que incorporar as aprendizagens de uma vida com mais equipamentos tecnológicos, mas a relação de mediação e socialização seguirá sendo fundamental para formar estudantes com autonomia de pensamento”.

9. Criatividade Passar o conteúdo está deixando de ser o papel principal do professor, que não só transmite o conteúdo exigido pelo currículo. Cursos de autoconhecimento, meditação, comunicação não-violenta, segundo Nilton Júnior Martins, são algumas opções que podem aumentar seu repertório. “O professor pós-pandemia talvez tenha visto que o seu papel pode ser finalmente o de professor, e não o de biblioteca. Porém, ele vai ter que evoluir nas suas habilidades relacionais, como empatia, habilidade de ouvir, de se comunicar dinamicamente e principalmente, vai precisar ser mais criativo para conquistar a atenção desses alunos”, completa.

10. Empreendedorismo Juntar o que a tecnologia traz de bom e pensar como um empreendedor. “Está claro agora que podemos aprender em qualquer lugar, a qualquer hora e de múltiplas formas”, acrescenta José Moran. 

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Cursos online e gratuitos

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. Leitura e alfabetização: estratégias e ferramentas para o ensino remoto - https://bityli.com/389qb

. Inovação nas escolas - https://bityli.com/dMEL1

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