Conheça 3 passos fundamentais de análise antes de comprar ações

economia
19.06.2021, 06:07:00
É importante ficar de olho na dívida bruta da companhia que você deseja investir (Tima Miroshnichenko / Pexels)

Conheça 3 passos fundamentais de análise antes de comprar ações

Como posso observar o endividamento da empresa? Será que é lucrativa?

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No último sábado (12), iniciamos uma série abordando o que significam os principais índices de análise fundamentalista de ações. Passamos por siglas pouco conhecidas do público geral, mas muito importantes para o mercado financeiro, como P/L, P/VPA e o termo dividend yield (DY).

Mas, quem já abriu um site de análises fundamentalistas de ações, certamente se bateu com muitas outras siglas e termos. E ter uma compreensão geral do que tudo isso significa é muito importante para quem está dando os primeiros passos no mercado de ativos.

Não se esqueça: como muitos especialistas já apontaram nessa série, é fundamental que você consulte um analista ou assessor de investimentos antes de tomar qualquer decisão. Mas, faz bem se informar o máximo possível, até para que a consulta seja em alto nível.

Sendo assim, nessa série do CORREIO voltada para quem está iniciando a sua trajetória, você já entendeu o que é o mercado de renda variável, famoso pelas ações de empresas, e também as diferenças entre as análises fundamentalista e técnica..

Também fizemos um bom apanhado de sites – alguns gratuitos e outros pagos – que trazem uma coleção de informações administrativas e financeiras sobre as companhias que estão vendendo as suas ações na Bolsa de Valores brasileira, a B3.

Nesse capítulo, mais uma da série do CORREIO voltada para investidores iniciantes, vamos dar mais um passo. É hora de conhecer o significado de mais três desses importantes indicadores da análise fundamentalista: todos voltados para a dívida e a lucratividade das companhias.

De onde vêm?

Por regra, todas as empresas de capital aberto – ou seja, aquelas que vendem ações na Bolsa de Valores – do país precisam divulgar, com uma determinada frequência, as informações sobre a sua saúde financeira.

Essas informações são apresentadas em documentos contábeis, conhecidos como balancetes (quando são referentes a períodos mais curtos) e balanços patrimoniais (quando se referem ao exercício de um ano inteiro).

Através desses balanços e balancetes, o público interessado pode entender como está a taxa de lucro da empresa, qual é a receita geral dela, quais são as obrigações, quanto ela tem de dívidas, qual o seu patrimônio geral e muitas outras informações.

A cada trimestre, as empresas listadas na bolsa brasileira divulgam balancetes aos acionistas e investidores interessados. Esses documentos podem ser encontrados no site da própria B3, que já divulgamos aqui, ou na sessão de relacionamento dos sites das empresas.

Como funciona?

Há coisa de 10 anos, se você estivesse interessado nas ações de uma empresa, teria que passar por um longo processo para analisa-la.

Primeiro, teria que pegar esses documentos impressos em algum jornal, na própria empresa ou na Bolsa de Valores. Daí teria que levar a um especialista para que ele realizasse uma série de cálculos, e assim produzisse uma planilha com informações fundamentalistas.

Tudo isso para o caso de uma única empresa e tendo em mãos o balancete de um determinado período. Se quisesse analisar mais de uma empresa e ao longo de anos, teria que recolher, de maneira sistemática, esses documentos e repetir o processo.

Mas, que maravilha é a internet, não é mesmo? Hoje em dia, graças à tecnologia de acúmulo e processamento de dados, existem vários sites que já oferecem essas planilhas fundamentalistas prontas para você. De graça.

Portanto, se você quiser analisar uma empresa em que está interessado, basta acessar esse site. Os indicadores da análise fundamentalista já estarão lá, prontos. E se por acaso a empresa publique um novo balanço, eles serão atualizados quase que instantaneamente.

O que são?

Basicamente, a partir dos balanços e balancetes, é possível calcular e estabelecer dois tipos de indicadores fundamentalistas sobre as empresas.

Os chamadores indicadores de balanço são justamente aqueles calculados apenas com os dados fornecidos pelos documentos contábeis. São cruzamentos para entender como está o fluxo de caixa, o índice de endividamento sobre o patrimônio, entre outros aspectos.

Quando você cruza esses dados do balanço com as informações da Bolsa de Valores, você obtém os chamados indicadores de mercado. Por exemplo: qual é a relação entre o preço da ação de uma empresa com a sua taxa de lucro?

Como observar a dívida?

No caso dos três indicadores que trazemos aqui, todos são de balanço. Ou seja, são quesitos que levam em conta apenas as informações contábeis da empresa, como anda a sua saúde financeira e sua lucratividade.

Existem três indicadores que apontam, de forma muito especial, como tem se comportado a capacidade das companhias de converterem a sua receita em lucros. A ideia é simples: quanto menor for a dívida da empresa, maior é a sua lucratividade.

E o melhor: esses indicadores podem servir tanto para comparar empresas do mesmo setor como companhias de segmentos diferentes. Só é preciso entender a ideia de cada um deles.

Quais são os indicadores?


Margem líquida

O conceito de margem líquida é muito simples de entender: ele indica a porcentagem da receita total da empresa que acaba virando, de fato, lucro.

Receita total é tudo aquilo que a empresa consegue arrecadar com a sua atividade fim, seja vendendo produtos ou oferecendo serviços. Ou seja, é todo o dinheiro que entra na companhia.

Já o lucro líquido é a quantidade de dinheiro que sobra dessa arrecadação depois que são descontados tanto o custo do produto vendido ou do serviço prestado como também as dívidas que a empresa precisa pagar.

Portanto, o indicador de margem líquida só é recomendado para o caso de comparações entre empresas do mesmo setor. Por que? Ora, porque setores de diferentes segmentos têm custos muito diferentes, assim como volume de receitas diferentes.

É impossível comparar, por exemplo, a estrutura de custos de uma empresa petrolífera com a estrutura de custos de um banco. Cada setor tem suas características: alguns recebem isenções fiscais, outros possuem alta carga tributária, alguns possuem muita mão de obra, outros não.

Como funciona?

É simples: o indicador faz a divisão entre o lucro líquido sobre a receita total. Assim, obtém-se uma porcentagem, que é quantidade da receita que foi convertida em lucro.

Por exemplo: se a empresa teve uma receita total de R$ 100 mil num período e conseguiu obter R$ 30 mil de lucro no mesmo intervalo, significa que a margem dela foi de 30%.

Obviamente, quanto maior for essa porcentagem, melhor. Isso significa que a empresa consegue operar com folga no caixa, absorvendo uma parte razoável da sua receita total por terem menos obrigações.

O que isso influencia, na prática? Uma empresa com alta margem líquida consegue sobreviver melhor às flutuações do mercado. Caso venha alguma crise ou queda de consumo brusca, essa empresa ainda possui margem para perder receita e ainda assim sobreviver.

Da mesma forma, empresas com uma margem baixa não conseguem transformar tanto da sua receita em lucro. Sendo assim, caso venha uma crise e a receita total caia drasticamente, ela pode enfrentar dificuldades.

Outro ponto importante da margem líquida é que você, como investidor, pode comparar a estrutura de custos e de lucros de diferentes setores. Algumas atividades conseguem, em geral, reter a maior parte da receita, outras operam com margens menores.

Por isso, a margem líquida serve apenas como uma comparação entre empresas do mesmo setor. Digamos que você está analisando duas empresas do setor elétrico. Se uma possui margem líquida de 10% e outra de 12%, então a segunda é, em teoria, mais lucrativa.

Não quer dizer que essa empresa do setor elétrico seja pior do que uma instituição bancária com margem de 30%, por exemplo. São estruturas de custos completamente diferentes. Esse banco só pode ser comparado a outro banco.


RPL ou ROE

Essa sigla RPL, em português, significa Rentabilidade sobre Patrimônio Líquido. Também pode aparecer nos sites como ROE, sigla inglês para return on equity.

Esse, sim, é um bom indicador para comparar a lucratividade de empresas de diferentes setores. Por que? Esse indicador faz a comparação do quanto essa empresa consegue absorver de lucro sobre o seu Patrimônio Líquido.

Importante lembrar, aqui, que Patrimônio Líquido é um conceito de contabilidade. Ele indica a diferença entre o ativo (bens e direitos) da empresa e o seu passivo (obrigações). Ou seja, é o valor intrínseco da companhia: tudo o que ela possui menos tudo o que ela deve.

É justamente por considerar o lucro líquido sobre o patrimônio líquido que ela serve para fazer a comparação entre setores diferentes. Porque, ao considerar o PL, você está normalizando as diferenças entre receitas e custos que podem existir entre atividades econômicas diferentes.

Como funciona?

Simples: se uma empresa tem patrimônio líquido de R$ 100 mil e tem lucro de R$ 10 mil, então o RPL dela é de 10%.

Na prática, é uma forma de medir como está a lucratividade da empresa sobre o seu tamanho. Obviamente, quanto maior for a porcentagem, melhor.

Em geral, os analistas consideram que uma empresa que possui RPL maior do que 10% já possui uma lucratividade alta.

Então, caso uma empresa do setor elétrico possua 10% de RPL e uma companhia financeira tenha RPL de 15%, é possível, sim, dizer que o banco esteja com uma lucratividade maior.

Isso porque, considerando o seu tamanho, o banco consegue converter uma porcentagem alta de lucro, enquanto o lucro da companhia elétrica é menor, apesar do seu tamanho.


DB/PL

DB é uma sigla simples, em português: dívida bruta. Ou seja, é o montante de dívidas que aquela companhia possui com terceiros. E PL nós já conhecemos, é o patrimônio líquido – ou seja, a diferença entre o ativo da empresa e o seu passivo.

Portanto, DB/PL é uma relação entre a dívida total que a empresa contraiu sobre o tamanho total dela. Essa conta dará sempre um número decimal que pode ser convertido em uma porcentagem.

Em teoria, o PL é tudo o que a empresa possui de valor intrínseco. Ou seja, se ela decidir fechar as portas e negociar todos os seus ativos, pagando os seus passivos, quanto sobraria?

Por conclusão óbvia, o ideal é que o DB nunca seja maior do que o PL. Porque, caso a empresa entre em dificuldades, ela não conseguirá nunca liquidar as suas dívidas.

Como funciona?

Não importa qual seja a atividade econômica ou circunstância em que a empresa se encontre: é extremamente perigoso que o DB/PL de uma empresa seja maior do que 1. Ou seja, maior do que 100%.

Ora, caso seja maior do que 1, isso significa que a empresa tem uma dívida bruta maior do que o seu patrimônio líquido. Portanto, deve mais do que ela tem de valor intrínseco.

O ideal, em caso de comparação e análise, é que esse DB/PL seja o mínimo possível. Mas os analistas consideram que um índice menor do que 0,5 já é positivo, já que a empresa deve menos do que a metade do seu patrimônio líquido.

Algumas empresas, sobretudo as que estão iniciando as suas atividades ou expandindo-as, podem recorrer a empréstimos e financiamentos. Assim, captam recursos para que o negócio cresça a longo prazo.

Portanto, nem sempre uma dívida bruta alta pode significar algo negativo. Pode ser que a empresa tenha se expandido após contrair muitas dívidas e esteja, aos poucos, quitando e reduzindo os seus débitos.

Por isso, alguns sites de análise fundamentalista também trazem o DB/PL ao longo do tempo. E é importante que você observe em detalhes esses dados.

Se uma empresa teve, em algum momento da usa operação, um crescimento do seu DB/PL, pode ser que ela tenha contraído empréstimos para aumentar o seu alcance e tamanho.

Assim, com o passar dos anos, esse índice vai diminuindo, de acordo com que os empréstimos são pagos ou que o patrimônio líquido da empresa cresça por conta da sua expansão.

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