Conheça Catarina, ativista baiana de 14 anos que discursou com Greta Thunberg

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05.12.2021, 07:00:00
Catarina Lorenzo tem 14 anos e foi chamada para discursar na ONU (Foto: ONU / Divulgação)

Conheça Catarina, ativista baiana de 14 anos que discursou com Greta Thunberg

Embaixadora da ONU no Brasil, soteropolitana defende áreas ambientais da cidade e quer ser surfista de ondas gigantes

Enquanto tem marmanjo que ainda não sabe a diferença entre lixo orgânico e reciclável, a baiana Catarina Lorenzo defende uma área ambiental em Salvador, é embaixadora da ONU no Brasil, já discursou ao lado da ativista Greta Thunberg nos Estados Unidos contra as mudanças climáticas e ainda tem tempo de ser surfista e estudante. Isso tudo com apenas 14 anos. Com tantos engajamentos, foram necessárias duas semanas para conseguirmos bater um papo com a ativista. Entre semana de provas, treinos no mar e protestos em prol da causa ambiental, Catarina nos atendeu com a alegria de uma menina amante da natureza, mas de ideias firmes sobre o mal que a humanidade está fazendo ao planeta.


Quando você percebeu a importância de defender as causas ambientais? 
Desde pequena eu tenho defendido estas causas ambientais. Nasci e cresci dentro de uma área de Mata Atlântica chamada Vale Encantado [em Patamares], onde meus avós e pais já estavam nessa luta, inclusive impedindo a destruição de uma lagoa que seria aterrada para colocarem uma pista de asfalto. Queremos transformar o lugar no primeiro refúgio da vida silvestre em Salvador. Precisamos de áreas como esta, com urgência. Esta luta que estou assumindo é muito antiga, esta zona de Mata Atlântica ainda corre muito perigo. Só precisamos da assinatura do prefeito para a criação deste decreto.

Falando nisso, praticamente não existem mais rios ou lagos limpos em Salvador…
Meu interesse na luta ambiental também envolve isto. Além da luta pela proteção do Vale Encantado, também participo de vários protestos contra a canalização de rios, as limpezas de praias, tudo que envolva proteção ambiental. Isso vem de berço. Meus pais me ensinaram que não somos nada sem o meio ambiente, precisa cuidar e viver junto com a natureza. Além disso, meus pais sempre me criaram muito solta, correndo no mato, subindo em árvore… Me acostumei a ver meu pai parando o trânsito para tirar uma cobra da pista.  

Você acha que os jovens precisam se engajar mais nestas causas? 

Não apenas os jovens. As pessoas acham que o ativismo é algo complexo. Não é. Na verdade, podemos fazer este ativismo no nosso dia a dia. Pode não, deve. O ativismo é lutar por uma causa que a gente acha que precisa de nossa atenção. Se você começa a fazer sua parte, como não usar canudo de plástico, por exemplo, já é uma forma de ativismo. Mas podemos ir além. Além de não aceitar o canudo plástico, separe seus resíduos para reciclagem. Diminuir o consumo, fazer sua parte no próprio cotidiano. Ir sempre além. Imagine cada um fazendo isso? Seria um enorme passo.

Claro, todos devem fazer sua parte. Mas um jovem assumindo este papel que você faz contagia mais, né?
Os jovens já estão engajados. Temos jovens que lutam pela causa de gênero, sociais, mas de 20 anos ou mais. A luta social também é uma luta ambiental. Andam juntas. Ao lutar pela causa social você luta pelo meio ambiente também. Há uma mudança de atitude dos mais novos, mas podemos mais. Tem alguns que preferem jogar videogame, né? Respeito, é uma escolha deles. Mas minha geração precisa entender que nosso futuro está em jogo, todos os atos do presente vão afetar o nosso futuro. Se as autoridades não mudam, cabe a nós, jovens, mudarmos este cenário. Se eles não tomam atitudes, nós tomamos. 

Catarina e Greta, ambas de rosa, discursaram na ONU (Kena Betancur / AFP)

Quando você se identificou como ativista?
Quando me reconheci, de fato, como ativista, foi quando tive a oportunidade de ir à ONU [Organização das Nações Unidas).  Fui discursar na ONU e assinar a petição  com outros 15 jovens para demandar ações climáticas. Eu disse que nós vamos pagar a conta do que estão fazendo hoje. As autoridades não são mais jovens, eles já vivem o futuro deles, tecnicamente falando. Eu quero ter o direito de viver meu futuro também. Já vivi na pele as consequências das mudanças climáticas.

Qual foi esta experiência que você falou na ONU?
Um dia estava na praia, senti a água ficando muito, muito quente. Vi os corais ficando brancos. O que estava acontecendo? Eu estava numa piscina natural de corais, nadando. Era verão, percebi que não tinha mais nenhuma alga e poucos peixes. Senti a água muito quente, mesmo no fundo. Ficou muito quente a ponto de precisar que saísse da água. Não entendia o que estava acontecendo, pois tinha uns 9 anos na época. Na escola, quando a professora falou sobre mudanças climáticas, soube o que estava acontecendo ali. Estamos aquecendo a terra e matando a vida marinha. Acendeu uma lâmpada na minha cabeça. Fiz a conexão com os corais morrendo e a água quente. Tive a oportunidade de contar esta experiência na ONU e pedir uma atitude sobre isso. 

Como foi o convite para discursar na ONU?
Eu tenho uma amiga que mora na Califórnia e conhece um grupo chamado Protetores dos Oceanos. Eles queriam brasileiros para participarem desta petição da ONU e que fossem para lá. Minha amiga me indicou, fizemos uma reunião e contei sobre minha forte conexão com a natureza e o mar. Contei sobre aquele episódio do coral, tudo. Quando terminei de contar tudo sobre minha luta ambiental, eles me perguntaram se eu queria contar esta história na ONU. Obviamente aceitei. Foi minha oportunidade de fazer mais. Imagine que comecei numa ação aqui em Salvador. Uma ação local me levou a uma ação global. Foi uma das melhores experiências da minha vida. Foi legal ver que jovens em outros cantos do mundo sofrem o mesmo que eu.

Você discursou ao lado de Greta Thunberg. Ela perguntou sobre a Bahia?
Conheci Greta no discurso das Nações Unidas. A Greta é uma grande inspiração para mim. Tudo que ela fez e faz… Ela é um exemplo para todos nós. Greta começou sozinha, na cidade dela, fazendo seus próprios protestos. Olha o que se tornou. É um exemplo de que, mesmo começando pequeno, um dia nos tornamos grandes. Não significa que você precisa fazer protestos pelo mundo. Mas, aquela pequena ação que você está fazendo ali já tem um impacto enorme! Isso é importante. Isso que a Greta passa. Não tenho tido muito contato com ela, conversamos muito na ONU. Meu Deus, foi um sonho virando realidade! Discursei ao lado dela! É, mas não me recordo dela me perguntando sobre a Bahia... 

Se não fizermos algo agora, o que podemos esperar do planeta num futuro próximo?
Já estamos vendo as consequências da mudança climática. Já começou. Aumento do nível do mar, secas, épocas de chuvas que não estão mais acontecendo, época que deveria ser sem chuva, mas chovendo. Já está uma bagunça! Águas mais quentes, corais morrendo, tudo isto já está acontecendo. Futuro? Pode ter certeza que vai piorar. Pessoas vão perder suas casas pelo aumento do nível do mar, a produção de comida neste clima instável será cada vez mais difícil. Como teremos certeza sobre clima, plantação e colheita se o mundo está instável? Isso vai afetar a economia, preço da comida, além de alimento menos acessível para a camada pobre. Isso são exemplos de algumas coisas que vão piorar, pois já está acontecendo. Temos pouco tempo para reverter isso, mas ainda há tempo. Temos que usar este tempo restante para criarmos ações efetivas. O caminho é difícil, mas ainda podemos salvar o futuro. 

Aqui em Salvador, além de você, existem outros jovens que também lutam pelo meio ambiente?
Em Salvador, na minha idade, não conheço muitos. Conheço pelo Brasil. Mas aqui, não. Temos jovens que lutam por causa de gênero, sociais, mas de 20 anos ou mais. A luta social também é uma luta ambiental, vale dizer. Andam juntas. Quando se luta pela causa social, lutamos pelo meio ambiente também. Eu tento muito chamar meus amigos para agirem, virarem ativistas também. Já inspirei alguns, principalmente meus colegas. A escola também ajuda muito. Fiquei muito feliz, pois a escola me ajuda neste engajamento também. É o futuro de todos, né?

O que você acha que pode melhorar nas políticas ambientais de nossa capital?

Criar políticas ambientais sobre o consumo excessivo do plástico. O governo, por exemplo, pode reduzir impostos para estabelecimentos ou empresas que não utilizam plástico. Não dá mais para ver vendendo canudinhos plásticos na praia. Precisamos de políticas relacionadas a educação ambiental e sustentabilidade. Essa educação que leva a conscientização e atenção para o tema. Se eu não tivesse tido essa educação desde pequena, eu não seria a pessoa que sou hoje. Mas não aprendi na escola, foi com meus pais. Se tivesse esta educação como matéria na escola, a gente conseguiria uma ampla conscientização sobre o tema. É tanta coisa… 

Continue, o espaço é seu.
Tá. Poderíamos ter também mais projetos de unidades de conservação dentro de Salvador. Um exemplo, como já disse, é o projeto de criação do refúgio da vida silvestre no Vale Encantado. Foi aprovado no PDDU de 2016, mas não foi implementado, tampouco foi feita a formação dos coordenadores ecológicos. Tem que sair do papel, né? A criação de unidades de refúgio da vida silvestre vai transformar nossa cidade. É muito importante também lembrar de nossos catadores e agentes de limpeza. Eles fazem um papel crucial em Salvador e em qualquer cidade do mundo. Eles não são reconhecidos. Precisamos criar uma rede de conexão com os catadores, fazer trabalhos sociais, incluir eles na causa. Eles precisam de reconhecimento, gente! Não existe política ambiental sem política social.

Acabou não. Vamos usar energia solar para todos os setores públicos, né? Sei que não dá para mudar de um dia para o outro, mas vamos colocar metas para esta implementação contínua, incluindo a iluminação pública. O plano municipal da mata atlântica também foi aprovado, mas até agora não foi implementado. A nossa cidade usa o slogan de capital da mata atlântica, mas não cuida como deveria. Sem promessas, sem palavras, sem discursos! Queremos ações.

Como é dividido seu tempo pessoal com a luta pelo meio ambiente? Dá para conciliar com os estudos?
Não é difícil. Ser protetora do meio ambiente já faz parte da minha vida, mas obviamente eu tenho o tempo de sair com meus amigos, também sou surfista, né? Tenho meu tempo de treinar, de surfar, além de estudar muito. Posso dizer que sou uma pessoa estudiosa. Dá para conciliar tudo isto se tiver um gerenciamento de tempo. Às vezes parece que tem muita coisa para fazer, nem sempre sai perfeita esta divisão. Mas consigo fazer tudo que quero, sim. 

Me conta sobre sobre o surf na sua vida. Está interligado com esse engajamento ambiental?
Com certeza! Uma das minhas metas é ser surfista profissional de ondas gigantes. O surfe me ajudou nesta conexão com a natureza, principalmente com os oceanos. Desde pequena surfo. Meu pai é surfista e deve ter uns 40 surfistas na família. Com dois anos eu já ficava em pé numa prancha. Amo o surfe. Quando pego a onda viramos uma única energia. A minha conexão com o oceano me fez perceber a mudança climática. A natureza está pedindo socorro! Se pararmos para pensar, a natureza não precisa da gente. Nós precisamos dela. Se a espécie humana for extinta, como diversas outras espécies, a natureza vai ter o tempo que ela precisa para se regenerar sem a gente. 

Quem mais te inspira para continuar nesta luta?

Tenho muitas inspirações, a começar pelos meus pais. Greta é uma inspiração, além de todos os jovens que abraçam a causa. Mas eu sou mesmo inspirada pela natureza. A natureza me inspira a continuar. 

Que recado você daria aos jovens sobre a importância de entrar nesta luta pelo planeta? E aos mais velhos?
Quero começar falando para os jovens que estão na luta: vocês não estão sozinhos. Se precisar de ajuda, conte comigo, me procure. O caminho não será fácil, mas não desista. Persista. Para os jovens que ainda não se engajaram na luta, o seu futuro também está em jogo. A natureza está sendo destruída, não podemos deixar. Vamos proteger a vida e o nosso futuro. Aos mais velhos, quero pedir uma coisa: entrem também na luta. Talvez vocês não estejam lá para ver a mudança, mas seus filhos e netos estarão. Cuidem do nosso futuro. 


PERFIL
Catarina Lorenzo

Aos 14 anos, a soteropolitana  é embaixadora da ONU (Organização das Nações Unidas) para Águas Internacionais, entre outros temas ambientais. Em 2019, ela discursou nos Estados Unidos, denunciando que sete países, entre eles o Brasil, não estavam cumprindo metas para frear a destruição do planeta. Ela discursou ao lado da ativista sueca Greta Thunberg e assinaram uma denúncia sobre os perigos do não-cumprimento das medidas ambientais não cumpridas. Em Salvador, ela defende a criação de áreas permanentes de proteção ambiental dentro da cidade, como o Vale Encantado, em Patamares, local que ela conhece desde pequena. Catarina também surfa desde os 2 anos. Seu sonho é encarar ondas gigantes. 

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