Conheça Ivys Urquiza, que abandonou o magistério para ser youtuber de Física

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22.08.2018, 04:30:00
Ivys faz correção das questões do Enem e dá aulas sobre assuntos de física (Foto: Evandro Veiga/ CORREIO)

Conheça Ivys Urquiza, que abandonou o magistério para ser youtuber de Física

Ele tem 45 anos e ajuda estudantes pela internet

A internet tem potencializado nos últimos anos algumas personalidades que ganharam o universo teen, mas também tem sido porta de divulgação de trabalhos de educação como o do professor de Física Ivys Urquiza, 45 anos.

Ele começou a dar aulas quando ainda era um adolescente. Ajudava os colegas de escola em troca de lanche e refrigerante. A faculdade de Engenharia Física foi uma obrigação imposta pelos pais, mas a paixão pela sala de aula surgiu no segundo ano no curso. “Comecei com 20 anos, dando aulas particulares, e depois do diploma passei a lecionar em escolas”, contou.

Mais velho de cinco irmãos, ele nasceu em Recife (PE), mas cresceu em Fortaleza (CE). Hoje, mora em Maceió (AL) e trabalha em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Em 2011, o professor começou a registrar dicas e orientações em um blog e dois anos depois migrou para o YouTube com o canal Física Total, onde tem mais de 377 mil inscritos e alguns vídeos têm quase 1 milhão de visualizações. Depois de 25 anos de magistério, ele se aposentou da sala de aula e bateu um papo com o CORREIO sobre os impactos da tecnologia na educação.

Qual a importância da internet no processo de aprendizado?
Não é mais surpresa que a internet se tornou a principal fonte de informação, principalmente, quando se fala de jovens. O consumo deles é quase que exclusivamente através das redes, por conta disso não era de demorar que professores também usassem dessa capilaridade da rede para distribuição de material de ensino, o que vem se consolidando desde 2013. A internet é uma excelente forma de pesquisa e de estudo.

O que aconteceu em 2013?
Em 2013 foi feita uma parceria entre a Fundação Lemann e o Google deu origem ao YouTube Educação, ou Youtube Edu, que é uma plataforma com canais curados e com conteúdo de qualidade, que pode ser usado tanto por estudantes como por professores que estejam precisando de enriquecimento para suas aulas.

Como o professor de Física foi parar na internet?
A linguem escrita na internet viveu seu boom entre o final da década passada e o começo dessa. A partir de 2011, com a melhora das conexões, a linguagem em vídeo passou a ser mais preferida do que a escrita. Eu escrevia para um blog e os alunos me perguntavam sempre porque eu não fazia também um canal. Ouvindo essa demanda, em 2013 o projeto saiu do texto e foi para o YouTube.

Como tornar as aulas de Física mais atrativas?
A linguagem da internet é diferente e oferece muitos recursos que na sala de aula a gente não têm, então, podemos enriquecer muito o nosso discurso com apoios gráficos, com parte cinematográfica, e até com uma linguagem mais teatralizada, com um pouco mais de humor e leveza. Ser engraçado não é ser negligente com o conteúdo, fazer uma comunicação leve não é fazer uma comunicação irresponsável. O grande segredo é encontrar o equilíbrio entre a informação e o entretenimento.

Quais a vantagens de ter alunos na internet?
Na internet o estudante está de forma proativa. Ele escolheu está na frente da tela naquele momento. Ele escolheu assistir a minha aula, então, temos essa grande vantagem dele está atento ao que eu digo. Se eu conseguir fazer a entrega que ele espera, como a gente diz, vai dá match, vai funcionar.

Você acompanha o trabalho de outros professores? Ainda há resistência entre os docentes em relação a tecnologia?
Esse é um exercício pessoal e profissional. Uma das minhas atribuições é de embaixador da plataforma YouTube Educação, então, viajo pelo país e vejo que muitos professores ainda acham que a tecnologia ainda é um inimigo, quando na verdade é um grande aliado. Eles precisam entender que somos parceiros e que o principal personagem da formação do estudante é o professor presencial. Ele não precisa temer a tecnologia, mas usar ela como aliada.

Em física, decorar fórmulas resolve?
De forma alguma. Física é compreensão da natureza e compreensão passa muito longe de decoreba. Não estou dizendo que ter repertório é desnecessário, é preciso ter conhecimento dos fundamentos e entender a linguagem da Matemática, mas é muito mais importante o desenvolvimento de senso crítico e capacidade de interpretação. E esse repertório não é obtido apenas com memória de fórmulas. Quem faz isso não percebeu que as necessidades do mundo mudaram.

O que os estudantes mais pedem para você?
É bastante comum que a maioria dos nossos estudantes da internet tenham tido problemas na formação, com escolas que não tinham toda a estrutura que o aluno precisava ou não ofereciam aquilo que eles queriam. Os estudantes pedem muitas dicas, conteúdos que não viram na escola e orientação sobre carreira.

Qual o conselho para quem está em dúvida sobre qual profissão escolher?
É uma crueldade que alguém com 16 ou 17 anos, sem nenhuma experiência, tenha que decidir o que fazer para o resto da vida. O estudante precisa entender que as opções de vida dele não se resumem a fazer uma prova de vestibular e que mesmo depois de concluído o curso é muito provável que ele mude algumas vezes de carreira. Eu me tornei engenheiro, depois professor, hoje youtuber e empresário, e pretendo fazer outras mudanças. O Enem é importante, mas não é o final da vida. É importante visitar feira de profissões, conversar com pessoas, bem e mal sucedidas, que trabalham na área que você quer trabalhar, porque assim terá duas visões para tentar encontrar o equilíbrio. Essa reportagem, por exemplo, é um caminho para pensar essas questões.

Existem assuntos que são recorrentes na prova de Ciências da Natureza?
Sim, existem alguns e se você estiver com esse conteúdo em dias, mais da metade da prova já está garantida. Lembrando, a prova visa reconhecer o domínio de habilidades, mas essas habilidades serão avaliadas, principalmente, com base em cinco temas. Então, fique muito atento a fenômenos ondulatórios, a parte de estudo dos movimentos, tanto cinemática e movimento retilíneo quanto aplicações das Leis de Newton, a calorimetria e termodinâmica, e muita atenção a circuitos elétricos e eletricidade básica, resistência, corrente, potência e energia elétrica.

Existe regra ou alguma dica para tornar o estudo mais produtivo?
Isso depende de estudante para estudante, mas o que a gente recomenda é que, pelo menos, ele crie o hábito de em dois momentos da semana estudar Física. É importante que durante esse estudo ele crie um hábito de fazer um resumo que visualmente seja fácil de lembrar o que ele estudou, porque ele não terá tempo ao longo do ano de revisar todo o conteúdo, por isso, precisa de uma forma de gatilho para despertar a memória. Uma dica é resumir cada momento de estudo em um parágrafo e revisar esse parágrafo antes de fazer o estudo novo. Isso é importante para consolidar a memória ao longo do projeto.

Quais os erros mais comuns no Enem na prova de Ciências da Natureza?
A grande maioria dos erros que os estudantes cometem está associado ou a uma base fraca de Matemática, muitos estudantes não conseguem desenvolver estudo em Física porque tem a Matemática básica fraca, por conta de uma formação negligente ou porque entendeu errado alguns conceitos. Segundo, muitas vezes, o tempo é um grande complicador. O estudante lendo a prova com pouco tempo ou sem o treinamento adequado acaba por deixar passar despercebidos detalhes que fariam a diferença.

A prova está mais difícil?
Nos dois últimos anos os estudantes reclamaram muito que o nível da prova de Ciências da Natureza aumentou bastante, estão dizendo que está havendo uma 'vestibularização' do Enem, mas existe um aspecto por trás disso. A prova deixou de ter um dos objetivos que era fazer a certificação do ensino médio. Hoje, o Encceja [Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos] é quem faz isso. Então, como as questões do Encceja tinham um nível de dificuldade um pouco menor, na hora que elas foram retiradas da prova a média do que ficou é um pouco mais alta.

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