Consciência coletiva: 'O esforço cooperativo pode encerrar o mal', diz Cortella

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13.11.2021, 10:58:00
'Lições sobre a relevância da solidariedade, do voluntariado, da dedicação resolutiva da Ciência, da criatividade e inovação, têm que ir conosco para o adiante', defende o filósofo   (Foto: Divulgação/ Vitor Garcia)

Consciência coletiva: 'O esforço cooperativo pode encerrar o mal', diz Cortella

Senta e chora, ou levanta e enfrenta? Filósofo, Mario Sergio Cortella reflete sobre como a pandemia vem transformando as pessoas, suas relações e visões de mundo

Faltam 48 dias para acabar o ano. Distantes de um contato físico com o outro, as pessoas se viram em um momento onde o cuidado com quem está do lado e a consciência coletiva se tornaram questões de sobrevivência na maior crise sanitária mundial deste século. Humanidade, álcool em gel, vacina para todos.  O coronavírus mostrou para as pessoas  o que realmente importa na vida. Será mesmo?  

“A saída individual, por intermédio do perigoso ‘salve-se quem puder’ poderia até trazer alívio imediato para algumas pessoas, mas, adiante, não havendo alternativa eficaz de enfrentamento da pandemia, teríamos a impossibilidade de se ficar incólume. Por isso, muita gente compreendeu melhor o lugar da solidariedade na convivência. Contudo, também muita gente insiste em uma rota exclusivista e segregadora, o que gera perspectivas danosas”, pondera o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella.

Ou a gente se senta e chora ou levanta e enfrenta. Essa análise vem como um “pensamentão para a vida” ou uma “dúvida metódica”, que, provavelmente, tem passado pela cabeça de quem não só viveu – mas ainda vive – nesse mundo pandêmico. Assim, Cortella defende que o foco não é esquecer que, sim, choramos, contudo é preciso levantar e reinventar novas condutas.

Reflexões trazidas pela pandemia estão presentes no livro Quem Sabe Faz a Hora (Editora Planeta |  R$  24,90 | 176 páginas), lançado esse ano pelo filósofo, que diz muito sobre toda essa metamorfose, seus efeitos e desenhos de novas relações.  

“A intenção foi mostrar o quanto situações agudas e turbulentas exigem iniciativas e protagonismos individuais e coletivos que não fiquem na mera expectativa da frase lastimada “o que é eu posso fazer...” (com reticências) e edifiquem um desafio com um “o que é que eu posso fazer?” (com interrogação). Isso requer compromisso com a procura de respostas, no lugar da passividade arriscada”, defende Cortella. Ah, e tem mais: ele avisa que nada será como antes. Leia mais na entrevista. 


Em frente à situação que a gente vive hoje, como enfrentar as mudanças impostas pelo coronavírus? 

Alguém que passasse incólume pelos sofrimentos circunstantes demonstraria desumanidade. Contudo, se o choro tem seu tempo, não deve ser imobilizador e, por isso, é preciso agir, levantar, correr o risco do desequilíbrio momentâneo e, claro, colocarmos com nitidez que se mudar é complicado, acomodar é perecer! 

Qual o grande susto dessa pandemia? 

Duplo susto: logo no início, entendermos de supetão que não éramos, como humanidade, tão poderosos como supunhamos. No decorrer dela, percebermos na prática, pela urgência, que não éramos tão frágeis a ponto de sucumbirmos de vez. 

Mudou também o sentido da vida? O medo de morrer antecipou nas pessoas alguns comportamentos? 

Cada vez mais temos necessidade da consciência do que escreveu um dia Saint-Exupéry: “Cada pessoa é responsável por todas as pessoas”! Nossa finitude nos acompanha sempre mas há momentos, como este, em que fica mais evidente e mais próxima.

As pessoas notaram o quanto a convivência no cotidiano, os encontros afetivos e as relações interpessoais são decisivas e chegamos perto de capturar o significado mais fundo do ensinamento de Art Buchwald quando disse que “as melhores coisas da vida não são coisas”. 

E sobre pessoas que se separaram, que se mudaram e se frustraram. Elas mudaram de vida na pandemia. Como ficam essas novas rotas? 

Toda nova rota sugere desconhecimentos iniciais e encontros posteriores. O que sai da familiaridade acaba nos perturbando por gerar desconforto na partida, mas, quando assimilada a precisão de fazê-lo, pode ser reduzida durante a trajetória, especialmente se as razões forem maiores que os senões. 

(Foto: Divulgação/ Vitor Garcia)

Afetos, valores. Quais os efeitos do coronavírus em nossos sentimentos, relações e visões de mundo? O que está por trás da máscara? 

Não temos ainda como avaliar de modo nítido os efeitos todos, dada a nossa proximidade com os eventos e solavancos deste cotidiano presente. Pode ser que a máscara seja só um adereço eventual ou, pior, torne-se uma maneira contínua e simbólica das dissimulações levianas por parte de quem se aproveita da penumbra e da visão fracionada. 

Como ficou a noção de tempo, os planos para o futuro, o presente? Essa percepção também se transformou?

O imediatismo costuma vir à tona quando temos um estancamento brusco dos nossos movimentos, desejos e disposições. A reação mais usual é procurar retomar velozmente o modo agora interrompido e nos deixarmos possuir pela impaciência.

O que queremos, queremos que seja logo. Porém, esse ímpeto pode gerar vulnerabilidade, pois velocidade e pressa não são sinônimos.

Muita gente perdeu também, familiares, entes queridos, alguns até um núcleo inteiro formado por pais, filhos, amigos. O que dizer sobre esse luto? 

Lembro com frequência da lição trazida por Khalil Gibran quando afirmava que “as grandes dores são mudas”; daí que o silenciamento compulsório, trazido pelas emergências e restrições, adiou a importante vivência partilhada dos inúmeros lutos.

Nosso retorno paulatino a alguma regularização da vida não pode dissimular as dores mudas e nem as deixar solitárias. 

Que lições a pandemia trouxe? Qual o recado do vírus?  

A principal lição é o revigoramento da sabedoria dos antigos que diziam que “não há mal que sempre dure e nenhum bem que nunca se acabe”, acrescida da advertência de que “não há bem que sempre dure e nem mal que nunca se acabe”.

Em outras palavras, o esforço cooperativo pode encerrar o mal, sempre tendo em mente que o bem não é imune ao desenlace. 

Momento político de atitudes acirradas das pessoas, negacionismos. As pessoas desprenderam a tolerar? 

Crises costumam revelar mais sobre o caráter das pessoas, o que tempos menos agitados nem sempre propiciam. Não foi a pandemia que gerou em variadas gentes uma conduta bruta, uma retórica furiosa, uma atitude buliçosa; muitas assim já o eram e isso emergiu mais facilmente pela própria dificuldade de maior recusa desse comportamento dissoluto, tendo em vista que a prioridade era outra: enfrentar o vírus. 

Como essas mesmas pessoas vão sair da pandemia? Em termos de autoconhecimento, nas relações afetivas, no trabalho, no mundo, depois de todo esse choque de consciência coletiva, elas serão as mesmas de antes?  

Aprender pela dor é maneira penosa, claro; contudo, pior mesmo é não tirar dessa dor o aprendizado disponível. Por isso, as lições sobre a relevância da solidariedade, do voluntariado, da dedicação resolutiva da Ciência, da criatividade e inovação, têm que ir conosco para o adiante.  


QUEM É

Filósofo com Mestrado e Doutorado em Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Mario Sergio Cortella foi professor por mais de 35 anos em algumas das principais universidades do país. Além de autor de 47 livros publicados no Brasil e exterior, sendo o mais recente Quem Sabe Faz A Hora! (Planeta) é também comentarista e colunista em programas de rádio e televisão e acumula ainda mais de 12 milhões de seguidores nas redes sociais.   



 

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