Consultas com pediatras caem 35% na Bahia e médicos alertam para riscos

bahia
27.07.2021, 05:45:00
(Shutterstock)

Consultas com pediatras caem 35% na Bahia e médicos alertam para riscos

Categoria defende que pais voltem a procurar os médicos em 2021

Como uma ‘mãe coruja’, Sirlete Santos da Silva, 42 anos, levava regularmente ao pediatra suas filhas Maria Eduarda da Silva Trindade, 11 anos, e Ana Beatriz da Silva Trindade, 14 anos. A rotina de cuidados foi interrompida em 2020, por causa da pandemia. “Até hoje não levei, pois não me sinto segura”, disse a mãe, que é rigorosa no distanciamento social. O reflexo disso está nos números. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), no Brasil, a pediatria foi a especialidade que teve maior queda no número de consultas no ano passado, atingindo uma redução de 35%.  

De acordo com a Sociedade Baiana de Pediatria (Sobape), não há um levantamento do tipo por estado, mas estima-se que a queda seja a mesma na Bahia. “Eu não sei se seria o mesmo percentual de 35%, mas é estimado que seja em torno disso. Um pouco mais ou menos a depender do período. No início da pandemia, quando houve mais isolamento, esse índice pode ter chegado a quase 60%, pois os consultórios ficaram fechados. Mas aos poucos foram reabrindo”, disse a médica pediatra Dolores Fernandez, presidente da Sobape. 

O médico Matheus Mendonça (@ped.matheus.mendonca) sentiu essa redução na prática. 2020 foi o ano que ele exerceu pela primeira vez sua especialidade de pediatra em consultórios. Mas quando chegou março, tudo teve que ser interrompido.

“Entre março e junho, se não me engano, o número de atendimento foi zero. Só depois que começou a ter uma abertura gradual, mas as mães ainda tinham medo. Tivemos que fazer uma desconstrução desse temor, mostrar que cumprimos todos os protocolos de segurança e explicar a importância de ir para o pediatra”, lembra.  

A pediatra Ana Patrícia Almeida, que trabalha em Lauro de Freitas, também sentiu o impacto da pandemia, mas fez adaptações na sua clínica para receber pacientes em estado de urgência ou emergência. “Eu passei uma semana para me adaptar e depois garantir um ambiente que as clientes tivessem conforto e sem exposição”, afirma.  

Para isso ser possível, ela aumentou o intervalo entre as consultas para não haver encontro dos pacientes, o que também contribuiu para que houvesse menos consultas em determinados momentos. Antes ela atendia uma média de sete pacientes por turno. Hoje esse número não chega a cinco. “Vale a pena, pois tudo isso garante a segurança dos nossos clientes”, explica a médica. 

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Esse também é o motivo apontado para redução das consultas pela médica Célia Silvany. Ela acredita ainda que os as crianças estão ficado menos doentes já que estão saindo menos. A exceção é para a época do inverno, quando as infecções respiratórias tendem a aumentar. "As crianças têm o coronavírus mais leve. A redução maior também foi a consulta de puericultura, a consulta na qual a mãe leva o bebê ao consultório para saber se ele está se desenvolvendo normalmente, a fala, o andar, os reflexos, consultas de rotina para os menores", revela. 

Para pediatra, pandemia gerou diminuição da “cultura do pronto-socorro"

  
A pediatra Ludmila Carneiro atua na sua própria clínica e na emergência do Hospital Santa Izabel. Ela observou a queda na procura pela sua especialidade, mas observa que em 2021, os pais estão procurando levar mais seus filhos ao pediatra. “A queda é maior na procura pelo serviço de emergência, o que até certo ponto é uma coisa boa para diminuir a cultura do pronto-socorro", avalia.  

Sobre esse tipo de prática, Ludmila explica que alguns pais não levam seus filhos para consultas regulares e, apenas quando surge uma emergência, eles procuram o sistema de saúde sem que haja um médico que já acompanhe a criança com regularidade.  

“O que estou vendo agora é que as pessoas estão se preocupando mais com a prevenção, em manter os filhos saudáveis para que, caso haja alguma doença, independentemente de ser covid ou não, o desfecho seja mais favorável. Acho que isso é, inclusive, uma consequência da pandemia, que tem trazido questões relacionadas à saúde para o diálogo dentro de casa”, aponta.  

Ludmila Carneiro em seu local de trabalho (Foto: divulgação)

Esse cenário já pôde ser observado pela pediatra Verônica Esteves, que argumenta que a situação já está um pouco melhor. No caso dela, os últimos três meses têm sido de maiores quantidades de consultas marcadas, e menor nível de falta dos pacientes. "Não 100%, porque estamos limitando a quantidade de pacientes para não acontecer aglomerações, mas a procura pelo atendimento continua", relata.

Dolores, presidente da Sopabe, defende que toda criança tem o direito de ter “um pediatra para chamar de seu”, pois esse profissional vai ajudar no desenvolvimento do pequeno. “O pediatra atende à criança de maneira universal na sua saúde, crescimento e desenvolvimento. Ele, por exemplo, identifica precocemente doenças e transtornos que podem ser minimizados quando identificados com antecedência. Ele também orienta questões relacionadas a escola, aprendizado, sono e vacinação”, diz.   

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A mãe coruja Sirlete, que você conheceu no início do texto, sabe bem disso e diz que assim que ela e as filhas se sentirem mais seguras, todas irão fazer os exames de rotina. “Eu penso que este ano eu tenho que levar, pois já vai fazer dois anos que elas não vão para o pediatra. Mas agora estou esperando os casos baixarem. Eu sou do grupo de risco, então vou esperar tomar a segunda dose da vacina e ficar mais confortável”, promete.  

Sirlete e as filhas antes da pandemia (Foto: arquivo pessoal)


Pais divergem da necessidade de procurar o especialista.  

Não são todos que pensam como Sirlete. Mãe de João, 10 anos, Renata* não tem o costume de levar seu filho ao pediatra regularmente. O rigoroso isolamento social que eles passaram a cumprir por causa da pandemia não foi nem um motivo para o garoto não ir ao especialista. “Ele vai aos médicos quando há necessidade. A gente nunca manteve consultas e exames mensais ou anuais, pois ele é uma criança saudável, graças a Deus”, explica.     

Em cada ano, por exemplo, João teve uma consulta com um especialista diferente, a depender da necessidade. Em 2018 foi com um ortopedista. Em 2019, o oftalmologista. Em 2020, já na forma de consulta virtual, foi a vez do dermatologista. Já em 2021, também com consulta virtual, um clínico atendeu o garoto. “Aqui a gente pensa na manutenção da saúde mais do que na procura de doenças. Se o corpo aponta alguma necessidade específica, a gente acolhe e aí sim procura o profissional, mas não como rotina”, relata.  

Já Fernanda* é mãe de Maria, 11 anos, e em 2020, mesmo grávida, levou sua filha a uma consulta presencial com a pediatra. “A gente nunca deixou de fazer uma consulta desde que ela nasceu. Eu sempre fui muito ‘caxias’ com ela. Deixo de ir para o meu médico, mas o dela não. Então, levei para a pediatra e fizemos todos os exames que ela passou. O pessoal do laboratório veio aqui em casa mesmo para fazer a coleta”, lembra.  

Uma forma de driblar as dificuldades impostas pela pandemia é também apostar na telemedicina como forma de fazer a consulta sem ter que sair de casa. A pediatra Ana Patricia Almeida oferece esse serviço. “Fiz muitos atendimentos do tipo, inclusive para crianças que estavam fora da Bahia. Foi proveitoso, consegui diagnosticar problemas, enviar receita, extrair informações do paciente. O importante é a família levar para o pediatra”, defende a médica, que está preocupada com a saúde dos pequenos.  

“Agora tenho pego muitos casos de crianças com cartões de vacinas incompletos, crianças que tiveram mudanças de hábitos, rotina, sono e alimentação. Pequenos com nível alto de estresse, problemas emocionais ou psicológicos. Tudo isso estamos trabalhando nos atendimentos”, diz. 

Ana Patricia só realiza consultas com todos materiais de segurança (Foto: divulgação)

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

** Colaborou Luana Lisboa

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