Coronavírus: Guedes diz que novas ações econômicas deverão ser avaliadas a cada 48h

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17.03.2020, 03:56:00
Paulo Guedes, ministro da Economia (Foto: MATEUS BONOMI/ESTADÃO CONTEÚDO)

Coronavírus: Guedes diz que novas ações econômicas deverão ser avaliadas a cada 48h

Governo anunciou pacote de medidas de R$147,3 bilhões

No dia em que o dólar bateu o seu recorde histórico e a Bolsa de São Paulo precisou acionar o seu mecanismo de parada emergencial pela quinta vez em seis pregões, o governo brasileiro anunciou um pacote de medidas para tentar reagir aos sintomas da pandemia de coronavírus na economia. O Ministério da Economia anunciou o emprego de R$ 147,3 bilhões em medidas emergenciais para socorrer setores econômicos e grupos de cidadãos mais vulneráveis, além de evitar a alta do desemprego. Desse valor, R$ 83,4 bilhões devem ser destinados à população mais pobre e mais idosa.

A ideia é que esses valores sejam injetados na economia nos próximos três meses. A lista inclui medidas que já foram anunciadas desde a semana passada e novas iniciativas divulgadas nesta segunda. Entre as novas ações estão antecipação da segunda parcela do 13º de aposentados e pensionistas do INSS para maio - liberação de mais R$ 23 bilhões. Na semana passada, o governo já tinha anunciada a antecipação da primeira parcela do 13º para aposentados e pensionistas para abril.

Outra medida anunciada ontem é a transferência de valores não sacados do PIS/Pasep para o FGTS, para permitir novos saques, com impacto de até R$ 21,5 bi.

O governo também decidiu antecipar o abono salarial para junho, com injeção de R$ 12,8 bilhões.

Também será incrementado o programa Bolsa Família, com a inclusão de mais 1 milhão de beneficiários. O impacto é de R$ 3,1 bilhões.

Mercado convulsiona
O governo decidiu anunciar o conjunto de medidas em um dia de recorde negativo para a economia brasileira. O dólar fechou pela primeira vez acima dos R$ 5. A moeda americana fechou cotada a R$ 5,061, com uma alta de 5,16%. O Ibovespa (índice de referência da Bolsa de São Paulo) caiu 13,73%, aos 71.324 pontos, após a quinta parada de emergência.

Logo no início dos negócios, o circuit breaker deixou claro que o dia seria movimentado. Às 10h25m, quando a Bolsa caia 12,53%, foi acionado o mecanismo, que paralisou as negociações por 30 minutos. A media surtiu pouco efeito e o índice fechou em forte queda.

Nos EUA, o mesmo mecanismo foi acionado uma vez em Nova York. Lá, a suspensão também não aliviou o estresse nos mercados. O Dow Jones caiu 12,9%, enquanto o S&P (mais amplo) e Nasdaq (tecnologia) fecharam com perdas de, respectivamente, 11,7% e 12,32%.

Na Europa, o cenário se repetiu. O Ibex 35, de Madri, recuou 7,88% no dia em que a Espanha decretou quarentena nacional. Em Paris, o CAC caiu 5,75% e o FTSE 100 (Londres) e DAX (Frankfurt) tiveram desvalorização de, respectivamente, 4,01% e 5,31%. Na Ásia, O CSI300 (que reúne as principais empresas Xangai e Shenzen) registrou perdas de 4,3%. No Japão, o Nikkei caiu 2,46%.

Anteontem, em um movimento extraordinário, o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos) cortou em um ponto percentual os juros, para a banda entre 0% e 0,25%. A medida, porém, teve pouco impacto.

Emergência
O ministro da Economia, Paulo Guedes, defendeu a necessidade das medidas anunciadas ontem pelo governo brasileiro. Segundo ele, novas ações para enfrentar a crise deverão ser apresentadas nos próximos dias. “Estamos fazendo um programa emergencial que no total tem quase R$ 150 bilhões de recursos injetados em três meses”, disse.

Serão até R$ 83,4 bilhões para população mais vulnerável. Mais R$ 39,4 bilhões para manutenção de empregos. Além de recursos para o combate a pandemia do Covid-19.

“A cada 48 horas poderá haver o anúncio de novos medidas, pode ser que a gente fique um tempos sem anunciar, poder ser que continue anunciando, vai depender da resposta da economia”, explicou o chefe da área econômica do governo. 

Segundo o ministro a manutenção dos empregos estão entre as principais preocupações da área econômica. Neste sentido, ele anunciou o adiamento do prazo de pagamento do FGTS por três meses (R$ 30 bilhões). A União deixará de recolher impostos do Simples Nacional por três meses (R$ 22,2 bilhões).

Serão ainda R$ 5 bilhões de crédito do Proger/FAT para micro e pequenas empresas.

As contribuições do Sistema S serão reduzidas à metade pelos próximos três meses (R$ 2,2 bilhões).

“Estamos concentrando tudo nos próximos três meses. Vamos injetar em circulação da economia R$ 147 bilhões, uma parte porque nós estamos injetando mesmo, a outra parte que seriam os impostos, nós vamos diferir (adiantar o pagamento), é como se tivéssemos recolhidos os impostos e injetamos”, afirmou Guedes.

O governo anunciou ainda medidas diretamente ligadas ao combate à pandemia. O saldo do DPVAT, de R$ 4,5 bilhões, será transferido para o SUS. Além disso, as alíquotas de importação para produtos médicos e hospitalares serão zeradas até o fim do ano. Bens importados e produzido dentro do Brasil que sejam necessários ao Covid-19 terão o IPI reduzido. “São medidas econômicas para o combate à pandemia, aí a nível de baixar tarifas de exportação, produtos médicos e hospitalares, coisas desse tipo”, explicou.

O ministro disse mais cedo que uma medida provisória será anunciada permitindo, entre outros itens, que as empresas posterguem o pagamento de tributos federais nos próximos três ou quatro meses. As empresas estão entre as mais afetadas pela crise. Ontem a Latam Airlines informou que reduzirá seus voos em 70%

Crédito
O secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Bianco, afirmou ontem que o governo vai propor uma ampliação do limite para empréstimos consignados feitos por aposentados e pensionistas. Na prática, essas pessoas poderão comprometer uma fatia maior de suas rendas com esse tipo de empréstimo, que tem parcelas descontadas diretamente na folha de pagamento. De acordo com o secretário, o governo iria finalizar ontem um projeto de lei para encaminhar ao Congresso com essa alteração. 

Bianco não detalhou qual será o percentual de ampliação da margem. Atualmente, o limite é de 30% do valor mensal do benefício para empréstimos pessoais, mais 5% em operações de cartão de crédito. Uma reunião extraordinária do Conselho Nacional de Previdência foi agendada para hoje. No encontro, devem ser aprovadas outras mudanças já anunciadas na semana passada. De acordo com Bianco, o teto dos juros do consignado será reduzido e o prazo desse tipo de operação, ampliado.?

Os cinco maiores bancos do país, Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa, estão abertos a discutir a prorrogação, por 60 dias, do vencimentos de dívidas de empresas, com destaque para micro e pequenos negócios, que venham a enfrentar problemas por causa do avanço do coronavírus. A renegociação será valida também para pessoas físicas. A medida foi anunciada ontem pela Febraban, entidade que representa o setor bancário no Brasil.

A iniciativa acompanha uma decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN), de ampliar o crédito disponível. Na avaliação dos bancos, há risco de “choque profundo, mas de natureza essencialmente transitória”.


Bolsonaro diz que PIB dificilmente cresce 2% este ano
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou ontem que dificilmente o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá 2% neste ano diante da pandemia de coronavírus. Em entrevista por telefone à Rádio Bandeirantes, ele afirmou que se preocupa com os efeitos da doença sobre a atividade econômica e que o país não pode parar por causa da pandemia.

Ontem, pela quinta semana seguida, instituições financeiras consultadas pelo Banco central (BC) reduziram a estimativa de crescimento da economia este ano. De acordo com o boletim Focus, a expansão do PIB caiu de 1,99% para 1,68% em 2020.

“A previsão nossa, para este ano, era crescer 2%, a previsão. Com esse problema, dificilmente vai chegar a isso daí”, disse Bolsonaro.

Bolsonaro defendeu que a economia não pode parar por causa da doença. “Vai ter um caos muito maior se a economia afundar. Se a economia afundar, afunda o Brasil. E qual o interesse dessas lideranças políticas? Se acabar a economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo”, disse.

"Nós não seremos omissos aos reclamos da sociedade. A nossa preocupação existe. Agora, nossa economia não é a americana, que anuncia bilhões", afirma Jair Bolsonaro 

Também em entrevista à Rádio Bandeirantes, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que a crise econômica é o assunto mais importante para o Congresso atualmente. Ele expressou preocupação com o impacto para os trabalhadores informais, como motoristas de aplicativos ou professores de ginástica.

"No final de semana, alguns economistas já começaram a prever um crescimento zero. Então nas próximas semanas a gente vai ter uma noção maior", ressaltou Rodrigo Maia 


Comércio baiano pode perder até R$ 108 mi por dia
O avanço do novo coronavírus pode causar um prejuízo de até R$ 108 milhões por dia para o comércio baiano. Em Salvador, escolas, academias e cinemas ficarão fechados por 15 dias. O cálculo se baseia em um cenário extremo, onde todo o varejo não essencial (excetuando-se supermercados e farmácias) tenha que fechar as portas. O cálculo foi feito pela Fecomércio-BA através da análise de dados do comércio do IBGE.

“Os consumidores, no seu isolamento, estarão focados em preservar a sua saúde. Assim, mesmo algumas lojas abertas de produtos como roupas, eletroeletrônicos, por exemplo, tendem a ter uma redução drástica de demanda”, analisa o consultor econômico Guilherme Dietze. Apesar da expectativa de que a situação se reverta em breve, o economista acredita que muitas vendas podem ser perdidas definitivamente. “Como o período de restrição de circulação tende a ser relativamente longo, muitas das vendas serão perdidas”, constata.

“Os empresários baianos passarão por um momento inédito e de muita incerteza”, diz o presidente da Fecomércio-BA, Carlos de Souza Andrade.

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