Coronavírus? - Presente! Escolas registram 60 casos de covid desde a reabertura

salvador
29.05.2021, 06:52:00
(Ilustração: Morgana Miranda/Casa Grida)

Coronavírus? - Presente! Escolas registram 60 casos de covid desde a reabertura

Colégios de Salvador suspendem turmas e reforçam protocolos; veja os desafios e impactos desse vai-e-vem em quase 30 dias de retorno presencial

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Normas rigorosas, aplicativo para controlar o embarque e desembarque de alunos, acompanhamento de especialistas – das áreas de infectologia e higienização - mais treinamento da equipe e mudanças na infraestrutura. Mesmo com uma quase operação de guerra, o Colégio Antônio Vieira, no Garcia, é uma das instituições que notificaram casos de coronavírus ao Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (Cievs), quase 30 dias depois de a Prefeitura de Salvador ter autorizado o retorno semipresencial e optativo das instituições de ensino da rede privada. Junto com as suspensões de turmas,  a educação presencial  enfrenta ainda, os  efeitos desse 'vai-e-vem', entre eles, a ansiedade e a interferência no processo de aprendizagem. 

A escola não informou quantos foram infectados e nem suspendeu integralmente o funcionamento presencial - apenas turmas com casos suspeitos ou confirmados de covid-19 foram afetadas. As ocorrências foram relatadas pelas famílias. Após os episódios, o protocolo de 38 páginas que havia sido elaborado ganhou um reforço com a aquisição de máscaras PFF2 para uso obrigatório dos funcionários, além da ampliação da comunicação junto aos pais. 

“A cada caso notificado, fazemos uma busca ativa no sentido de pesquisar se existe a possibilidade de a contaminação ter acontecido na escola. Firmamos um contrato com o Hospital Santa Izabel para testagem do corpo docente e colaboradores que tenham contato com a turma do aluno afastado por suspeita de covid. Até momento, todos os resultados foram negativos”, afirma o diretor de Gestão de Pessoas e coordenador do Comitê Gestor de Prevenção ao Coronavírus do Vieira, Sérgio Silveira. Lá, 62% dos 3,4 mil alunos voltaram ao ensino presencial após um ano fora dos corredores escolares. 

Até a última terça-feira (25), o Cievs recebeu quase 60 casos suspeitos de covid-19 em escolas da capital – uma média de 20 casos por semana. Foram 47 notificações em instituições de ensino, sendo 23 da rede privada. O levantamento foi feito pelo órgão a pedido do CORREIO. O Centro não divulgou a lista com os nomes das escolas. Ao autorizar a retomada das escolas em 3 de maio, a Prefeitura de Salvador orientou que a ocorrência de mais de um caso suspeito ou confirmado na mesma unidade de ensino em 15 dias fosse registrada pela direção no site do Cievs. Após os casos confirmados de covid-19, a suspensão das aulas presenciais na sala tem duração de até 10 dias. 

Por ser um ambiente que favorece aglomeração, a escola é um lugar que precisa de um cuidado especial. É o que defende a pesquisadora titular da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), professora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e integrante da Rede CoVida, Fernanda Grassi.

“É muito difícil garantir uma proteção de 100%. Nem mesmo a vacina contra a covid tem essa capacidade. São muitas variáveis em jogo e a situação da pandemia ainda é preocupante. Estamos falando de um momento onde a circulação do vírus e das variantes é grande”.   

Vai-e-vem
Foram 13 meses de preparação para o retorno e uma consultoria médica 24 horas, sete dias da semana. Nem mesmo com um investimento de R$ 800 mil para adequar a escola aos protocolos garantiu imunidade ao vírus na Pan Americana da Bahia (Pasb). A escola diz que não permite a divulgação de informações de saúde de alunos e colaboradores e, por isso, não confirma a quantidade de notificações. Porém, afirma que há o registro de casos tanto entre estudantes como professores.  

“Em todos eles, os indivíduos foram contaminados fora do ambiente escolar. Não houve, em nenhum momento, necessidade de suspensão total das atividades presenciais. A nossa comunidade entende que estes casos pontuais são esperados dentro do contexto em que estamos vivendo. A escola é um ambiente totalmente controlado”, esclarece a diretora Financeira e de Operações da PASB, Marina Skelton. 

Outra instituição que constatou casos de covid foi a Escola Tempo de Criança, na Pituba. “Tivemos três casos de crianças que pegaram coronavírus dos pais. A identificação rápida mostra que os protocolos funcionam, o que permite que a gente possa tomar as medidas protetivas imediatamente. Estamos conseguindo receber nossos alunos na escola, que precisam muito desse espaço para aprenderem, mesmo que ainda encontrem uma escola diferente da que deixaram”, afirma a vice-diretora pedagógica da escola Larissa Machado. Logo no início da reabertura, a taxa de adesão ao presencial já era de 74%. 

O impacto do ‘vai-e-vem’ de aula remota e presencial está na descontinuidade da aprendizagem, como analisa a coordenadora do Fórum Estadual de Educação da Bahia e professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Alessandra Assis. “A aprendizagem é um processo de construção de conhecimento. Quando esse processo é interrompido, não segue um fluxo, sofre modificações frequentes, fica muito mais difícil obter resultados. Para que ocorra a aprendizagem é necessário que as ações sejam contínuas, prolongadas, encadeadas. A variação brusca entre remoto e presencial causa uma perturbação grave no processo”. 

Ocorrências de alunos contaminados ou de professores foram registradas ainda em outras escolas de Salvador, entre elas, o Colégio Anchieta e o Clubinho das Letras. No Salesiano, durante o retorno das aulas do grupo da Educação Infantil, uma professora que estava ainda na modalidade remota e voltaria às atividades presenciais teve contato com um parente positivado, porém, ela não teve convívio físico com alunos ou outros professores, conforme a instituição de ensino esclareceu à reportagem. 

O fato é que já tem pais que recuaram na decisão de manter os filhos na modalidade presencial. Diante do agravamento da pandemia, a advogada Paloma Maltez, trouxe as filhas Ana Luiza, 12 anos, e Mariana, de 8 anos, de volta para casa na semana passada. As meninas cursam o 7º e o 3º ano, respectivamente, em uma escola da capital onde turmas foram suspensas após o surgimento de casos de covid. 

“Teve dois casos na turma do 7º ano, mas não foi no grupo dela. Não é uma decisão fácil de ser tomada, afinal, há números muito altos de contaminados e mortes. Confio na escola, porém, me senti menos segura com relação à circulação fora de casa. Não é possível controlar a forma que cada família está agindo. Muitas pessoas não seguem as medidas necessárias e acabam levando o vírus para dentro da escola”. 

Para a psicóloga infantil e professora do UniRuy, Andréa Dorea, o movimento de vai-e-vem gera incerteza e instabilidade que afetam tanto a escola como as famílias. “Essa falta de previsibilidade dificulta a rotina das famílias e pode gerar ansiedade nas crianças”, alerta a especialista reconhecendo que, mesmo assim, existe uma preferência dos pais que optaram pelo presencial que essas crianças continuem na escola, ainda que não sejam as condições ideais.  

“As crianças se queixam de não poder ver todos os colegas, uma vez que as salas estão divididas entre presencial e remoto e da restrição de alguns jogos e brincadeiras por conta da necessidade de limitação de contato físico. Lamentam a falta de atividades como educação física e extracurriculares como futebol e capoeira, por exemplo. É importante que os pais mantenham o diálogo com a escola”, complementa a psicóloga.  

As bolhas 
Com base em informações do Sindicato das Escolas Particulares do Estado da Bahia (Sinepe-BA), em Salvador, quase 100% dos alunos matriculados nos cursos de Educação Infantil voltaram à modalidade presencial. Já entre os estudantes matriculados no Ensino Fundamental e Médio, a adesão foi de 30%. O Grupo de Valorização da Educação (GVE), que reúne mais de 60 escolas da capital e Lauro de Freitas, começou a fazer uma pesquisa interna com todas as instituições que integram o coletivo, para avaliar o que cada unidade tem desenvolvido nesse período de retomada. 

Entre as experiências adotadas está a divisão por ‘bolhas’. O Villa Global Education, na Paralela, não notificou casos até o momento. Diariamente, as famílias respondem uma pesquisa na chegada à escola. “Adotou-se o ‘sistema de bolhas’, de modo que, a qualquer momento, na eventualidade de um caso positivo, todos os que tiveram contato sejam identificados e a ‘bolha’ suspensa das atividades escolares pelo período de isolamento. Para garantir a eficácia, a organização do fluxo não permite o encontro dos diferentes grupos”, pontua a ceo, Viviane Brito. 

No Miró, na Barra, o cotidiano da escola está diferente, como admite o diretor Jorge Tadeu. “As crianças não estão se abraçando. O retorno é facultativo e os modelos presencial e remoto vão se alternando diariamente.  As salas têm de 3 a 4 alunos ou 9 até 10 alunos com seu professor”. 

Mas, tanto a motivação quanto o vínculo estão afetados. É o que esclarece a psicóloga com experiência em atendimento infanto-juvenil, acompanhamento parental e saúde coletiva, Flávia Fernanda.

“Provavelmente vai faltar algo. Mas apostar na construção de novos vínculos na relação com a escola, família e crianças/adolescentes é urgente. Escute os estudantes, afinal, é sobre eles. E tentem juntos criar condições reais de aprendizagem”. 

Ensinar a se proteger 
Bisa Almeida é diretora da Escola Experimental Casa do Horto, no Horto Florestal. A escola reabriu presencialmente logo nas primeiras semanas da liberação pelo poder público e diz que está convencida de que, com protocolos, as escolas podem e devem permanecer na modalidade híbrida. “Existem evidências de que o retorno às aulas presenciais não foi o responsável pelo aumento de casos”. 

Se a lição que está sendo aprendida é a de corresponsabilidade, o reforço quanto a esses cuidados é diário, como acrescenta a diretora da Escola Lua Nova, localizada na Pituba, Walkyria Amaral.

“É o cuidado extremo com todas as coisas que a escola tem falado: a máscara ajustada no rosto, ensinar as crianças o procedimento de uso. Isso a gente está batendo, repetindo sempre. Precisamos garantir que as crianças aprendam a fazer isso”. 

A escola sozinha não dá conta, como defende o líder de Políticas Educacionais do Movimento Todos pela Educação, Gabriel Corrêa. “O efeito do fechamento das escolas é brutal para os estudantes, mas há situações em que tudo tem que fechar, inclusive, as escolas. É reconhecer que se for preciso fechar, vai fechar até que se possa abrir com segurança novamente”, considera. 

Para Corrêa, o momento é o de diagnosticar quais as lacunas de aprendizagem que a pandemia está deixando nos alunos, além de acolhê-los emocionalmente. “Que qualquer reabertura seja feita de forma segura e não a qualquer custo. Ou seja, não é discutir ‘se as escolas retornam’, mas o ‘como essas escolas podem retornar’”, completa.

‘O desafio da escola é reconquistar a confiança’
Enquanto a maioria das escolas abriram as portas para o ensino presencial, outras instituições preferiram aguardar. Localizado no bairro de Itapuã, o Colégio Cevilha tem 140 alunos matriculados e oferta turmas da Educação Infantil ao 9º ano. A instituição foi uma das que optou por permanecer no ensino remoto, pelo menos, até o início do segundo semestre. Na decisão, pesou a opinião dos pais – mais da metade votou pela manutenção das aulas online - e, principalmente, o agravamento da pandemia. Confira abaixo, no relato da coordenadora pedagógica Jordânia Santos. 

“A nossa instituição tem 22 anos. A decisão em não retornar presencialmente nesse semestre, mesmo com o decreto de reabertura, se deu antes dos registros de casos em escolas. Nossa opção foi baseada em enquetes, realizadas com a comunidade escolar, na observação da ocupação de leitos de UTI e no início da imunização dos profissionais da escola. Priorizamos a saúde de todos para ter um retorno no segundo semestre mais seguro. 
Muitos pais apoiaram e foram compreensíveis com a nossa escolha em ficar remotamente por mais um tempo. A pandemia afetou muito as escolas. Dificuldades foi algo comum a todos. Sim, tivemos algumas perdas, especificamente, na Educação Infantil, mas conseguimos cumprir com os nossos compromissos em dia com os colaboradores,  despesas fixas e impostos. Foi importante também concedermos descontos para fidelizar os alunos, devido até o momento atual. O que ocorreu nesse período é que estabelecemos algumas prioridades no que se refere a estruturação, com relação aos recursos tecnológicos e plataformas. Nesse sentido, para nós, foi o mais custoso. 

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A expectativa de rever nossos alunos é muito grande. Entretanto, qualquer decisão de reabertura da escola será norteada pelo avanço da vacinação em massa e o cumprimento rigoroso dos protocolos sanitários. O fato de não ter voltado nesse primeiro momento, junto com a maioria das escolas nos ajuda, na verdade, como uma espécie de parâmetro para quem optou por retardar essa volta. Diante disso, a escola ainda tem um desafio muito grande de reconquistar a confiança da comunidade escolar, embora a nossa instituição tenha um protocolo sanitário pronto como a maioria das outras.”

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