Corpo de Bombeiros controla incêndios na Chapada; secretário diz que pode ter sido intencional  

bahia
26.03.2021, 17:11:08
Atualizado: 26.03.2021, 18:41:44
(Divulgação/Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CPMBA))

Corpo de Bombeiros controla incêndios na Chapada; secretário diz que pode ter sido intencional  

Cidades de Jacobina e Lençóis tiveram foco de incêndio nesta semana 

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Foi na madrugada de segunda (22) para terça-feira (23) que começaram a aparecer focos de incêndio na cidade de Lençóis, na Chapada Diamantina, uma das principais regiões turísticas da Bahia. A cerca de 200 quilômetros dali, na cidade de Jacobina, também na Chapada, outro incêndio começou no dia seguinte, na quarta-feira (24), na serra do Aníbal. 

Não há registros de feridos, exceto por um brigadista voluntário de Lençóis, que fraturou a perna. O secretário de meio ambiente de Jacobina, Jorge Sergipano, diz que o episódio pode ter sido intencional, mas o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CPMBA) afirma que só a perícia pode confirmar.  


Segundo o coronel Adson Marchesini, comandante-geral do CBMBA, o fogo foi controlado nas duas cidades após intervenção das equipes de bombeiros. Em Lençóis, além deles e dos voluntários, também participaram os técnicos do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), uma vez que a área faz parte do Parque Nacional da Chapada Diamantina, inserido nas Reservas da Biosfera (RB) da Caatinga e da Mata Atlântica. 

Para auxiliar as operações, dois aviões modelo air tractor do Programa Bahia Sem Fogo e um helicóptero do Grupamento Aéreo da Polícia Militar (Graer/PMBA) foram enviados à Jacobina, nesta sexta-feira (26), pela região ser muito íngreme e de difícil acesso. “O fogo já estava em cima da serra e tem muitas montanhas. Tendo em vista o risco do terreno, onde existem muitas fendas escondidas por vegetação rasteira, corre o risco de o bombeiro se ferir. É uma região de difícil acesso por existir esses buracos cobertos pela vegetação, é uma verdadeira armadilha”, explica o coronel Marchesini.  

Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina
Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina (Divulgação/Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CPMBA))
Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina
Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina (Divulgação/Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CPMBA))
Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina
Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina (Divulgação/Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CPMBA))
Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina
Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina (Divulgação/Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CPMBA))
Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina
Equipe de bombeiros militares atuam no combate ao incêndio da Chapada Diamantina (Divulgação/Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CPMBA))

Ainda não é possível dimensionar a área do estrago, mas o coronel garante que o incêndio é de grandes proporções. Com o tempo quente, facilita que as brasas voltem, por isso, os militares continuam no local para monitorar. “O terreno é muito seco e estamos em um momento de muito calor, então ele pode voltar. Para evitar a possibilidade que ele retorne, continuamos no monitoramento, fazendo um trabalho de observação e rescaldo”, esclarece o comandante-geral. Os 20 bombeiros que estão hoje no local devem permanecer por mais dois dias.  

Mesmo com o incêndio fora de época, como definiu o coronel, a rápida resposta do CPMBA evitou que ele se espalhasse. “Evitamos um prejuízo maior, que o fogo fosse para cima das casas, mas a definição da área atingida só teremos o cálculo quando ele for extinto”, conclui Adson. O uso das aeronaves reduziu o tempo de combate na operação, já que o lançamento da água é administrado por um computador que ajusta a descarga nos focos de incêndio, controlando as chamas em determinados locais.  

O brigadista voluntário Ednilson Silva, 38, morador de Jacobina, relata que a maior dificuldade foi adentrar no terreno montanhoso. É uma área muito complicada, de serra, e geralmente tem muitas pedras soltas, então é muito arriscada e perigosa, a atenção tem que estar redobrada. O acesso é ruim e não tem como o carro pipa ou caminhão adentrar, a gente tem que se deslocar uns 400 metros de distância com bomba de 20 litros de água”, detalha Silva, que faz parte do grupo de voluntários há cinco anos.  

Segundo o morador, as queimadas são frequentes na região e o grupo é sempre solicitado para dar apoio. Assim que sai do trabalho, por volta das 18h, se desloca para o local do incêndio e normalmente volta às 00h, como aconteceu nesta semana. “A gente não gosta de ver, mas ficamos alegres fazendo nossa parte. Não gosto de ver o fogo queimar essa paisagem linda, e se a gente não for lá fazer isso, os animais não vão. A gente tem que sentir um pouco da dor deles, porque queima tudo: planta, fruta, pasto, fica ruim para o meio ambiente porque polui o ar com a fumaça, tem a devastação que vai gerando no solo e quantos animais não morrem com isso?”, indaga Ednilson, que trabalha como motorista de uma transportadora. 

Em torno de 15 brigadistas voluntários ajudaram a apagar o incêndio em Jacobina. Crédito: Acervo Pessoal. 

Incêndio foi intencional, diz secretário de meio ambiente 
Para o secretário de meio ambiente de Jacobina, Jorge Sergipano, o incêndio não foi fora de época, como disse o coronel do Corpo de Bombeiros. “Todos os anos, no mês de setembro a janeiro e às vezes até março, acontecem essas queimadas, por conta do período que fica mais quente e acaba contribuindo de forma negativa”, afirma.  

No caso deste último episódio, ele acredita que tenha sido criminal. “Segundo informações que chegaram até nós, um rapaz estava juntando muitas folhas em uma determina área, uma grande quantidade, foi tocar fogo para livrar, mas perdeu o controle. Começou na quarta-feira, às 13h20 da tarde, quando a gente recebeu o chamado. A gente nunca consegue chegar em um denominador comum, saber exatamente quem foi, por que foi, mas a maioria é dessa forma, acaba tendo essa negligência e praticando esse mal”, conta o secretário.  

Quem sofre as consequências é justamente o ecossistema da região. "Nosso ecossistema é riquíssimo de fauna e flora, então um incêndio dessa acaba matando uma série de espécies de lagartos, aves, serpentes... a perda é imensurável”, lamenta Sergipano.  

Além das campanhas anuais de conscientização com os moradores, a prefeitura da cidade tem praticado um planejamento de tolerância zero para as queimadas em propriedades privadas. “Para aqueles que cometem esse crime, estamos com a política de tolerância zero. Se o cidadão não colaborar, a gente parte para a autuação. Infelizmente tem que doer no bolso, não é papel da secretaria ficar aplicando multa, a gente é um órgão que promove a educação ambiental e principalmente sensibilização. Só vamos para a multa quando não tem mais espaço para diálogo”, argumenta o secretário. O valor da infração depende, entre outros fatores, da área atingida, e varia de R$ 200 a R$ 5 mil, segundo o titular da pasta.  

Incêndio em Lençóis tem apoio do ICMBio 
Já em Lençóis, o fogo foi controlado na quinta-feira (25), com o reforço das aeronaves enviados pelo CPMBA. Além dos 25 bombeiros, mais 30 brigadistas voluntários e técnicos do ICMBio estiveram no local. Os militares foram acionados pelo ICMBio por volta das 21h desta segunda e o combate foi iniciado na manhã da terça. A zona atingida foi a da Serra do Mandassaia.  

Em nota, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) também informou que o incêndio no interior do Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA) foi controlado. Segundo o ICMBio, o combate ao incêndio contou com uma equipe de 69 pessoas, entre brigadistas contratados e voluntários, além do apoio do corpo de bombeiros. O instituto ainda diz que foram utilizadas bombas costais, abafadores, turbo soprador, além de duas aeronaves. A autarquia ligada ao Ministério do Meio Ambiente ainda comunica que as estruturas físicas do Parque ficaram intactas. 

Procurada, a prefeitura de Lençóis não respondeu até o fechamento desta reportagem. 

*Sob orientação da subeditora Monique Lobo 

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