Da periferia de Salvador para o Itamaraty; conheça o diplomata Amintas Angel

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21.11.2021, 09:19:00
Atualizado: 24.11.2021, 14:26:05
(Foto: Acervo pessoal do diplomata)

Da periferia de Salvador para o Itamaraty; conheça o diplomata Amintas Angel

Poliglota, Amintas passou em um dos concursos mais concorridos do país e hoje mora na Suécia

Quando pequeno, Amintas dormia com o som dos sapos coaxando. O bairro de Fazenda Grande do Retiro, onde morava, estava longe de ser o sétimo mais populoso de Salvador. A violência não havia chegado lá e seu sono era o de menino que teve o privilégio de estudar e brincar como únicas preocupações.

Filho de professores da rede pública, o garoto classe média baixa da periferia virou diplomata aos 32 anos e hoje, aos 44, atua servindo aos brasileiros moradores da Suécia, na Europa. Quando pensa em sua trajetória em contraste com a da maioria das pessoas negras e baianas, se vê um “cara de sorte”.

Essa sorte, diz ele, está no destino de ter nascido numa família com pai e mãe presentes e incentivadores da educação. Criado numa casa farta de livros por causa da profissão deles — professores de História, Geografia e Ciências — Amintas Angel Cardoso Silva teve acesso a leituras que ampliaram a sua visão de mundo, acumulando conhecimentos que foram, aos poucos, desenhando seu caminho até a diplomacia.

Alfabetizado na Escolinha Nadja, de propriedade da tia, continuou os estudos no Colégio Nossa Senhora da Soledade, obra educativa de freiras, na Liberdade, e no Colégio das Mercês, na Av. Sete, dois dos mais tradicionais da época. Fundado há quase 300 anos, o Soledade foi uma das instituições envolvidas no 2 de Julho, data da Independência da Bahia, que culminou na Independência do Brasil. 

Em 1823, as irmãs religiosas mandaram fazer um arco triunfal em frente ao convento para a passagem da tropa libertadora e confeccionaram coroas para os heróis da pátria. A tradição de festejar com vibração as memórias desta data ainda se mantém no Soledade e marca não só a passagem do cortejo, mas as histórias dos estudantes.

“Era o único colégio em que as autoridades paravam para cumprimentar os professores e ouvir alunos cantarem o Hino ao 2 de Julho”, recorda. 

De lá, Amintas partiu para o também católico Colégio das Mercês, onde estudou o ensino médio e do qual saiu direto para a Ufba, ao ser aprovado no curso de Psicologia. Em todos estes anos de formação, nunca encontrou muito espaço para debate sobre questões raciais nestes lugares. A própria ciência na faculdade não investigava com grande dedicação os aspectos da saúde mental da população negra. 

“Estudei em colégios de educação conservadora e nunca houve diálogo racial, nem dava para esperar isso deles. A maioria dos alunos eram de classe média, contava nos dedos os negros da sala. Não tinha um ambiente propício a essa discussão. A Ufba era o único lugar onde tinha curso de Psicologia e o pessoal vinha das escolas de classe alta”, conta.

Em contrapartida, em casa, a mãe lhe dizia uma frase que ouvira da avó: ‘Cor de pele não é empecilho para nada’. Já o pai, docente de História, mencionava os quase quatro séculos de escravização no país e os problemas que isso geraram aos negros mesmo após o fim.

Milton Santos, uma referência

Antes de ensinar, o pai de Amintas já havia sido empregado da Empresa Gráfica da Bahia, responsável pela publicação dos diários oficiais do estado. Ele começou a vida entregando jornais na Egda durante a gestão de Dr. Milton Santos, um dos principais intelectuais do século XX, vencedor do Prêmio Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia”.

“Painho era um jovenzinho paupérrimo e via Dr. Milton no cargo de presidente da empresa. Quando você vê um modelo de homem negro bem sucedido, isso muda a vida da pessoa. Depois, Dr. Milton foi para Brasília, painho fez vestibular para Pedagogia, formou, e mudou o status dele no serviço público. Meus pais se conheceram em um ponto de ônibus e conseguiram formar uma família com valores e infraestrutura”, diz.

Apesar da moradia num bairro pobre, viviam numa rua onde as pessoas tinham melhor poder aquisitivo em relação ao entorno. Funcionários públicos, os pais puderam fazer com que Amintas e a irmã, Deise, ficassem aos cuidados de uma babá, e mantiveram o acordo de revezar os turnos de trabalho para que um sempre estivesse em casa com as crianças. 

Fã de astrologia e leitor de revistas de Psicologia, o pai de Amintas foi quem o inspirou a ingressar na carreira de psicólogo. O primeiro estágio do filho foi como pesquisador de Saúde Coletiva, percorrendo bairros de Salvador para medir o nível de assistência médica e psicológica ao qual as pessoas tinham acesso. Amintas não lembra bem o que fez com aquele dinheiro, acredita ter investido tudo num curso de inglês.

Nos anos seguintes, fez outros estágios como professor de Filosofia no Colégio Estadual Luiz Tarquínio, e como psicólogo hospitalar nas Obras Assistenciais Irmã Dulce (Osid). Mais tarde, mudou totalmente de rota. Passou em um concurso para o Banco do Nordeste e virou bancário no interior da Bahia, migrando tempos depois para São Paulo. Após um ano morando nas terras paulistas, pediu uma licença que foi negada.

“Fiquei com raiva e larguei o banco”, gargalha. “Eu queria ir para Londres levar uma vida como músico. Mainha foi uma influência, ela compunha para mim e para minha irmã quando éramos pequenos. Escrevo canções desde os 16 anos e eu estava com 27 anos, tocava violão, cantava. Fui para Londres e, claro, não deu certo. Voltei para São Paulo e com o dinheiro que eu tinha, consegui ficar um ano estudando e tentando vida de músico”, conta.

Uma hora, o dinheiro acabou, os pais tiveram que ajudá-lo a se manter e, incomodado com o trabalho que vinha dando, resolveu escutar uma sugestão do pai que havia ignorado anos antes: Prestar concurso para o Itamaraty. Recorda-se de que era uma prova “gostosa de estudar”, com conteúdos de História e Geografia do Brasil e do mundo, Economia, idiomas, leitura de grandes pensadores e temas que o enriqueceram culturalmente. 

Fluente em português, inglês, espanhol e francês — e arranhando no alemão — Amintas diz que seu interesse por línguas estrangeiras também foi uma influência do pai, que fazia cursos à distância. Seu “velho” era apaixonado por cinema e tinha curiosidade de assistir os filmes nas línguas originais.

“Eu via painho lendo o dia inteiro, é natural a criança tentar imitar os pais, então eu aprendi por osmose”, diz. “Painho teve uma vida muito humilde. Ele foi filho de uma mulher pobre, com dois filhos, abandonada pelo marido e teve de lutar muito para vencer na vida. Ele é um desses heróis brasileiros, um sujeito que tinha uma fé incrível nas capacidades dele, um homem que veio de uma situação abaixo da linha da pobreza e se tornou um pedagogo que nos deu uma estrutura de classe média. No ano de 2021, isso talvez não faça muito sentido, mas para quem cresceu em 1950, é um caso em um milhão. Ele foi um cara que teve todo tipo de privação e teve um filho diplomata.”, emociona-se. 

Por causa desse suporte familiar, Amintas foi mais longe na formação e teve condições de fazer cursos de inglês no Acbeu e Cultura Inglesa. Já o espanhol aprendeu com uma amiga, em troca de aulas de violão, e também enquanto se experimentava na arte ao lado do grupo musical Somos América, recitando poesias de Neruda e cantando músicas interpretadas por Mercedes Sosa. O francês ele desenrolou por conta própria na fase de preparação para o concurso. 

Aprovado em 2009, ele iniciou suas atividades na própria sede do Itamaraty, em Brasília, na Divisão das Comunidades Brasileiras no Exterior, cuidando de assuntos consulares de terceira geração — relacionados a empreendedorismo, associativismo, saúde mental e acesso de brasileiros ao sistema legal do país de acolhida.

“Eu era uma das pessoas que organizavam atividades que seriam feitas pelas embaixadas mundo afora, como, por exemplo, ensino de Português para crianças filhas de brasileiros, mas nascidas no exterior. É importante manter esses vínculos porque migrar pode ser muito solitário. O clima, os costumes e a comida podem ser muito diferentes. As pessoas precisam de um apoio forte para se estabelecerem num ambiente tão novo”, diz.

Depois, o baiano passou a atuar em missões rápidas de alguns meses na Guiana Francesa, Holanda e Espanha. Em Caiena, capital da Guiana Francesa, teve uma das experiências mais interessantes. Nessa missão, foi ao país para organizar a Semana do Trabalhador Brasileiro, um evento de aproximação para discutir dramas trabalhistas, já que era comum encontrar brasileiros atuando em garimpos ilegais e outras atividades de risco na Guiana. 

Existe um forte fluxo de migração de brasileiros da região Amazônica para Caiena, atraídos para lá por causa dos serviços pagos em euro, justo que o território é departamento francês. Por lá, conheceu histórias de empregadas domésticas que optaram pelo êxodo a fim de arcar com as escolas dos filhos em São Paulo.

“Nossa ideia inicial era falar de questões laborais com eles, mas chegamos à conclusão de que questões migratórias eram mais importantes e contratamos uma advogada que cuidava de imigração para fazer a atualização do status migratório e dar melhor segurança de vida para eles, uma vida regular”, recorda.

Até meados dos anos 1980, praticamente só filhos ou netos de outros diplomatas estariam nestas funções de representação. A mudança no perfil dos funcionários do Itamaraty começa mais a partir do início dos anos 2000, quando o ministério foi deixando de ser uma unanimidade branca, classe média alta, masculina e do eixo Rio-São Paulo. O ingresso do baiano no órgão se deu graças às bolsas de estudo para pretos e pardos, já que os cursos preparatórios para o concurso chegavam a custar até R$ 4 mil em valores atuais.

O programa de bolsas foi criado em 2002 pelo Instituto Rio Branco — braço do Itamaraty que treina pessoas para a carreira diplomática. O objetivo das ações afirmativas era ampliar o ingresso de brasileiros negros nesta carreira, a fim de aumentar a diversidade do serviço exterior do país. Aprovado no programa, Amintas conseguiu a bolsa para pagar pelo curso. Só mais tarde, em 2014, é que as cotas raciais chegaram no órgão, por meio de legislação que que destina 20% das vagas a candidatos negros.

O Ministério das Relações Exteriores não possui o perfil racial dos seus funcionários, mas num levantamento de 2020, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), só 12% dos profissionais da pasta se autodeclararam negros, enquanto quase 60% disseram ser brancos e 29% não informaram raça.

“Embora eu seja baiano, negro e nordestino, não tive grandes dificuldades no Itamaraty. Se fui discriminado racialmente, não percebi. Isso ainda é tabu no órgão e a gente vê pelo número de pessoas que não declararam raça. O racismo é complexo, cada um tem a sua experiência, a minha foi essa, de ter sido discriminado fora do Itamaraty — como por motoristas de táxi e ônibus. Eu não tive dificuldades intelectuais e fui muito bem recebido dentro do órgão, tive a sorte de encontrar colegas legais. A minha vida é fácil por causa dos meus pais. Eles fizeram tudo, eu só fiz seguir”, conclui.

Atualmente, Amintas Angel é chefe do setor cultural da Embaixada do Brasil na Suécia, na cidade de Estocolmo, onde serve há três meses. O diplomata está escrevendo um livro sobre a história da sua família e há duas semanas finalizou uma sinfonia em homenagem ao seu pai, uma obra musical que começou a ser composta em 2016, ano de falecimento de seu “velho”, e que levou cinco anos para ser concluída. 

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