'De alma lavada', diz pai de João Alberto sobre repercussão da morte do filho

brasil
21.11.2020, 12:15:00
Atualizado: 21.11.2020, 12:24:19
(Reprodução)

'De alma lavada', diz pai de João Alberto sobre repercussão da morte do filho

Corpo de Beto, espancado até a morte em mercado, foi sepultado em Porto Alegre

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O pai de João Alberto Silveira de Freitas, que foi espancado e morto por seguranças em um mercado Carrefour em Porto Alegre, disse que a repercussão do caso o deixa de "alma lavada". 

"Eu posso te dizer que me sinto de alma lavada, porque não imaginei que fosse ter uma repercussão tão grande assim. Mas se é em favor da sociedade é bem-vindo", disse ele à RBS TV, afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Sul.

O corpo de João Alberto foi velado e sepultado neste sábado (21) na capital gaúcha. Muito abalada, a mulher de João Alberto, Milena Borges Alves pediu justiça. "Eu não tenho nada pra falar. Só quero justiça, quero que paguem", afirmou.

Ele disse que, claro, não gostaria que o crime tivesse acontecido com o filho, mas que o momento deve ser aproveitado para a discussão. "Eu gostaria que isso não tivesse acontecido com o meu filho, mas quanto ao movimento negro, acho que todo movimento assim é valido. Porque esse tipo de sentimento assim tem que ser banido da sociedade. E só com muita educação a gente vai superar esse momento. Então um momento como esse é sublime pra isso", afirmou.

O crime
João Alberto foi morto por dois seguranças do Carrefour na noite da quinta-feira. A polícia diz que a vítima teria feito um gesto para uma funcionária do local, que chamou a segurança.

Os dois homens levaram Beto até o estacionamento. Ele teria dado um soco em um deles e as agressões começaram. Ele apanhou por cerca de cinco minutos. 

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi chamado, mas Beto morreu no local. Laudo indica que ele morreu por conta da asfixia. Os dois homens foram presos em flagrante e devem responder por homicídio triplamente qualificado.

"Milena, me ajuda"
A mulher de João tentou ajudar o marido enquanto ele era agredido, mas foi impedida pelos seguranças. Ela mesmo fez a afirmação durante entrevista à Rádio Gaúcha, na manhã de sexta.

"Eu estava pagando no caixa, daí ele desceu na minha frente. Quando eu cheguei lá embaixo, ele já estava imobilizado. Ele pediu: ‘Milena, me ajuda’. Quando eu fui, os seguranças me empurraram", disse ela.

João Alberto deixa quatro filhos – um do primeiro casamento e três do segundo. Com Milena, que vivia com ele há cerca de 9 anos, só tinha uma enteada. A família mora a cerca de 600 metros do supermercado.

(Foto: Reprodução)

Protestos
A frase "Vidas Pretas Importam" foi pintada na Avenida Paulista, principal via da cidade de São Paulo, na madrugada deste sábado (21). Houve um ato em frente ao Masp na noite de ontem, por conta do assassinato de João Alberto Silveira Freitas, espancado até a morte por seguranças do mercado Carrefour, em Porto Alegre.

Coletivos de artistas e produtores culturais coordenaram a pintura. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ajudou, fechando parte da via.

"Não só no dia de hoje, a a gente tem que exaltar o quanto é importante a vida dos negros e negras. Os pretos e pretas aqui no Brasil", disse ao G1 a artista Fernanda de Deus. O artista visual João França também participou. "Essa violência sempre existiu. A diferença é que agora ela está sendo mostrada pela câmera de celular", diz.

Protestos antirracistas aconteceram em várias capitais ontem. Houve atos em Porto Alegre, São Paulo e no Rio de Janeiro. Algumas unidades do Carrefour foram invadidas e depredadas.

A situação foi minimizada pelo governo federal. O presidente Jair Bolsonaro, sem citar o caso, afirmou que é "daltônico" e que não enxerga cor (o daltonismo tem dificuldade de ver cores como vermelho e verde).

"Como homem e como Presidente, sou daltônico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus. São nossas escolhas e valores que fazem a diferença", escreveu Bolsonaro. "Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a nação, mas contra nossa própria história. Quem prega isso está no lugar errado. Seu lugar é no lixo".

O vice-presidente Mourão chamou a situação de "lamentável", mas negou que existe racismo no Brasil. "Lamentável, né? Lamentável isso aí. Isso é lamentável. Em princípio, é segurança totalmente despreparada para a atividade que ele tem que fazer (...) Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil", afirmou.

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