De vento em popa! Tudo sobre bunda na música, no Carnaval e na moda

bazar
06.02.2018, 07:00:00
(Renato Santana)

De vento em popa! Tudo sobre bunda na música, no Carnaval e na moda

Tem entrevista com os compositores, a história da bunda na MPB, as musas icônicas do bumbum e um garimpo de shortinhos bem coladinhos, bem safados e descaradinhos

Das 10 músicas mais bombadas do maior aplicativo de música do Brasil, o Spotify, cinco fazem menção honrosa a ela: a bunda. Por aqui, Popa da Bunda está firme no TOP 3 da Bahia FM. No YouTube, são mais de 1,5 milhão de visualizações. Ao que tudo indica, ela  não sai da boca do povo faz tempo.

“Desde a época do É o Tchan parece que não se fala de outro assunto. Antes, outras partes do corpo também apareciam nas músicas. Agora é só bunda”, comenta Rodrigo Faour, autor do livro História Sexual da MPB. Márcio Victor, do Psirico, não poderia concordar mais. “É lindo demais. Não tem como não olhar quando passa uma bunda bonitinha. Cantamos o que o povo gosta de ouvir”, assume ele, que dá voz ao hit do momento.

Composta pelo grupo Àttøøxxá, Popa da Bunda é hino. “Ainda que seja prematuro falar, pra mim, é a música do Verão”, aponta Maurício Habib, coordenador e locutor da Bahia FM.

Rabetão  
Tida como o maior grau de exuberância física da mulher brasileira, as nádegas inspiram artistas desde o tempo em que  ainda eram chamadas de cadeiras. Ou jaca, como no caso da icônica canção Corta Jaca, de Chiquinha Gonzaga, lançada em  1895: “Esta dança é buliçosa, tão dengosa. Que todos querem dançar. Não há ricas baronesas, nem marquesas, que não saibam requebrar”. 

Cem anos depois, em 1997, a banda baiana Gang do Samba colocou o Brasil inteiro pra sambar ao som de Raimunda, composta por Tenison Del Rey. “Essa menina tá de brincadeira, vai acabar alguém passando a mão, o Seu Genáro tá perdendo a compostura, se ela passa vai subir sua pressão arterial”, ecoou nos quatro cantos do país. Nos palcos, Rosiane Pinheiro brilhava. Com muita abundância, claro. 

Entrevista com Rodrigo Faour, jornalista e autor do livro A História Sexual da MPB

 Quando a bunda começou a aparecer na MPB de forma mais direta?
Antigamente, o moralismo só dava trégua no Carnaval. A partir de 78, com Gretchen, surgiu a bunda music, onde se explorava a sexualidade feminina indo direto ao ponto, sem subterfúgio. Ela foi a primeira. De lá pra cá, começaram os modismos, até chegar na Companhia do Pagode, por volta de 95, onde começou o filão que dura até hoje.  

Esse filão te incomoda?
A única coisa que me incomoda é que, nos últimos anos, não só no Carnaval, a bunda ficou onipresente. Só se fala disso, desde a época do Tchan. Já faz uns 20 anos! Eu gostaria de ver mais criatividade, tem muita coisa polêmica e divertida que poderia ser explorada. Parece que esqueceram.

Bem coladinho
Enquanto Popa da Bunda incendeia as caixas de som Bahia afora, o shortinho apertado, que não pode em hipótese alguma passar despercebido, veste graciosamente o corpo de muita gente. “As bermudas e shorts, tal qual conhecemos hoje, são peças do guarda roupas do século 20. 

Devido à praticidade da liberdade de movimentos, mas também ao puritanismo da época, eles eram como peças quase exclusivas dos trajes esportivos ou de banho”, explica Marcus Vinicius, professor de Design de Moda e História da Arte da Unifacs. A dançarina Léo Kret do Brasil, que ocupa o primeiro lugar no ranking de musas da quebradeira, segundo Rafa Dias, vocalista do Àttøøxxá, não abre mão do seu. “Eu acho bonito e sexy. É Carnaval, né amor? Tem que colocar o shortinho sim. Malhei o ano todo pra mostrar que estou com tuuuuudo no lugar”, assegura.

Seja rabetão, rabetania, bumbum ou raba, o fato é um só: o negócio faz sucesso. 

Conversamos com Márcio Victor, vocalista da banda Psirico, que gravou a música Elas Gostam (Popa da Bunda) e com Rafa Dias,  vocalista do Àttøøxxá, responsável pela composição do hit. Confira:

"As bundas agora são muito pequenas. Cadê a graça? Precisamos de uma nova rainha do bundão"

Márcio Victor

Márcio Victor, vocalista da banda Psirico (Divulgação)

As letras sobre mulheres aparecem muito no repertório do Psirico. O que te inspira? 
A mãe, a família, a irmã. Nosso maior público é feminino, é uma forma de retribuir o carinho. Vamos sempre falar sobre isso, principalmente no Carnaval, onde tantas são agredidas. Temos essa preocupação social.

Qual a maior musa da abundância da história do nosso Carnaval? E atualmente, temos uma nova musa?
Carla Perez, Rosiane Pinheiro, Scheila Carvalho. Acho que hoje tá faltando. As bundas agora são muito pequenas. Cadê a graça? Precisamos de uma nova rainha do bundão! 

 Qual bunda você gostaria de ver que ainda não viu? 
 Gretchen! (risos)

 Você se considera bem provido de bunda? 
 Se eu falar que sim o bicho pega! (risos) Eu sofro com isso, o povo aperta, é difícil. Fiz de tudo pra não sofrer assim, mas não deu. 

Alguns falam que Popa da Bunda é sobre empoderamento, outros que a letra é completamente machista. Como você enxerga esse contraponto? Esse machismo não existe. No clipe tem uma mão com o sinal de proibição, dizendo exatamente para não tocar. São assusntos chatos, pessoas chatas, que querem polemizar uma coisa desnecessária. Acho que está na hora de parar com essa chatice do povo procurar problema onde não tem. Mas acho normal ter essa polêmica. Estou a disposição pra falar sobre isso.

"Shortinho é normal, faz parte da nossa cultura. O sol faz isso. Mas não podemos invadir o espaço da mulher", Rafa Dias

Rafa Dias, vocalista do coletivo Àttøøxxá (Reprodução/Facebook)

Alguns falam que Popa da Bunda é sobre empoderamento. Outros falam que a letra é completamente machista. Como você enxerga esse contraponto?  
Eu não me tiro do machismo. Nós, da banda, estamos em mudança junto com o planeta. Qualquer música dá margem a isso, mas nosso propósito não é esse, pelo contrário. Popa da Bunda surgiu exatamente porque queriam invadir o espaço de uma menina no nosso show.

Quem você acha que é a maior musa da abundância da história do nosso carnaval? E atualmente, você acha que temos uma nova musa?
  Léo Kret. Ela é a diversidade, a grande coisa da parada. Pra mim, ela é quem representa o movimento.

Qual popa da bunda você não consegue parar de olhar? E qual você gostaria de ver que ainda não viu? ? 
  Rapaz, que pergunta! (risos). Só a da minha namorada mesmo.

As musas da abundância

Rosiane Pinheiro
Estourou nos anos 90 com o grupo Gang do Samba e ficou conhecida nacionalmente ao dançar o hit Raimunda. 

"Popa da bunda retrata toda energia musical e corporal do nosso povo. Representa a verdadeira energia do clima de Verão e do Carnaval"


Sara Verônica
Ex-dançarina do grupo Companhia do Pagode, conhecida por requebrar ao som de Na Boquinha da Garrafa.

"Eu fiz sucesso com esse bumbum, viu? Nos anos 90, foi um dos mais comentados. Hoje não uso mais shortinho. Só às vezes, porque não estou morta!"


Léo Kret do Brasil
Ex dançarina do Saiddy Bamba, é dançarina e a primeira parlamentar transexual de Salvador

"Faria seguro não só para minha bunda, mas para meu corpo inteiro. Eu amo meu bumbum, nunca deixo de fazer a marquinha de biquíni e sempre bombo"

Garimpo de shortinho:

Foto: Divulgação

Tá de shortinho: R$ 189, na offpremium.com.br

Foto: Divulgação

Bem coladinho: R$ 89,90 em lojasrenner.com.br

Foto: Divulgação

Tá bem safado: R$ 66,39 em dafiti.com.br

Foto: Divulgação

Descaradinho: R$ 69,99 em cea.com.br


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