Depois de mais de um ano e ainda sem abraço, família e amigos se reencontram

entre
10.10.2021, 07:00:00
Atualizado: 11.10.2021, 13:17:36

Depois de mais de um ano e ainda sem abraço, família e amigos se reencontram

Com taxas de contaminação reduzidas, familiares e amigos criam novos reencontros; infectologista dá dicas

Todos estão juntos outra vez, e a vida não é a mesma. Jéssica aprendeu a ser mais saudável. Miguel, um bebê, descobriu o poder das palavras e agora comunica desejos com frases. Margarida ficou feliz na simplicidade de abrir a porta e ver a irmã na soleira. Quase dois anos depois, a família se reencontrou. 

Familiares e amigos que viveram o isolamento social durante a pandemia têm criado arranjos que permitam encontros, agora que estão vacinados e as taxas de contaminação pela covid-19 decaem diariamente. Nem sempre há abraços e beijinhos no rosto, geralmente as janelas de casa ficam abertas, as pessoas ficam mais distantes umas das outros e acompanhadas por uma sensação de estranheza. 

“Esquisito, eu diria. Não é que nem um botão, que você desliga e volta tudo ao normal”, define a advogada Jéssica Sousa, 29 anos.

Às 12h do dia 2 de outubro, as janelas do apartamento estavam abertas, a lasanha assava no forno, o pudim gelava e aquele ramo da família Sousa se reencontrava após ter cumprido, cada um na sua casa, o isolamento. Na noite anterior, Jéssica ficou ansiosa para o encontro, que ocorreu na casa onde ela mora com os pais, Margarida e Jeferson, seus companheiros durante a pandemia. Era de se esperar um sentimento assim, já que ela migrou para o trabalho remoto e chegou a ficar um mês sem pôr os pés fora de casa.

Foram oito pessoas no encontro. Elas não ficavam juntas desde o Natal de 2019, quando abraçar era o esperado, não motivo de medo. No último sábado, os comprimentos foram diferentes. “Abraço mesmo, de verdade, não teve. Foi aquele comprimento meio de lado”, conta Jéssica. A presença de Miguel, que até então só conseguia exprimir vontades por meio de choro, era um lembrete da passagem do tempo. Tinha aprendido até a andar. 

Em cinco horas, a família comprimiu a distância de um ano e dez meses. Teve um pouco de conversa de elevador: “A vacina doeu no seu braço?”. Outro punhado de atualização: “Como foi o último ano para você?”. 

“A pandemia é uma conversa difícil, que não tem muito como escapar. Mesmo que eu queira escapar é difícil”, conta Jéssica, a única do encontro que tinha tomado apenas a primeira dose contra a covid-19 e permaneceu de máscara.

Em Salvador, 44% da população está completamente imunizada e as taxas de contaminação caem a cada dia, devido ao avanço da vacinação. Na Bahia, dos 1,2 milhões de casos confirmados de covid-19 desde o início da pandemia, 2.693 encontram-se ativos.

Desde o mês passado, Jéssica tem reencontrado amigos - foram sete, em três saídas com máscara - e reviu o núcleo familiar mais próximo. Em todos, permaneceu de máscara. “Sinto que não é ainda totalmente natural interagir com as pessoas”, diz. Uma pesquisa da Associação Americana de Psicologia, publicada em março deste ano, mostrou que 49% das pessoas entrevistadas estavam apreensivas com interações sociais no pós-pandemia. A pesquisa não considerou a diferença entre encontros com pessoas imunizadas ou não.

Os reencontros são seguros? Infectologista responde

Os reencontros entre aqueles que adotaram medidas de isolamento social costumam ocorrer em grupos menores e com cuidados que, no passado, não passavam pela cabeça. Dizer que está com sintomas gripais é um deles.

Na semana do reencontro, a prima de Jéssica, mãe de Miguel, comunicou que estava com sinusite. “Quem antes dizia que estava com sinusite? Não se falava”, brinca Jéssica. Para ir ao encontro, a prima fez um teste PCR, que deu negativo para covid-19. Ainda assim, permaneceu de máscara durante o almoço.

“A gente vive um momento de diminuição sustentada de número de casos. É um momento que podemos começar a ter reencontros. Mas, sempre de maneira responsável”, explica a infectologista e pesquisadora da Fiocruz, Fernanda Grassi.

Há novos encontros ideais, segundo ela. As reuniões ao ar-livre ou em ambientes ventilados, com um número de pessoas que permita o distanciamento, são os mais adequados. O uso de máscara de tecido de qualidade, com três camadas de proteção, é o suficiente nesses ambientes. De preferência, os encontros devem ocorrer entre grupos completamente imunizados e sem abraços.

“Se acontecer esse abraço, porque a gente diz que não, mas pode ser difícil, sempre com máscara”, pontua Grassi.

Embora a principal forma de transmissão da covid-19 seja pelo ar, tocar superfícies contaminadas e levar as mãos aos olhos, boca ou nariz é uma “rota secundária de contaminação”. “Se for abraçar, precisa limpar as mãos em seguida”, indica Grassi. 

As pessoas que tomaram apenas a primeira dose da vacina devem, preferencialmente, aguardar a segunda para marcar com amigos e familiares. Mas, explica Grassi, uma forma de reduzir os possíveis danos de um encontro é torná-lo mais seguro. Nesse caso, optar por passeios ao ar livre, com todos de máscara, é a opção. Até porque a primeira dose da vacina não previne, por exemplo, contra as variantes da covid-19 hoje predominantes no Brasil, como a Delta.

“É importante a gente perguntar, antes do encontro, quem está com o esquema vacina completo. Se tem um não vacinado no grupo ele pode se infectar mesmo por pessoas vacinadas”, afirma Grassi.

Hoje, mais de um ano depois do início da pandemia, as pesquisas conseguem mostrar os impactos do isolamento e dos novos tempos na saúde mental, como aparecimento de quadros de ansiedade e depressão. Eles também têm tudo a ver com a sensação “esquisita” de rever quem não se via há tempos e provam que os encontros digitais não foram capazes de substituir o presencial.

“O movimento esperado é o de estranhamento em relação a coisas que antes eram típicas. Se vivemos um momento atípico, nossas emoções serão atípicas”, justifica o psicólogo e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Tiago Ferreira. 

Há uma diferença, no entanto, em relação ao que se faz com o estranhamento - se paralisar ou andar. O corpo reage às emoções de formas contraditórias e, no automático, pode nos levar à fuga de emoções difíceis. A resposta a essas emoções estão ligadas a algo que a psicologia chama de “flexibilidade emocional”. Cada um tem a sua própria flexibilidade ou inflexibilidade.

Hospitais e lares de idosos criaram novas maneiras de abraçar durante a pandemia (Foto: Tiago Caldas/Acervo CORREIO)

Não há motivos determinados para o porquê de certas pessoas serem mais flexíveis ou adaptáveis emocionalmente que outras. “Quando sentimos ansiedade, as vezes deixamos de ir a algum lugar, por exemplo, para evitar a ansiedade. O pulo do gato é caminhar para esse lugar junto com as emoções”, explica Tiago. 

A flexibilidade, resume ele, é ter abertura para sentir medo e não ser parado por ele. O contrário dela é evitar eventos que tragam sentimentos contraditórios, ainda que eles sejam desejados. “Algumas pessoas não querem sentir medo”.

Nas pessoas com menos flexibilidade, os impactos dos retornos são sentidos com mais força Tiago. Eles podem levar ao que a psicologia - novamente ela - chama de Evitação Experiencial. A esquiva da experiência é a tendência que seres humanos adquirem a evitar situações que possam trazer pensamentos negativos - no caso da pandemia, o medo de se contaminar ou infectar o outro - ou autodepreciativos. 

Em casos de paralisia completa diante do medo, o indicado é buscar uma psicoterapia. “A abertura para o mundo subjetivo novo é uma habilidade desejável. Isso ficou mais claro. Ficou mais claro também que o aprendizado é a maneira com a qual lidamos com o sofrimento”, conclui o psicólogo.

O aplicativo de relacionamento Hinge, do Reino Unido, cunhou a expressão “medo de ter um encontro de novo”, na tradução livre para o português, para se referir à apreensão de pessoas diante da possibilidade de novos encontros. 

Finalmente, os amigos

Mais cedo que o habitual, às 19h, os amigos começaram a chegar ao encontro. Eram dez pessoas que não se viam desde o início da pandemia. A reunião, promovida no apartamento de uma delas, marcaria o fim de uma espera de mais de um ano. “Todos estavam ansiosos e a gente chegou bem mais cedo que o convencional. Foi maravilhoso”, resume o economista Pedro Gramacho, 46. 

Os amigos estavam habituados a se encontrar sem necessidade de aviso prévio. Em dia de quarta-feira, por que não um jantar? “Tinha final de semana que a gente passava junto na casa de um, ou sexta num happy hour”, completa. A pandemia chegou e o contato se reduziu ao grupo de whatsapp e a um encontro que parte deles tiveram, na Igreja do Bonfim. 

A cada pessoa vacinada, uma comemoração conjunta surgia no grupo virtual, pois isso indicava que o reencontro estava mais próximo. A data escolhida foi o dia 31 de setembro. “Todo mundo chegou relaxado, brincando mais, quebrando o gelo”, conta Pedro. Quando deram por si, já era mais de meia-noite, e ainda havia muito conversar, mas será questão de tempo até atualizarem os assuntos.

“É emocionante para todo mundo o rever. Acho que foi assim para todo mundo”, diz Pedro, que já conseguiu encontrar os núcleos familiares mais próximos - todos completamente vacinados.

O medo do contato, que ficou evidente, está marcado por esses novos modelos de encontro. O individual, ficou mais que provado, é coletivo. “O medo do contato, que ficou muito evidente, gera bolhas. Com quem posso me encontrar, com quem não posso, de quem eu sinto falta”, elenca a doutora em Antropologia pela Universidade de Buenos Aires e pesquisadora da Antropologia do corpo Lucrécia Greco.

Agora, o momento não passa alheio a arbitrariedades. Por qual razão abraço ela e não abraço ele? Por que para esse amigo digo sim, para aquele, não? "O ideal da assepsia gera um tipo de vida em que o toque pode ser considerado como puro ou impuro e os limites podem ser nocivos”, acredita a pesquisadora, também professora da Ufba. 

Depois da gripe espanhola, a última pandemia que assolou o mundo, o sentimento de medo diante dos reencontros também reinou. No livro A Grande Gripe, do historiador John Barry, conta-se que eles ocorriam com menos frequência e que, quando acontecia, o desconforto estava presente. Por medo, muita gente continuou em casa. 

Os reencontros, durante esta nova pandemia, fazem todos pensar os limites do próprio corpo e se perguntar até onde o medo será um acompanhante. Eles também dirão muito, acredita Lucrecia Greco, sobre o projeto de mundo e vida que cada um quer construir a partir de agora. 

Confira as dicas para um reencontro seguro:

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas