Depressão, surdez e medo da morte: as marcas deixadas pela violência em Valéria

salvador
19.08.2021, 05:00:00
(Arisson Marinho/CORREIO)

Depressão, surdez e medo da morte: as marcas deixadas pela violência em Valéria

Apavorados, moradores deixam tudo para trás e tentam fugir do bairro

Apavorada, uma mulher caminhava apressada ao lado de viaturas de várias companhias de Polícia Militar enfileiradas na rua das Palmeiras, um dos focos da tensão no bairro de Valéria na manhã desta quarta-feira (18). Há dois meses, ela abandonou a casa por conta dos confrontos entre facções e ontem, aproveitou a presença do comboio da PM para retirar o que havia deixado para trás na saída de casa às pressas.  

“Saí de lá porque não estava dando para viver mais. Poderia morrer a qualquer momento. A frente de minha casa está cheia de marcas de tiros. Abandonei tudo. Eu e meu marido saímos com a roupa do corpo. Estamos voltando agora para pegar algumas coisas, como televisão e roupas, é o que podemos carregar. Mesmo com a polícia a gente está com medo porque pode haver um novo tiroteio a qualquer hora”, contou.

A casa que ela deixou fica próxima de uma escola municipal, palco dos confrontos. “Os tiros eram constantes. A gente não tinha paz. Eu fiquei com depressão, estou em tratamento. O meu marido acabou perdendo a audição de um dos ouvidos devido ao barulho. Eu tinha esperança que tudo isso melhorasse, mas não podia esperar a vida toda, precisava fazer algo e fui embora. Deixei fogão, geladeira, armários, tudo. Moro de aluguel em outro canto, aqui mesmo em Valéria. Tento alugar minha casa, mas quem é que quer viver num lugar desse? ”. 

Ela disse que outros moradores tiveram a mesma atitude de deixar as residências por conta da violência. “Muita gente saiu também. Tem muita casa lá cheia de marcas de tiro. Em alguns casos, as balas atravessaram portas e janelas e por pouco não atingiram as pessoas que estavam dentro. Taxistas, motoristas de aplicativo, motoboys, ninguém quer entrar lá, pois sabe o risco que corre”, disse.  

Tensão
A tensão em Valéria começou deste a última sexta-feira (13), após confronto entre as facções Bonde do Maluco (BDM) e a Katiara. Na madrugada desta segunda (16) houve mais uma troca de tiros  e uma escola teve as aulas presenciais suspensas.  De lá para cá, a Polícia Militar reforçou suas ações no bairro, mas não conseguiu impedir mais um confronto entre traficantes na manhã desta quarta-feira (18).  

Moradores relataram muitos tiros desde às 6h30, na rua das Palmeiras, Boca da Mata, na localidade do Penacho Verde. Com o clima de insegurança, o comércio fechou as portas e os ônibus pararam de circular. Os moradores estão andando do Largo de Valéria até Nova Brasília, percurso de aproximadamente 2,5 km.

No início da manhã os estalecimentos comerciais não abriram

(Foto: Arisson Marinho/CORREIO) 

Mais de 10 viaturas ficaram concentradas em Nova Brasília de Valéria, no começo da manhã. Diversas viaturas da Patamo, Rondesp, Gêmeos, 31ª CIPM (Valéria) e 18ª CIPM (Periperi). Com armas em punho, os policiais fizeram incursões nas localidades. Nas ruas, poucas pessoas circularam. 

A Fábrica Gerdau, que fica no bairro, suspendeu as atividades nesta quarta, devido aos tiroteios. Os funcionários que estavam na sede só puderam sair com a chegada da polícia. De acordo com funcionários, a fábrica não vai funcionar hoje e não há previsão de reabertura. 

Ocupação
A Polícia Militar informou nesta quarta-feira (18) que iniciou uma operação especial em Valéria e adjacências, sem previsão de fim. A região vive momentos de tensão com vários tiroteios sendo registrados em meio a uma disputa entre facções criminosas. 

Polícia Militar ocupa o bairro com prazo indeterminado 

(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Em nota, a PM diz que a determinação partiu do comandante geral, coronel Paulo Coutinho. A operação vai reforçar o policiamento em toda a região, com presença da Companhia de Patrulhamento Tático Móvel (Patamo), do Batalhão de Choque, da Operação Gêmeos, do Grupamento Aéreo (Graer), do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), dos Pelotões de Emprego Tático Operacional (Peto), do Comando de Policiamento Regional da Capital (CPRC) – Baía de Todos-os-Santos (BTS), além das guarnições da 31ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM), que faz a segurança na área.

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