Desabastecimento nos postos aumenta procura por Kit Gás em Salvador

salvador
30.05.2018, 04:39:00
(Marina Silva/CORREIO)

Desabastecimento nos postos aumenta procura por Kit Gás em Salvador

Tire suas dúvidas sobre o sistema GNV e veja se vale a pena tê-lo no carro

Com os recentes aumentos no preço da gasolina e o recente desabastecimento nos postos por conta da greve dos caminhoneiros, cresceu em até três vezes a procura dos motoristas pela conversão para o Gás Natural Veicular (GNV) em Salvador. A opção já é adotada por 103 mil veículos na Bahia - cerca de 60 mil na capital e 40 mil cadastrados na Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran). Em Salvador, a instalação custa de R$ 3 mil a R$ 5 mil e demora de um a sete dias para ser feita em uma oficina credenciada junto ao Inmetro.

A procura pelo Kit Gás, como é conhecido o sistema, aumentou em dois momentos, de acordo com comerciantes ouvidos pelo CORREIO. O primeiro, há pelos menos quatro meses, quando os preços dos combustíveis nas refinarias começaram a aumentar; e o segundo, mais aumento recente aconteceu com a escassez da gasolina nos postos devido à paralisação nacional dos caminhoneiros. Como o gás natural é entregue nos postos de combustíveis por meio de gasodutos subterrâneos, não há qualquer dependência do sistema de transporte rodoviário.

No estabelecimento Gás Point Centro Automotivo, na Avenida Ogunjá, a procura nos últimos meses aumentou cerca de 50%, quando os preços dos combustíveis subiram gradativamente. A procura se intesificou na última semana, algo em torno de 150%, desde que a gasolina passou a faltar nos postos, calcula Celson Fernandez, proprietário do local.

Se antes os kits eram instalados em dois carros por dia, agora são em média cinco automóveis que saem de lá equipados para circular com o GNV. E quem procura o espaço para a instalação do kit tem escutado um 'não', já que a demanda tem sido alta demais.

"Nesse momento de greve, só quem tem o kit estava conseguindo abastecer e circular porque o gás é canalizado, não depende de transporte. O mercado já vinha aquecido e já estávamos trabalhando com agendamentos, agora estamos tendo que remarcar os clientes", explica Celson.

Segundo Celson Fernandez, a procura pela instalação do Kit Gás se intesificou na última semana
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Por lá, o kit é vendido por preços de R$ 3,5 mil a R$ 4,7 mil. O valor varia de acordo com o modelo do carro e de cada kit. Os convencionais, de terceira geração, são os mais baratos, e os injetados, de quinta geração, custam mais, já que são mais potentes e modernos. “O preço de um para o outro varia R$ 1 mil. O kit da terceira geração é o mais básico e garante uma economia de combustível de até 60%/ 65%. O de quinta geração, ao invés de ser inspirado é injetado. O controle de injeção é eletrônico e dá uma resposta mais rápida. A economia de combustível pode chegar a 70%”, afirma.

Mas, se a demanda cresceu rapidamente, a oferta dos kits anda a passos de tartarugas - ou melhor, nem sai do lugar. Isso porque, com as principais vias do país bloqueadas, o fornecimento das peças foi cortado. O que resta em estoque já foi vendido ou espera na fila para ser instalado. Na loja de Celson, por exemplo, só há peças para mais uma semana de instalação. Depois disso, o serviço será suspenso caso as vias não sejam liberadas pelos caminhoneiros.

"Tem caminhões carregados parados nos pátios dos fornecedores sem poder sair. Com a demanda crescendo vamos ter que parar. Não vai ter para quem quer", lamenta. 

Um outro fator que ajuda a aumentar a procura é a economia que o kit traz para o usuário. No levantamento de preços divulgado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o valor médio do GNV vendido nos postos do estado é R$ 2,57. De acordo com Celson, com o metro cubíco do gás o motorista tem cerca de 30% a mais de autonomia em relação ao litro da gasolina, chegando a ser cerca de 70% mais econômico que um tanque convencional.

Na Buri Gás Veicular, a procura registrada nos últimos dias é tanta que a fila de espera para instalação do kit de gás chega a 15 dias. “Não estou conseguindo atender a demanda de tão alta que a procura. Estamos procurando profissionais para contratar, mas está difícil encontrar uma mão de obra especializada”, afirma a gerente da loja, Simone Carvalho.

No inicio do ano, eram 15 a 20 conversões por mês. Hoje, a loja está agendando, pelo menos, três por dia e deve fechar o mês com 60 conversões - o triplo do volume. “Nunca tive um agendamento tão longo. Nesse mês, o movimento está realmente bem alto”, completa. Lá, a instalação do equipamento de terceira geração custa R$ 3,6 mil. O de quinta geração sai por R$ 4,5 mil. A Buri parcela a conversão em até dez vezes e garante um desconto de R$ 300 para o consumidor que pagar à vista.

No Autogás F. Sampaio, na Ogunjá, a busca pelo equipamento também aumentou cerca de 60%, segundo os cálculos do proprietário Fabrício Sampaio. O estoque por lá anda melhor que no Gás Point Centro Automotivo; as instalações devem acontecer normalmente pelos próximos 30 dias. "Isso porque já vinhamos abastecendo antes da greve, mas temos pedidos que estão presos, sem conseguir sair do pátio dos fornecedores", conta Fabrício. 

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Vale, mas pra quem roda mais
Apesar de ser mais barato, o GNV não é uma solução imediata para o desabastecimento nos postos, afirmam os especialistas ouvidos pela reportagem. Para o professor de Finanças e Economia da Unijorge Antônio Carvalho, se o motorista considerar puramente o preço do combustível verá que o GNV é mais vantajoso. "Com o GNV, dá para fazer entre 14 e 16 quilômetros por metro cúbico. Com o m³ custando em média R$ 2,54 na capital baiana, o motorista gasta R$ 0, 16 por quilômentro rodado. Comparando ao preço médio da gasolina (R$ 4,75) em Salvador e levando em consideração um consumo médio de 12 km/L - o que um veículo no meio urbano faz - o motorista gasta R$ 0,40 por quilômentro rodado. É uma diferença considerável. Já no caso do álcool, o preço fica em R$ 0,50 por quilômetro rodado", simula Carvalho.

A instalação do kit, entretanto, deve ser ponderada. Isso porque o custo é elevado, e pode chegar a R$ 5 mil em Salvador. Depois da instalação, o motorista terá ainda que pagar a vistoria do veículo. "Ao instalar o equipamento, o motorista altera a estrutura original do veículo e perde a garantida. Como torna o veiculo mais pesado, provoca um desgaste das peças e deprecia no mercado", explica o professor. No ponto de vista da economia diária, ele acredita que a troca vale mais a pena para taxistas e motoristas de aplicativos, que usam os carros por mais de 8h por dia. "É natural que, por conta da instabilidade política e econômica, as pessoas façam esse tipo de opção. Não é recomendado para quem usa o automóvel em pequenos trechos. Mas para profissionais liberais que trabalham com entregas e motoristas, não tem como comparar. É muito vantajoso", afirma. 

É o caso do motorista do aplicativo Uber, Maurino Souza, 32, que instalou um kit injetado, o mais caro - único que seu modelo de carro aceita - por R$ 4,7 mil. O investimento, segundo ele, vale o esforço. 

"Tiramos esse investimento rápido. Dividimos o valor da instalação e conseguimos isso em pelo menos quatro meses. Esse é o segundo veículo que faço a instalação", conta o motorista. 

Com o tanque de combustível cheio de gasolina, ele consegue rodar até dois dias, gastando cerca de R$ 200. Já com o GNV, ele deve gastar em torno R$ 100. 

O motorista de Uber Maurino Souza gastou R$ 4,7 mil para implementar o kit de gás natural no seu carro; mesmo assim, acha que o investimento vale a pena
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Ricardo Nogueira Magalhães, coordenador dos cursos de Engenharia Ambiental e Engenharia de Produção Química da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC - Salvador), acredita que - no longo prazo - o investimento pode ser bom até para quem roda menos. 

"Antes de decidir se vai ou não implantar o kit de gás no carro, é preciso considerar a quantidade de quilômetros rodados no mês. Se o motorista rodar em torno de 2 mil quilômetros no mês, até o investimento no kit mais caro vai se pagar em dez meses, Já se rodar 4 mil quilômetro por mês, vai recuperar o investimento em quatro meses", avalia.

No caso de motoristas de aplicativo, como Maurino, o investimento será recuperado em poucos meses. Já quem percorre menos distâncias, vai demorar mais. "Se pesquisar e pensar bem, vale a pena para qualquer um. Até no caso de quem roda menos, é um ano para se pagar. Como a vida útil dele é maior que isso, a taxa de retorno do investimento é interessante, mesmo demorando mais", opina Magalhães.

Além do investimento, os motoristas devem considerar que, no estado, apenas 63 postos fornecem GNV para abastecimento. Outros fatores, como o quanto cilindro irá ocupar do porta-malas, também devem ser avaliados. "Quem adotar o GNV, precisa saber ainda que não pode rodar apenas no gás. Por dia, o ideal é usar de 3 a 5 km na gasolina ou no álcool para não haver um desgaste no cilindro. Como nossos carros foram feitos para combustível líquido, perdem um pouco da lubrificação e podem ter mais desgaste. É bom rodar também para não deixar a gasolina envelhecer no tanque", recomenda. Outra indicação é que a instalação seja feita em oficinas especializadas - já que a maioria dos acidentes que ocorrem com veículos de combustível GNV são causados por kits fora do padrão: "Dê preferência a cilindros novos, com selo do Inmetro".

Alternativas
Todo esse movimento acontece, para Antonio Carvalho, porque não há combustíveis alternativos. "Estive na França e lá o uso do automóvel elétrico é muito intenso. O carro elétrico só não deslanchou ainda porque tem uma autonomia baixa. Mas lá os carros do tipo são pequenininhos e são usados majoritariamente no meio urbano. Em qualquer lugar, a pessoa para e faz a recarga. No Brasil, isso é uma promessa distante", avalia.

Segundo ele, quando o etanol foi lançado, nos anos 70, a sociedade achava que seria um combustível alternativo, assim como o GNV. "Mas perdeu a condição de alternativo quando foi atrelado à gasolina. E, pelo menos aqui em Salvador, não vale a pena, então as pessoas nem consideram", completa.

Sistema de alta pressão
1 – Cilindro e válvula de alta pressão para armazenar o GNV
2 – Válvulas do compartimento de acesso para abastecimento com GNV
3 – Redutor que alivia a pressão do gás para alimentar o motor

Sistema eletrônico
4 – Chave para o motorista escolher o combustível a ser usado
5 – Bicos para a injeção do gás no motor. Há também sensores de temperatura e pressão
6 – Central eletrônica (ECU) de controle da quantidade de combustível a ser injetado, além de fornecer o diagnóstico do sistema de gás

(Ilustração: Comgás)

Tira-dúvidas sobre o uso de Gás Natural Veicular

O que é GNV?
É a sigla para Gás Natural Veicular. Esse é o mesmo gás natural usado em residências, comércio e indústria (não confunda com o GLP, o gás de cozinha), mas aplicado sob alta pressão em veículos através de cilindros especiais. É um combustível alternativo à gasolina e álcool.

É seguro?
Se for realizada a instalação adequada, sim. Os cilindros de armazenamento são muito mais resistentes do que botijões, tornando praticamente nula a chance de vazamento.

Qual é a economia na hora de abastecer?
Com os preços atuais, pode chegar a 65% em relação à gasolina e a 75% em relação ao etanol. Abastecendo R$ 20 de GNV, é possível rodar cerca de 100 quilômetros, quase o dobro do que se roda abastecendo com gasolina.

Quanto custa fazer a conversão?
Fazer a conversão para o kit mais atual, de quinta geração, fica em torno de R$ 4,5 mil. Mas, de acordo com o tipo de veículo e modelo do kit, esse custo pode ser um pouco maior ou menor. Existem ainda taxas do Detran. Veja o passo a passo abaixo.

Quais outros benefícios, além da economia?
A combustão do GNV tem baixíssimo nível de resíduos, o que aumenta a vida útil do carro. Também é mais seguro porque, durante o abastecimento, o gás não entra em contato com o ar, evitando risco de explosão. O GNV é 100% puro, sem risco de sofrer adulteração.

Em quanto tempo se tem o investimento de volta?
Varia de acordo com o uso do veículo. Quem circula mais, certamente verá o investimento voltar mais rápido. Um automóvel que percorre em torno de 100 quilômetros por dia (equivalente a 3 mil quilômetros por mês), por exemplo, esse investimento pode ser pago em até nove meses. Dependendo da oficina instaladora escolhida, pode-se parcelar o pagamento.

Onde se faz a conversão para GNV?
Existem instaladoras homologadas pelo Inmetro. A lista que pode ser conferida neste site

Quais as desvantagens do GNV?

  • Mesmo com avanços na tecnologia do kit da mais recente geração, ainda há perda de potência nos carros com o GNV. Essa perda é mais sensível nos veículos de menor potência;
  • Perda de espaço para bagagem por conta da instalação do cilindro. Em alguns veículos, isso pode ser resolvido com a instalação do kit embaixo do veículo;
  • A conversão faz o veículo perder a garantia da montadora;
  • O GNV não é encontrado em todos os postos de combustíveis. Isso exige mais planejamento na hora de abastecer;
  • O motorista precisa levar em conta a documentação necessária junto ao Detran/BA, porque haverá alteração nas características do carro. O dono deve levar o veículo para vistorias no órgão. Para um veículo de passeio com até 15 anos de fabricação, as taxas aproximadamente cerca de R$ 470.

Passo a passo da conversão

  1. Solicite em um Centro de Registro de Veículos Automotores (CRVA) a autorização para alterar combustível;
  2. Leve o veículo para adaptação em oficina credenciada junto ao Inmetro;
  3. Após convertido, o veículo deve ser inspecionado em organismo de inspeção credenciado pelo Inmetro, com a autorização do Detran, a nota fiscal do serviço e o Atestado de Qualidade do Instalador Registrado para a obtenção do Certificado de Segurança Veicular (CSV).
  4. Com o CSV e a nota fiscal do equipamento em mãos, o motorista deve reapresentar o veículo no CRVA para o registro da alteração do combustível;
  5. Registrada a alteração de combustível, o proprietário retornará ao organismo de inspeção para colocação, no para-brisa, do selo que permite o abastecimento.

*Com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier.

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